Um salazarista irreverente

Para não ficar atrás de Lisboa e do Porto, Braga vai ter também a sua televisão regional, a cargo da TV Cabo. O acordo entre a autarquia e a Telecom será assinado na próxima semana e contempla igualmente a existência de um canal com informações úteis, da responsabilidade da câmara. O protocolo vai permitir ainda retirar todas as antenas do centro histórico da cidade.

Pedro Moutinho, uma das principais vozes da rádio do Estado Novo, morreu ontem em Lisboa, aos 80 anos. Membro da mesma geração de grandes locutores a que pertenceram Artur Agostinho, Fernando Pessa, Maria Leonor (com quem foi casado), Curado Ribeiro e Igrejas Caeiro, Pedro Moutinho trabalhou durante 34 anos na Emissora Nacional e colaborou na RTP durante 12 anos. O corpo do radialista está em câmara ardente na Igreja do Santo Condestável e o funeral realiza-se hoje às 15h para o Cemitério dos Prazeres. Com uma voz única e um timbre perfeito, Pedro Moutinho entrou pela primeira vez na Emissora Nacional para cantar. Tenor num grupo coral da Casa das Beiras, o filho do jornalista do "Diário de Notícias" Abel Moutinho aproveitou o recital para conhecer Fernando Pessa. Regressou, em 1942, para se sujeitar ao concurso de admissão de locutores e, "embora completamente às cegas", ingressou rapidamente nos quadros.Até 1976, ano em que foi reformado compulsivamente, apresentou noticiários, programas musicais e durante anos acordou os portugueses com o Programa da Manhã. O excelente profissional ontem recordado por Artur Agostinho ao PÚBLICO era um "locutor sério e competente". Mas também "uma pessoa divertidíssima", um amigo com quem fez várias reportagens, como a visita da rainha Isabel II a Portugal nos anos 60. Brincalhão e com uma enorme capacidade de improviso, são muitas as histórias protagonizadas por Pedro Moutinho na Emissora Nacional. Um dia, como a produção não lhe entregou a previsão meteorológica, pediu desculpa aos ouvintes, saiu do estúdio, foi à janela e quando regressou abriu o microfone para dizer: "O tempo está bom, não tem cara de chuva". Noutra ocasião, quando apresentava uma rubrica instrumental pré-gravada, a bobine bloqueou. Moutinho não se atrapalhou: "Terminamos este programa com um solo de gongo". A seguir, desatou a bater no gongo do sinal horário.Tinha o mesmo à vontade a apresentar, em parceria com Artur Agostinho e o actor Humberto Madeira, os espectáculos musicais feitos no antigo Éden. E estava tão seguro do seu valor profissional que passava os telejornais da RTP a atirar "clips" a "um rapaz tímido chamado Henriques Mendes". O colega jamais perdeu a compostura, nem sequer no dia em que Pedro Moutinho lhe despejou um copo de água pelo colarinho abaixo.Salazarista confesso, Pedro Moutinho orgulhava-se de uma vez ter apertado a mão a Oliveira Salazar - "mas nunca fui dos submissos". Embora afirmasse nunca ter dado pela censura, nunca ter sentido a presença dos fiscais dos programas, considerava que a dimensão política e humana do Presidente do Conselho era tal, "que ninguém podia deixar de o respeitar". Reformado desde 1976, Pedro Moutinho falava do 25 de Abril como "a tal data". "Não estava preparado para uma mudança de regime assim tão rápida e, por isso, tenho a impressão de que há outro homem em mim. Um homem mais triste, menos expansivo, mais desconfiado e também desiludido", confessou numa entrevista publicada pelo semanário "O Diabo".Entre a "tal data" e a reforma, Pedro Moutinho esteve na prateleira da RDP: "Não fazia absolutamente nada: não me pediam nem me deixavam fazer nada". Alguns amigos aconselharam-no a pedir a reforma e receando o despedimento sem direito a indemnização, o locutor submeteu-se a uma junta médica. "Estávamos no período do Vasco Gonçalves e não era de arriscar. Os médicos perceberam as razões da minha reforma", explicou. Após 34 anos a trabalhar para o Estado Novo, o regime democrático contemplou-o com seis contos e oitocentos de reforma, o mesmo ordenado de um locutor de primeira classe, o escalão mais alto da RDP em 1976. Afastado da rádio e da televisão, Pedro Moutinho passou as últimas duas décadas a ler jornais e a ver televisão - "vivo a vida o melhor que posso e sei, sou um protegido de Deus, um homem abençoado com uma longa vida plena de alegrias, saúde e felicidade". Nunca mais ouviu rádio, não estava disposto a ouvir as "asneiras" dos "apressadinhos", nome com que rotulava os locutores dos anos 90.