Morte de Lady Di: Paparazzi no centro da polémica. As “ratazanas” da imprensa

Uma reportagem fotográfica sobre a guerra na Tchetchénia vende-se por 300 contos. Uma foto da princesa Diana podia custar 30 mil. Ontem, as fotos do acidente em Paris estavam à venda por um milhão de dólares.

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Durante o dia, a opinião púbica fazia já uma distinção mais nítida entre os "paparazzi" e o resto da imprensa Reuters

Os fotógrafos que perseguem os ricos e famosos ganharam notoriedade em 1960 com Paparazzo, a figura imortalizada por Fellini no seu filme La Dolce Vita. O homem que inspirou esse personagem, o italiano Tazio Secchiaroli, hoje com 72 anos, diz que “já não há limites de bom gosto” na sua profissão. O acidente que provocou a morte de Diana e do namorado colocou os paparazzi — “ratazanas”, “abutres” ou ladrões de imagens, como também são chamados pelos colegas — no banco dos réus. Mas, no turbilhão das acusações, também a imprensa séria foi penalizada. Uns e outros defendem-se. Uma reportagem fotográfica sobre a guerra na Tchetchénia vende-se por 300 contos. Uma foto da princesa Diana podia custar 30 mil. Porque o público não quer saber da guerra na Tchetchénia mas paga para conhecer os pormenores da vida íntima da princesa. Ontem, as fotos do acidente em Paris estavam à venda por um milhão de dólares. Mas havia também o apelo a um boicote para que ninguém as comprasse.

Os paparazzi ou “ratazanas”, como lhes chamam os outros fotógrafos, encontram-se no centro de uma imensa polémica. O resto da imprensa, aquela que não vive da publicação das fotos de Lady Di ou de outras personalidades públicas, foi apanhada numa amálgama emotiva. Jornalistas que viajaram para Paris ou Londres, enviados de toda a Europa, ouviram insultos nos aeroportos, quando se esforçavam por arranjar lugar nos aviões cheios do último dia de Agosto.

Um fotógrafo que tirava fotografias ao carro em que Lady Di, Dodi El-Fayed e o motorista perderam a vida foi espancado por parisienses que tinham acorrido ao local. Nessa altura, a polícia tinha já detido sete dos numerosos paparazzi que perseguiam a princesa de Gales e o namorado desde a sua chegada a Paris.

Seis franceses e um macedónio, trabalhando todos para as agências de fotografia Sipa Presse, Sygma e Gamma, estavam ainda detidos ao fim do dia. As motos em que seguiam foram também apreendidas. O inquérito judicial ordenado pela ministra da Justiça deverá determinar o papel exacto desempenhado pelos fotógrafos no acidente. Segundo os primeiros testemunhos recolhidos — mas ainda por confirmar —, os fotógrafos perseguiam o carro a uma centena de metros quando o motorista, que guiava nesse momento a 170 km/hora, acelerou, perdendo então o controlo do veículo.

No entanto, o procurador da República estudava ontem a hipótese de indiciar os paparazzi por homicídio involuntário, invocando a “responsabilidade moral” dos fotógrafos no acidente. O inquérito deverá agora elucidar até que ponto os paparazzi provocaram um erro de condução do motorista. É que outras testemunhas afirmam que as motos dos fotógrafos estavam suficientemente perto do carro para incomodarem o motorista. Além disso, aqueles que tiraram fotos do desastre quando Diana e motorista agonizavam ainda dentro do carro, sem os socorrerem, serão provavelmente indiciados por “não assistência a pessoas em perigo”. Quanto aos paparazzi que fugiram quando a polícia tentava prendê-los, serão perseguidos por “delito de fuga”.

Poucas horas depois, as fotos do desastre estavam à venda por um milhão de dólares. Uma revista americana recusou comprá-las e a imprensa britânica e a americana lançaram apelos a um boicote geral.

Durante o dia, a opinião púbica fazia já uma distinção mais nítida entre os paparazzi e o resto da imprensa. Repórteres de imagem, directores de agências fotográficas, jornalistas da rádio e da televisão frisavam as diferenças entre o trabalho de informação e “os ladrões de imagens”. 

“Uma reportagem fotográfica sobre a guerra na Tchetchénia, que dura várias semanas, vende-se por uns 300 contos. Uma foto da princesa Diana é comprada por 30 mil contos. Isto porque o público não quer saber da guerra na Tchetchénia, mas gasta tudo o que pode para conhecer os pormenores da vida íntima de personalidades”, recordavam repórteres de imagem reunidos numa exposição em Perpignan.

Remy Lemorvan, director da pequena agência Max 3P, chamava a atenção para a “má-fé” das pessoas que acusam agora toda a imprensa: “Aqueles que nos chamam a todos ‘assassinos’ são os mesmos que compram aos milhões as revistas com as imagens da vida privada de personalidades. E essas imagens, roubadas pelos paparazzi sem olharem a meios, valem uma fortuna no mercado por causa da bisbilhotice dos que nos dão agora lições de moral.”

Nos últimos dois anos, apareceu um outro tipo de “ratazana": simples pessoas que perseguem personalidades com máquinas fotográficas, na esperança de venderem fotos de amador revelando um momento íntimo da vida de uma figura pública.

Em França, uma lei protege a vida privada de personalidades públicas. Em virtude dessa lei, a “imprensa de cano de esgoto” pensa duas vezes antes de publicar fotos que fazem manchete em Itália, Grã-Bretanha ou Espanha: as condenações em tribunal atingem, por vezes, multas de seis mil contos. Mas o mercado é internacional. Os paparazzi franceses são considerados como os mais agressivos, juntamente com os britânicos e os italianos.

A imprensa parisiense lamentava ontem que os seus colegas britânicos insistissem tanto na responsabilidade das “ratazanas” na morte da princesa Diana, sem nenhuma mea culpa: “Há algo de indecente na atitude dos media britânicos, que não reconhecem serem eles os principais incitadores da caça à imagem feita pelos paparazzi.”