Medo e frustração entre a comunidade portuguesa na Venezuela

Sofrem com a inflação galopante, com os cortes de luz e com a luta política. Os portugueses e lusodescendentes na Venezuela não prevêem uma melhoria no futuro e muitos fazem planos para sair do país.

Protestos contra o Governo por causa da escassez e da subida dos preços dos produtos alimentares
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Protestos contra o Governo por causa da escassez e da subida dos preços dos produtos alimentares Federico Parra / AFP
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Manifestantes pediram a saída de Nicolas Maduro REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
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Fila para receber bens essenciais REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
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Prateleiras vazias nas lojas REUTERS/Marco Bello

Há quinze anos que Verónica Sousa repete que as coisas não podem piorar mais na Venezuela. Hoje, esta filha de portugueses vê um país diferente. “Vejo pessoas que estão a ficar habituadas a isto.” “Isto” são as filas intermináveis para comprar bens essenciais a preços altíssimos, os apagões diários ou o receio de violência nas ruas.

O PÚBLICO ouviu portugueses e lusodescendentes que moram na Venezuela, numa altura em que o país sul-americano atravessa uma conjugação de crises sem precedentes. O sentimento dominante é de frustração, receio pelo futuro e vontade de abandonar o país que foi seu nas últimas décadas, mesmo que este seja um desejo de difícil concretização. O Governo português diz que estão registados 200 mil portugueses a viver actualmente na Venezuela, mas a comunidade pode ascender a meio milhão de pessoas.

O Parlamento discutia esta terça-feira a extensão do estado de emergência económica decretado pelo Presidente, Nicolás Maduro. A oposição, que controla a maioria dos lugares na Assembleia Nacional desde a vitória nas eleições legislativas de Dezembro, diz que se trata de um estratagema do Governo para concentrar poderes extraordinários e limitar direitos políticos, para justificar a repressão de manifestações de descontentamento.

A Mesa da Unidade Nacional (MUD) convocou uma marcha em Caracas para esta quarta-feira e há receios de um regresso à onda de violência que inundou o país em 2014 — e em que morreram centenas de pessoas.

Enquanto os vários poderes entram em confronto — para já, sem violência física —, as pessoas tentam adaptar-se a uma realidade que muda de dia para dia, ao sabor da inflação, entre as filas nos supermercados e as horas passadas às escuras.

Frango assado para milionários

A flutuação dos preços é o maior factor de instabilidade. Qualquer produto serve para exemplificar esta realidade — leite, farinha, champôs ou papel higiénico. Richard Sequeira Pires escolhe um frango assado. “Há três meses custava 1200 bolívares, na semana passada tinha subido para 2800 e ontem apareceu a sete mil bolívares”, conta-nos. “Não se sabe nunca o preço das coisas”, diz este engenheiro informático de 49 anos de Maracay, filho de portugueses, já sem qualquer indício de incredulidade.

No mundo surreal em que se transformou a economia venezuelana, as cotações oficiais não servem como referência. O Governo não tem dólares em reserva e não autoriza trocas de dinheiro pelas vias oficiais. Segundo a Bloomberg, em Fevereiro no mercado negro — por estes dias um barómetro mais fiável — um dólar valia cerca de mil bolívares.

O Governo tentou acompanhar a escalada dos preços e subiu o salário mínimo para 15 mil bolívares no início de Maio, o que, olhando para o exemplo do frango assado, ajuda a perceber a queda real do poder de compra dos venezuelanos.

Por trás da subida estratosférica dos preços está a grave escassez de bens essenciais. “A comida não é cara, é subsidiada, mas não há dólar suficiente para importar o necessário. Então as pessoas têm que fazer grandes filas apenas para saber se podem comprar alguma coisa”, conta Richard Pires. O normal é as pessoas começarem a concentrar-se nos estabelecimentos por volta das quatro da manhã, acrescenta.

Verónica tenta evitá-las. “As filas não são seguras, há pessoas que vão com armas”, diz. A gestora de 33 anos diz já ter presenciado cenas de violência nos supermercados entre pessoas que disputavam os últimos produtos das prateleiras. “Fiquei a tremer e com medo porque estava com a minha filha.”

A alternativa é o recurso ao mercado negro, onde os produtos são vendidos pelo triplo ou o quádruplo. “Muitas pessoas deixaram o trabalho porque era mais lucrativo estar nas filas e depois venderem os produtos muito mais caros”, diz a gestora de Maracay, cujos pais vieram do Algarve.

Mas agora até no mercado negro começa a haver escassez. “Coisas como leite, café ou açúcar já não há nas ruas. Eu tenho porque pude comprar em grande quantidade quando a situação começou a ficar feia. Temos as coisas guardadinhas, mas quando acabar… não há mais.”

Verónica diz ser optimista e nos últimos anos tem dito para si própria que a situação iria melhorar. Hoje não tem tanta certeza e teme que os seus compatriotas estejam a ficar acostumados a um novo normal. Recorda ter encontrado recentemente uma mulher contente por se estar a formar uma fila num supermercado — significava que estariam a chegar novos produtos. Não se conteve. “Eu disse-lhe: ‘eu lembro-me de poder comprar o que quisesse na quantidade que quisesse no dia que eu quisesse, isto não é normal’”, conta.

O sentimento é partilhado por Richard que até há pouco tempo também estava convencido que o país não podia piorar mais. “Mas todos os dias pode estar pior. E todos os dias estamos pior”, lamenta o engenheiro lusodescendente. É crítico do Governo de Maduro, que se proclama defender um “socialismo do século XXI”, mas implementa “o comunismo do século XX”.

Desejo de sair

Neste contexto, o desejo de abandonar a Venezuela não é escondido. E há quem já esteja a tratar disso. Filha de portugueses, Fátima Silva nasceu, cresceu e vive há 31 anos em Caracas, onde trabalhar numa papelaria. Na altura dos protestos de 2014 diz ter pensado em sair do país, mas não o fez. “Queria ficar para lutar.”

Dois anos depois, essa força parece ter-se esgotado. A mãe tem cancro e é difícil conseguir medicamentos, mas a gota de água parece ter sido o assalto que lhe fizeram à casa no início do mês. Levaram computadores e outros objectos electrónicos, mas o pior foi lhe terem tirado “a tranquilidade de estar em casa”. Está a tratar dos documentos para se mudar para o país de origem dos pais.

Luís Santos conhece bem a comunidade portuguesa na Venezuela. Este ex-jornalista natural de Sever do Vouga vive em Caracas há 22 anos e durante oito anos foi conselheiro da comunidade no país. Hoje nota “um sentimento de frustração” e não se admira com os desejos de emigrarem. Porém, para uma comunidade que, na sua maioria, se dedicou ao comércio e é proprietária de empresas, esse é um cenário difícil.

“É difícil sair porque não podem desistir facilmente dos seus negócios porque a moeda está muito desvalorizada. Uma pessoa que tenha um bom investimento, se o vender, depois não consegue comprar dinheiro em Portugal”, explica Luís, que tem uma empresa no sector automóvel.

É o que acontece com Richard que diz estar “amarrado” a três negócios, apesar de estar a estudar oportunidades em Londres. Verónica diz, em jeito de brincadeira, que já quase não tem família na Venezuela. A gestora e o marido estão a pensar seguir por essa via e até já estão em aulas de inglês.

Portugal tem sido procurado cada vez mais por venezuelanos, de acordo com o Christian Höhn, presidente da associação Venexos. Segundo o responsável, citado pela agência Lusa, todos os dias a associação recebe cerca de 40 mensagens de pessoas a pedir informações sobre como vir para o país. Haverá cerca de cem mil venezuelanos em Portugal, segundo estimativas de Höhn.

Empresários preocupados

O cenário na Venezuela torna-se ainda mais complexo se se adicionar a crise energética que o país atravessa. Para fazer face ao défice energético, o Governo decretou apagões diários por todo o país e cortou para apenas dois dias a semana de trabalho na administração pública. Na casa de Verónica, em Maracay, a luz é cortada quatro horas durante dois dias por semana. Vale-lhe a casa da mãe, que não sofre cortes. “Acho que é porque ela mora no bairro do presidente da câmara”, diz, entre risos.

A postura do Governo também preocupa, especialmente os empresários. Há poucos dias, Maduro declarou que irá avançar para nacionalizações das empresas paralisadas, que considera fazerem parte de uma guerra económica responsável pela actual crise. Luís Santos receia que o estado de emergência abra caminho a abusos nesse sentido. “Ainda não se conhece muito bem o alcance do estado de excepção, mas pode estar em causa o direito à propriedade privada, ao livre-trânsito, à liberdade de imprensa”, diz o ex-jornalista, para quem “os próximos dias podem complicar-se”.

Os próximos dias serão de aprofundamento da crise económica, acompanhado da radicalização das ruas. Paira o fantasma dos protestos de 2014, um tempo com o qual Luís Santos vê semelhanças. “As medidas de excepção vão um bocado no sentido disso, de impedir manifestações e actos de protesto.”

O exterior alarma-se com o estado a que chegou a Venezuela. Esta semana, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, qualificou as condições de vida da população como “terríveis”. No olho do furacão, Maduro continua a aludir a uma “conspiração” internacional para derrubar o seu Governo. A última denúncia foi a de uma “intrusão” no espaço aéreo venezuelano de uma aeronave norte-americana “com o objectivo de espionagem”.

Notícia actualizada às 17h47: Acrescentou-se informação relativa à dimensão da comunidade portuguesa na Venezuela.

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