Quem é o herdeiro do afrobeat?

O rei está morto, viva... quem? Um ano e meio após a morte de Fela Kuti, o grande patriarca da música moderna africana, a Nigéria procura um sucessor. Filhos não faltam e músicos também não. Mas como descobrir um génio artístico com consciência política à altura de Fela?

Num país de clivagens sociais tão violentas como é a Nigéria, os poderes instituídos não consolam uma população de 112 milhões de habitantes. E um músico não se limita a dar espectáculo para o seu esforço ser reconhecido, tem de usar a sua voz e justificá-la perante aqueles que o rodeiam e sofrem. Desde que morreu Fela Kuti, o clã de músicos e familiares que o rodeavam procura um sucessor. Femi Kuti, 36 anos, é aparentemente o herdeiro legítimo. Chegou a tocar com o pai, substituiu-o à frente da Orquestra Egypt 80 quando Fela foi preso em 84, é um homem esclarecido politicamente (criou o Movement Against Second Slavery, movimento contra novas formas de escravidão) e também pratica o "afrobeat", estilo de música criado por Fela depois de conhecer a música negra americana e aprofundar as raízes urbanas da música nigeriana. Femi tem contra si um talento musical bem inferior ao de Fela, que o chegou a acusar em 1989 de fazer péssima música. Além disso, abandonou a orquestra de Fela em 86 para criar o seu próprio grupo, desgostoso pelo facto de o pai desvalorizar a música e preferir fazer comícios políticos nos concertos, criando grande antipatia entre os seguidores do autor de "He Miss Road". De qualquer forma, a sua forma de pensar independente, actuando de forma mais serena e discreta, dá-lhe crédito e iniciou a sua carreira a solo na Europa, sem a ajuda de Fela. Além disso, a sua mãe é inglesa e tem passaporte britânico, podia abandonar o cenário de conflitos e injustiças sociais de que é testemunha diária em Lagos. Mas preferiu manter-se na África e responder ao apelo de uma família ancestral e com uma marca importante na história do povo nigeriano. Saxofonista e cantor, como o pai, Femi Kuti lançou no final do ano passado um novo álbum, "Shoki Shoki" (edição Barclay), em que procura adaptar as longas improvisações sobre uma mesma base rítmica, que caracterizam o afrobeat, a um formato mais "amigável" para o tempo de antena que as rádios e os canais de televisão reservam a cada música. No entanto, parece não querer abdicar do hipnotismo e da força encantatória formulada por Fela. Como afirmou à revista francesa "World": "É um disco de divertimento, que representa um aspecto desconhecido do meu trabalho habitual. Gravei-o em Junho de 97, não reflecte nada do período terrível por que viria a passar, com a morte do meu pai, do meu primo e da minha irmã mais nova, que dançava e cantava no meu grupo." Como Femi tem um grupo próprio, os Positive Force, põe-se também a questão da orquestra do pai, Egypt 80, que actualmente é liderada por Seun Kuti, com 16 anos. De resto, de acordo com os críticos que a 15 de Outubro assistiram em Lagos ao concerto dos 60 anos sobre o nascimento de Fela, foi Seun quem provou ter maiores dotes musicais. Mas há ainda duas filhas, Shalewa e Motunarayo, o filho mais novo, Kunle, e Oyinade Adeniran, antigo saxofonista tenor dos Egyp 80 que formou o seu próprio grupo e pretende assumir-se como o grande continuador do afrobeat. Rei morto...Apesar de o título de "rei da música" na Nigéria ter sido atribuído pelo sistema a King Sunny Ade, um ano e meio após a sua morte, torna-se claro que Fela Kuti era de facto o verdadeiro patriarca da música nigeriana. Se assim não fosse, como justificar toda esta febre da família Kuti, com os seus muitos filhos a procurarem tomar o lugar deixado pelo pai? Ou como justificar ainda que um milhão de pessoas tenha assistido ao seu funeral? Ou que 30 mil se tenham reunido no estádio Tafawa Balawa, para celebrar o sexagéssimo aniversário do seu nascimento e escolher o seu sucessor preferido? Recordado hoje no seu país como um salvador, Fela Ransome Kuti, que depois se auto-rebaptizou Fela Anikulapo Kuti (Ransome queria dizer na língua yoruba escravo) morreu a 2 de Agosto de 1997 com 58 anos, deixando para trás um legado pesado de mais para os seus descendentes, apesar de eles serem muitos (só viúvas deixou 27). Inventor do afrobeat, a herança que deixou não era apenas musical, mas também fortemente interventiva. Durante três décadas criticou de peito aberto os diversos regimes militares que se sucederam na Nigéria e chegou mesmo a candidatar-se à presidência e a criar o partido Movement of the People, quando no princípio dos anos 80 foram convocadas eleições. Não tomou o poder. De qualquer forma, como não podia viver sem liberdade nem abandonar o seu povo, já tinha criado nos arredores de Lagos a República de Kalakuta, que tanto irritava e ainda hoje irrita o poder instituído. (O Sons publicou em 15 de Agosto de 1997 "Aquele que não foi morto pelos homens", uma biografia mais pormenorizada de Fela Kuti). Monarquia popO leitor já pensou que não faz a mínima ideia se a Amália tem filhos? E que, mesmo se os tivesse, nunca o preocupou a descendência musical que pudesse ter sido legada pela grande cantora portuguesa? A verdade é esta, num estado de tradição laica, os poucos que se atormentam com questões desta natureza são tantos como a minoria monárquica que há uns anos perdia o sono com a descendência da casa de Bragança. Na Inglaterra, onde a importância da monarquia sofreu uma forte erosão, o assunto já é entendido com algum divertimento e depois do desapontamento de Julian Lennon, os entusiastas da pop lá se vão conformando com a carreira modesta de Sean, o filho mais novo de John Lennon. No entanto, apesar de não acreditarem com grande convicção na passagem de talento por via sanguínea, vivem obcecados com os herdeiros de talento dos Beatles. Veja-se o caso dos Oasis, um grupo que só bateu recordes de vendas para que toda a gente pudesse confirmar que o seu génio tem mais a ver com carácter (ou seja, mau génio) do que propriamente com criatividade artística. A verdade é esta: de um descendente não se espera grande imaginação, mas apenas uma cópia. Enfim, as árvores genealógicas são como as de fruto. As laranjas de hoje são iguais às que se comiam há 50 anos, as pessoas é que se queixam que antigamente sabiam melhor.