Dos testículos ao cérebro

Doenças neurológicas graves e ainda sem cura, como a de Parkinson ou a de Alzheimer, podem vir a beneficiar de um transplante inusitado: segundo cientistas norte-americanos, as células responsáveis pela produção de espermatozóides nos testículos são capazes de regenerar os tecidos cerebrais.

Muitas mulheres dizem que os homens pensam com o sexo em vez de usarem o cérebro. Não é que tenha sido encontrada a prova científica desta afirmação, mas uma equipa de cientistas norte-americanos descobriu características comuns entre células cerebrais e dos testículos, que poderão permitir tratar doenças neurológicas degenerativas como as de Parkinson e Alzheimer através de transplantes celulares.O trabalho de Paul Sanberg, director para a investigação no departamento de neurocirurgia da Universidade do Sul da Florida, em Tampa, não passa discretamente, onde quer que seja apresentado. Foi isso mesmo que aconteceu no encontro da Associação Americana para o Avanço da Ciência, que está a decorrer em Anaheim, na Califórnia (EUA). "Sim, é muito engraçado, mas é verdade que o cérebro e os testículos têm pontos comuns, em termos químicos", disse o cientista à BBC Online.O ponto de partida de Sanberg - que tem uma ampla actividade de investigação em doenças neurológicas, como Parkinson, Alzheimer e síndroma de Huntington - foi a descoberta de que transplantes de tecidos cerebrais de embriões abortados para o cérebro de pessoas afectadas pela doença de Parkinson proporcionavam algum alívio aos doentes. O que acontece é que o transplante permite aos neurónios produtores de dopamina voltar a funcionar - esta doença provoca a morte gradual das células que produzem dopamina, um neurotransmissor necessário para o controlo dos movimentos. Quando os medicamentos existentes deixam de funcionar passados poucos anos ou nem sequer ajudam a deter a progressão da doença, esta parecia ser uma linha de trabalho promissora. Mas a investigação com embriões humanos envolve sempre questões éticas muito delicadas, pelo que não foi muito desenvolvida. Por isso, Sanberg tentou uma abordagem diferente: injectou directamente no cérebro de ratinhos que sofriam das perturbações do equilíbrio e do descontrolo motor característicos da doença de Parkinson um tipo específico de células que existem nos testículos, chamadas de Sertoli, e cuja função é fornecer os nutrientes e factores de crescimento necessários para a produção de espermatozóides. E constatou que os ratinhos melhoraram significativamente. Os factores de crescimento produzidos pelas células de Sertoli fazem com que os neurónios produtores de dopamina voltem a dividir-se e a formar novas conexões. Desta forma, os indivíduos doentes recuperam parte da capacidade de controlar os movimentos. Não se sabe ainda ao certo como é que as células de Sertoli conseguem deter e contrariar a degeneração neurológica, mas parecem proteger os neurónios da mesma forma que fazem com os espermatozóides.Mas as células de Sertoli têm ainda mais uma característica que as torna especialmente interessantes para terapias que envolvam transplantes: "Estas células segregam uma substância que provoca a morte dos linfócitos, para que estes não ataquem os espermatozóides que estão a ser criados", explicou Sanberg à BBC. Portanto, são capazes de criar uma barreira imunitária que bloqueia a acção dos glóbulos brancos, que protegem o organismo das infecções atacando corpos estranhos e, por isso, provocam reacções de rejeição aos transplantes. Por causa desta característica, Sanberg espera poder vir a utilizar células de Sertoli de outros animais - como o porco - para fazer transplantes e tratar doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer, ou mesmo as consequências de tromboses. Isto porque estas células são difíceis de colher nos seres humanos, pois tendem a juntar-se nos testículos de uma forma muito apertada, o que torna a sua extracção de homens adultos quase impossível.Mas, embora os resultados desta investigação já tenham sido publicados em Outubro de 1997, na revista "Nature Medicine", e Sanberg já tenha vendido os direitos do seu trabalho a uma empresa de New Jersey, a Theracell Inc., ainda não teve autorização para fazer testes em seres humanos. Espera tê-la, no entanto, dentro de dois anos, para testar a possibilidade de usar esta terapia para tratar várias doenças neurológicas e também para evitar as reacções de rejeição aos transplantes - sobretudo de xenotransplantes (órgãos de animais transplantados para seres humanos). Mas, por agora, tudo o que se sabe é que esta terapia parece funcionar em ratinhos. Certo é que faz um sucesso enorme: "Sempre que apresentamos este trabalho, as atenções concentram-se nele. Primeiro as pessoas ficam surpreendidas pela relação entre as células de Sertoli e as neurociências, mas rapidamente passam à fase de fazer piadas que ligam o cérebro e o sistema reprodutor masculino", diz o presidente da Theracell.