Herman, ausência notada

Ruy de Carvalho voltou a ser aplaudido de pé. Herman faltou, mas ganhou dois prémios. José Alberto Carvalho deu uma lição de jornalismo a Peter Arnett. Os Globos de Ouro foram uma cerimónia previsível, quase caseira, pontuada por dois únicos percalços: os problemas de dicção de Catarina Furtado e a desafinação de Paul Young. No domingo à noite, a SIC distinguiu o fadista Carlos do Carmo com o Globo de Ouro por Mérito e Excelência.

Mesmo sem a "meia hora de gargalhada grátis" que a presença de Herman José habitualmente proporciona, a gala de atribuição dos Globos de Ouro foi vista no domingo à noite por um milhão e setecentos mil espectadores. O "acontecimento televisivo do ano", como a SIC apregoou durante toda a semana, foi a escolha de quase 70 por cento dos espectadores que nessa noite decidiram ver televisão. Vencedor antecipado dos Globos, a ausência de Herman José obrigou Catarina Furtado, apresentadora do espectáculo pelo quarto ano consecutivo, a justificar a falta, antes do anúncio dos nomeados na categoria de melhor apresentador de entretenimento. Herman José estava, explicou, "em viagem para apresentar outra gala". Catarina não esclareceu se era para os Troféus Nova Gente que a RTP agendou para a próxima segunda-feira. Também calculando que Herman Enciclopédia venceria o Globo de melhor programa de entretenimento, a equipa das Produções Fictícias decidiu convidar a loura Ellen a subir ao palco do Coliseu dos Recreios. A modelo nunca escreveu uma única linha nem criou um só "sketch" humorístico, mas estava "fisicamente à altura de tanta exposição televisiva". Os "rapazes" esperam que Ellen seja um "incentivo" para que os leitores da revista "Caras" e da SIC votem, no futuro, nos programas em que a equipa esteja envolvida.Numa cerimónia muito previsível, Médico de Família foi como se esperava considerado o melhor programa de ficção e comédia e o actor Ruy de Carvalho eleito personalidade do ano no teatro. O jornalista norte-americano Peter Arnett, enviado da CNN a Bagdad durante a guerra do Golfo, tentou ensinar como é que se faz jornalismo de guerra e acabou por ouvir uma lição de ética jornalística de José Alberto Carvalho, autor de um discurso inspirado que mereceu um "muito bem" de Pinto Balsemão. O "pivot" do Jornal da Noite venceu pelo segundo ano consecutivo o Globo de melhor apresentador de informação. Outra coisa não seria de esperar, já que o seu mais directo rival, José Rodrigues dos Santos, nem sequer tinha sido nomeado. Numa "homenagem à liberdade" no ano em que se comemoram 25 anos sobre o 25 de Abril, a SIC decidiu não impor limites de tempo aos habituais discursos de agradecimento. O que permitiu que Rui Veloso (Globo de melhor canção e de melhor intérprete) aproveitasse "todo o tempo do mundo" para mandar beijos para a família. De resto, a gala dos Globos de Ouro foi, além de previsível, caseira. David Fonseca dedicou o prémio de melhor grupo musical aos pais (porque votaram nos Silence 4) e ao irmão (por lhe ter emprestado o casaco). O estilista José Manuel Gonçalves (Personalidade do Ano 98 no campo da moda, em conjunto com Manuel Alves) mandou recados para a irmã (estava em Braga doente). E Federico, filho de Ana Burstoff, explodiu de contentamento quando a mãe foi considerada a melhor actriz de 98 graças ao desempenho em "Zona J". O realizador do filme, Leonel Vieira, tentou, sem conseguir, disfarçar a frustração de ter perdido o Globo de Melhor Cineasta para o ausente Manoel de Oliveira. Como consolação viu o produtor do seu filme, Tino Navarro, ficar com o galardão de melhor filme de 1998. Globo de Ouro na categoria de melhor actor de cinema no duvidoso "Pesadelo Cor-de-Rosa", Diogo Infante acabou por admitir que quem merecia ganhar era Vítor Norte.Já passava da uma da manhã quando Carlos do Carmo foi chamado ao palco para receber o Globo de Ouro por Mérito e Excelência. Uma "surpresa" que o fadista agradeceu plagiando uma afirmação de Marcello Mastroianni: "Escolhi a profissão que queria, tenho paixão por ela, pagam-me, de vez em quando ainda me dão prémios e até me aplaudem. O que posso querer mais?Os quase dois milhões de espectadores desejavam não ter sido sujeitos aos problemas de dicção de Catarina Furtado, aos atropelos à afinação de Paul Young (um ídolo das adolescentes do início dos anos 80) e à completa inaptidão do espanhol Alexandre Sanz para o "playback".