Moçambique vota após campanha sem “uma única morte por razões políticas”

Já a pensar nas presidenciais de 2019, Moçambique tem esta quarta-feira eleições autárquicas. Testa-se uma nova lei eleitoral, um confronto inédito, o regresso da Renamo e a sobrevivência do MDM.

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Sete milhões de eleitores são chamados a votar esta quarta-feira YESHIEL PANCHIA/EPA
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Sete milhões de eleitores são chamados a votar esta quarta-feira YESHIEL PANCHIA/EPA

O debate já vai longo quando António Chichone faz uma pausa e diz: “Amanhã, se me encontrarem num café, vêm falar comigo ou ficam com medo que alguém diga: ‘Vi-te com o Chichone num café em Entrecampos…’?”

Em Portugal, Chichone é há anos a cara oficial da Renamo, o partido da oposição que combateu a Frelimo na guerra civil, e ali está em território desconfortável: o antigo edifício da embaixada de Moçambique em Lisboa. Na sala estão 80 pessoas a ouvir o painel, mas a maioria será da Frelimo, no poder desde a independência. Da Renamo, não terá ficado nem uma para o churrasco e a festa que se seguiu.

Quase 20 anos de guerra civil (16 consecutivos, mais três entre 2013 e 2016) deixaram marcas, tanto na comunidade moçambicana na diáspora, como nas campanhas para as eleições nacionais.

Esta quarta-feira, dia das quintas eleições autárquicas em Moçambique, o balanço da campanha inclui dados irrelevantes nas democracias consolidadas. Este ano há boas notícias. Cinco pessoas morreram, mas “nem uma única morte foi por razões políticas e isso é de louvar”, diz Chichone. O seu homólogo, Elias Mutemba, primeiro secretário da Frelimo em Portugal, concorda: “Esta foi a campanha mais ordeira desde o multipartidarismo. As coisas estão a melhorar e a cultura da paz vai-se reforçando.”

Mas a desconfiança é profunda e real. Disse um homem que se levantou no fim do debate: “Ainda identificamos as pessoas como amigos e inimigos com base na guerra. Estiveste de que lado? Deste ou daquele? Mataste? Vou perdoar quem matou o meu irmão? Só no futuro, quando já não soubermos quem foi da Frelimo ou da Renamo na guerra, será diferente. Agora ainda é natural.”

Dos 53 municípios do país, a Frelimo só não tem o poder em quatro: Gurué e a cidade de Nampula (ambas na província de Nampula), Quelimane (capital da província da Zambézia) e a Beira (capital da província de Sofala). Nos três primeiros, é o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) que está no poder, no último é a Renamo. Nas últimas autárquicas, em 2013, a Renamo não participou e o MDM ocupou o seu lugar.

Isso não retira relevância às autárquicas de hoje. Pelo contrário: estas são as primeiras desde a morte de Afonso Dhlakama, líder histórico da Renamo; são as primeiras com a nova lei eleitoral acordada entre o Presidente da República, Filipe Nyusi, e Dhlakama, pouco antes da sua morte, na Gorongosa, e aprovada em Julho na Assembleia da República; são o regresso da Renamo às eleições locais, depois de não ter participado nas últimas para exigir paridade nas instituições eleitorais; são as primeiras nas quais a Renamo e o MDM se confrontam na disputa pelo poder local; e são um ensaio geral para identificar os candidatos às eleições presidenciais e provinciais de 2019.

O duelo da Beira

A cidade da Beira, no centro do país e tradicionalmente dominada pela Renamo, é considerada uma das corridas mais importantes. O duelo é entre Daviz Simango e Manuel Bissopo.

Simango é filho de um ex-líder da Frelimo, foi membro da Renamo e em 2009 saiu do partido e criou o MDM. É o actual presidente do conselho municipal da Beira e vai tentar ser reeleito para o lugar que ocupa desde 2003. Mas o MDM sofreu algumas deserções recentes — num movimento de regresso à Renamo — e está sob cerco de todos os lados. “Os únicos municípios onde pode haver mudança de poder são os governados pelo MDM e pela Renamo. Falando como analista político, não estou a ver a Frelimo a perder um único município onde hoje é governo”, diz Elias Mutemba, da Frelimo.

Contra Simango concorre o secretário-geral da Renamo, Manuel Bissopo, outro potencial candidato presidencial. “Bissopo é um peso pesado ao ponto de há dois anos os seus adversários políticos terem tentado matá-lo a tiro em plena luz do dia na Beira”, escreve o Zitamar News, uma newsletter especializada em Moçambique. “A corrida entre Bissopo e Simango vai ser renhida — mas se Simango perder, o seu partido poderá não sobreviver.” A Frelimo, que em 2013 teve 30% dos votos na Beira, tem como candidata Augusta Maita, quadro do partido na província de Sofala, que tem, escreve o Zitamar na sua previsão para as autárquicas, uma “pequena mas real hipótese de ganhar o lugar se os partidos da oposição ficarem empatados”.

A pergunta surge de várias direcções: o “partidão”, como é chamada a Frelimo, vai ganhar com o duelo Renamo versus MDM e numas municipais com uma competição mais forte? Alguns analistas dizem que a Frelimo está a tentar capitalizar a divisão nos votos da oposição, mas Elias Mutemba, da Frelimo em Portugal, discorda: “Quando a Renamo não participou, o MDM fez-se de Renamo e teve o apoio da Renamo. Por isso digo: a Renamo e o MDM são a mesma coisa — opositores políticos da Frelimo e mais nada. Não temos que tirar proveito político desta hipotética divisão.” Optimista, Chichone também não acredita que a divisão ajude a Frelimo: “O MDM adormeceu no mar alto e esqueceu-se das marés vivas. Acomodou-se. A Renamo está acordada, como se viu em Nampula, onde recuperámos a cidade.”

O caso de Nampula

Nampula é um caso particular: vai ter eleições locais pela segunda vez em 2018, pois em Outubro foi necessário ocupar o lugar deixado vago por Mahamudo Amurane, o presidente da câmara e líder do MDM assassinado à queima-roupa em sua casa. Nessas intercalares, ganhou Paulo Vahanle, da Renamo, que derrotou Amisse Cololo, da Frelimo. Esta quarta-feira, a cidade terá pela primeira vez três candidatos a concorrer. Há sinais de que o MDM ganhou algum fôlego no último ano, em parte por causa de Fernando Bismarque, deputado em Maputo e porta-voz parlamentar do partido, mas só depois da contagem de votos se saberá até que ponto isso é real.

António Chichone diz que, durante a campanha eleitoral, esperava ver a “Frelimo a instrumentalizar” pessoas nas cidades onde está na oposição, mas que “isso, felizmente, não aconteceu: não houve violência nas grandes cidades”. O que viu, no entanto, não o tranquiliza: “Vi a intolerância da polícia e a polícia a querer ser actor político, quando devia distanciar-se das eleições.”

Sobre o dia de hoje, no qual sete milhões de eleitores são chamados a votar, deixa um aviso: “Os partidos estão atentos e a monitorizar tudo: sabemos quais são as viaturas que estão a circular nas províncias com o propósito de tentar encher urnas com votos pré-votados. Temos as matrículas. Na Beira, em Quelimane, em Nampula... Eles pensam que as pessoas não sabem, mas nós sabemos.”

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