Acordo permite evacuação de quatro cidades sírias sob cerco

Um acordo entre os rebeldes e o Governo sírio, mediado pelo Qatar e o Irão, permitirá a retirada de cerca de 30 mil pessoas de Madaya, Zabadani, Fua e Kafraya.

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A população das quatro cidades começou a ser evacuada em autocarros esta sexta-feira Reuters/AMMAR ABDULLAH

Dezenas de milhares de pessoas que viviam cercadas nas localidades sírias de Madaya e Zabadani, controladas pelos rebeldes, e de Fua e Kafraya, no poder das forças governamentais, começaram a ser retiradas esta sexta-feira no âmbito de um acordo mediado pelo Qatar, apoiante dos rebeldes, e do Irão, aliado do regime de Bashar al-Assad.

Estima-se que sejam retiradas das quatro cidades, cercadas desde 2015 e cujas condições de vida a ONU descreveu o mês passado como “catastróficas”, cerca de 30 mil pessoas. Maioritariamente sunita, a população de Madaya e Zabadani que deseje partir será levada para zonas controladas pelos rebeldes na área de Idlib, cidade no noroeste sírio, e para a vila de Jarablus.

Quanto aos habitantes de Fua e Kafraya (estima-se que os seus 16 mil habitantes, a maioria xiitas, serão retirados na totalidade), serão encaminhados para Alepo, Damasco ou para a província de Latakia. Uma residente em Madaya contou à AFP que a maioria dos passageiros, que estão a ser transportados em autocarros, eram mulheres e crianças.

“Acabámos de sair, 2200 pessoas em 65 autocarros, disse Amjad al-Maleh, de Madaya (perto de Damasco). “É uma sensação muito má ver os que nos mantiveram sob cerco, e nos mataram à fome e com bombas, mesmo à nossa frente”, disse. “Madaya chorou – os que ficaram e os que saíram”.

Houssam Mahmmoud, outro habitante do mesmo local, contou à estação de televisão Al-Jazira que teve de deixar a sua mãe. “Ela recusou-se a deixar a sua terra.” Mas ele não aguentava mais. “Dois anos sob cerco, ataques aéreos, frio, chuva”… e agora, “não sabemos onde vamos viver”, desabafou. “Temos vivido no desconhecido, agora vamos ser deslocados para outro desconhecido.”

O acordo já tinha começado a ser posto em prática, na quarta-feira, com uma troca de prisioneiros entre as duas partes em conflito. No entanto, críticos do acordo consideram-no uma transformação demográfica forçada, uma limpeza com contornos étnicos e políticos. Dados oficiais das Nações Unidas indicam que, neste momento, ainda vivem sob cerco 644 mil habitantes da Síria. 

A guerra na Síria dura há seis anos. Desde que começaram os primeiros protestos pacíficos contra o Presidente Bashar al-Assad, duramente reprimidas pelo regime, até hoje, quando há uma guerra civil com uma panóplia de combatentes estrangeiros tanto ao lado do regime como dos rebeldes, morreram mais de 465 mil pessoas e mais de 12 milhões de sírios – ou seja metade da população nos anos antes da guerra – foram deslocados das suas casas. Destes, cinco milhões procuraram refúgio fora do país.

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