Crónica

César Monteiro em Gijón

O jornal PÚBLICO insere na sua edição de 29 de Novembro uma notícia sobre alguns incidentes provocados pela minha pessoa, no âmbito de uma retrospectiva de alguns dos meus filmes, organizada pelo festival de cinema de Gijón.

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daniel rocha

Este texto escrito por João César Monteiro foi publicado no dia 5 de Dezembro de 1997.

O jornal PÚBLICO insere na sua edição de 29 de Novembro uma notícia [com base em informação da agência Lusa] sobre alguns incidentes provocados pela minha pessoa, no âmbito de uma retrospectiva de alguns dos meus filmes, organizada pelo festival de cinema de Gijón.

Dado que a referida notícia não corresponde à inteira verdade dos factos, solicito a publicação das rectificações que se seguem.

Ao chegar a Gijón foi-me fornecido o catálogo do festival. Após leitura das sinopses, verifiquei que as mesmas não correspondiam aos filmes que havia feito. De aí, a pergunta: quem foi o imbecil que escreveu estes disparates?

Verifiquei que o filme Le bassin de John Wayne figurava no catálogo, apesar de eu não autorizar a sua passagem, pela razão simples de ainda não o ter visto.

Solicitei à direcção do festival que me fosse dada a possibilidade de proceder publicamente às rectificações julgadas necessárias para o que considero lesivo dos meus filmes. No dia seguinte, meia hora antes da projecção do filme intitulado Recordações da Casa Amarela (e não de Le bassin de John Wayne, conforme foi noticiado), dirige-me para a cabine para acertar questões de projecção. Fui informado pelo projeccionista que alguns dos meus filmes haviam já passado num formato errado (1:1.66 em vez de 1:1.37). Foi possível proceder-se à correcção, pelo menos da imagem, dado que, no que diz respeito ao som, e atendendo que a sala estava regulada para o sistema Dolby, não havia grande coisa a fazer. Já na sala, dirige-me delicadamente aos espectadores, começando por lamentar não falar asturiano e prestando as minhas homenagens aos mineiros massacrados em 34 pelas tropas franquistas.

Afirmei, desdizendo o que vinha escrito numa das famigeradas sinopses, que nunca tinha tido conversas com Deus, que era um cineasta comunista sui generis, etc. Admito que, a páginas tantas, a coisa azedou e que não terei dirigido palavras de grande afabilidade para o certame de Gijón e mesmo para o senhor primeiro-ministro da monarquia espanhola.

Nunca me dirigi em termos ofensivos a uma cidade que não conheço e na qual até descobri dois Rossini raríssimos.

Finalmente, não pedi desculpas a ninguém. Quem me conhece sabe-o perfeitamente.

João César Monteiro, cineasta