Amizade ancestral vai permitir “a melhor relação possível” no pós-"Brexit"

Na visita oficial ao Reino Unido, Presidente da República acalma comunidade portuguesa e aposta no aprofundamento das relações económicas.

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Theresa May mostrou a Marcelo as cópias britânicas dos principais tratados assinados entre os dois países AFP/NIKLAS HALLE'N
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Theresa May mostrou a Marcelo as cópias britânicas dos principais tratados assinados entre os dois países Reuters/DYLAN MARTINEZ

Primeiro os negócios na City, depois a política no n.º 10 de Downing Street e, por fim, os afectos com a comunidade portuguesa. No primeiro dia da visita oficial de trabalho do Presidente da República ao Reino Unido, todos os caminhos ligavam a ancestral amizade entre os dois países ao futuro do pós-"Brexit", sempre com uma mensagem de optimismo. Amigos para sempre, garantiu a todos Marcelo Rebelo de Sousa.

A primeira-ministra britânica parecia sintonizada com a mensagem e tinha para mostrar à comitiva portuguesa – Presidente, ministro das Finanças e secretários de Estado dos Assuntos Europeus e da Comunidade Portuguesa - as cópias britânicas dos principais tratados assinados entre os dois países, como o Tratado de Windsor e o tratado da restauração, documentos que só excepcionalmente saem dos arquivos reais.

No final do encontro de meia hora com a primeira-ministra, Marcelo afirmou acreditar que irá ser encontrada “a melhor relação possível no futuro”, no pós-"Brexit", seja “hard” ou seja “soft”, disso não quis falar. Mas insistiu na convicção da relação de futuro, não só pelo passado dos dois países, mas pela ligação presente. Theresa May, revelou, “está tão satisfeira como nós” com as notícias da aceitação por Bruxelas do Orçamento do Estado para 2017 e do abandono da ideia de suspensão dos fundos estruturais – “e isso é um sinal de amizade”.  

Ao lado de um sorridente, mas calado, Mário Centeno, o chefe de Estado considerou “muito positivo” ter verificado que a primeira-ministra britânica “tem noção da situação financeira e económica de Portugal, que elogiou”. Uma referência ao crescimento da economia portuguesa no terceiro trimestre, conhecido na terça-feira, mesmo a tempo do arranque desta visita oficial de trabalho, que começou na City, o distrito financeiro de Londres, com alguns banqueiros e potenciais investidores.

Menos, no entanto, do que se estava à espera. Ao almoço de trabalho não compareceram os 18 “potenciais investidores” inicialmente anunciados, mas apenas oito, metade dos quais portugueses com altos cargos em grupos britânicos – António Horta Osório, do Loyds Banking Group, Nuno da Silva, da Mellon, Miguel Azevedo, da Citi e Paulo Gray, da StormHarbour – além de representantes da Rothschild and sons, Blackrock, Linklaters e London Stock Exchange Group.

No almoço na Mansion House a convite do lord mayor Andrew Parmeley, a autoridade política da City, Marcelo Rebelo de Sousa garantiu todo o empenho de Portugal em atrair investimento e apostar no crescimento económico e desenvolvimento social. E identificou algumas áreas para as relações comerciais, sobretudo o sector financeiro, o comércio e a educação. “O mundo muda, a Europa muda, mas a nossa relação não”, assegurou o chefe de Estado.

 Ao fim da tarde, no encontro com a comunidade portuguesa na residência oficial do embaixador de Portugal, repetiu a mensagem: “Sabemos que num futuro próximo, como no futuro longínquo, esta amizade ancestral vai continuar”.

Usando a empatia como trunfo, perante as largas dezenas de representantes das antigas e novas comunidades portuguesas no Reino Unido, o Presidente reconheceu que se vivem tempos difíceis no mundo e na Europa e que há motivos para preocupações.

“Muitas vezes o direito e a política chegam tarde aos novos desafios, respondem tardiamente” fazendo com que “camadas da sociedade que se sentem momentaneamente desprotegidos”, disse. São “momentos de transição complicados, mas que são ultrapassáveis”, garantiu. “Portugal saberá conjugar essa aliança ancestral com a pertença de pleno direito à União Europeia, apostando numa União Europeia forte, porque para o mundo é essencial uma União Europeia forte, como é essencial que as alianças tradicionais sejam mantidas, respeitadas, enriquecidas à medida que o tempo passa. E esta é uma relação cheia de virtualidades”, sublinhou.

Isso deverá garantir a estabilidade da comunidade portuguesa no país, outro assunto também tratado no encontro com Theresa May. “Houve oportunidade de referir com muito apreço o papel da comunidade portuguesa, é um ponto antigo mas renovado com a última geração, e que é uma componente boa para ambas as partes”, afirmou o chefe de Estado em Downing Street.

Aos portugueses que se vestiram a rigor para o receber, foi mais longe. Afirmou-se “orgulhoso” de representar um povo “excepcional”, “que se supera todos os dias” e que “lidera” em muitos domínios. “Temos o que há de melhor em cientistas, em economistas, em gestores, em profissionais de saúde, em professores, em artistas, gente da cultura e muitas mais áreas”, afirmou, elencando algumas das profissões representadas na recepção oficial antes referidas pelo embaixador, Manuel Lobo Antunes. “Nós sabemos em Portugal o papel e a importância desta comunidade”, afirmou o Presidente.

Antes de se perder na pequena multidão em que prometeu que tentaria “cumprimentar cada um”, Marcelo não perdeu a oportunidade de gracejar: “Olho à volta e encontro aqui, quase como na 'Vila Morena', em cada esquina um amigo. Olho para a esquerda e vejo, discreto, o antigo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso; olho para a direita e vejo um sobrinho meu, da novíssima geração que aqui está; olho em várias direcções e deparo-me com quem cá vive há décadas, ajudando a construir esses 'portugais' que vamos construindo por todo o lado, a que se soma uma geração mais jovem, e todas prestigiam Portugal”.

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