"Não venham", diz Tusk aos migrantes que ainda sonham com Europa em crise

Comissão Europeia quer que países levantem controlos fronteiriços até Novembro para salvar a livre circulação na UE. Tspiras propõe sanções para quem não aceitar a sua quota de refugiados.

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Migrantes exigiram a abertura da fronteira com a Macedónia LOUISA GOULIAMAKI/AFP

Há uma ansiedade que cresce nas declarações dos líderes europeus à medida que o tempo se esgota para que a União Europeia consiga concertar posições a tempo da cimeira com a Turquia, decisiva num momento em que a crise dos refugiados ameaça fazer ruir a livre circulação. De visita a Atenas, antes de partir para a Turquia, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, lançou um apelo – que pode ser lido como aviso ou súplica – para que os imigrantes não arrisquem a vida a tentar entrar de forma irregular na Europa.

As declarações de Tusk dirigiam-se ao outro lado do mar Egeu, aos milhares que gastam tudo o que têm para pagar aos contrabandistas que diariamente continuam a transportar milhares de pessoas para as ilhas gregas. Das mais de 135 mil pessoas que entraram na UE desde o início do ano, quase dois terços são sírios e iraquianos, os únicos que os países dos Balcãs estão agora a deixar passar através das suas fronteiras, a um ritmo que é ainda assim cerca de um décimo do total de chegadas. De fora, ficam cada vez mais afegãos – 26% do total, muitos dos quais hazara, uma etnia perseguida pelos taliban – mas também iranianos, paquistaneses, nigerianos, marroquinos e vários outros cujo passaporte é meio caminho para que sejam catalogados de imigrantes e que engrossam aquela que a maior vaga migratória na Europa desde a II Guerra Mundial.

Com a Grécia sem meios para acolher tanta gente e a crise a dividir a Europa e a alimentar a xenofobia, Tusk não esperou pela chegada a Ancara para deixar o recado: “Quero lançar um apelo a todos os potenciais migrantes económicos ilegais, onde quer que estejam. Não venham para a Europa. Não acreditem nos contrabandistas. Não arrisquem a vossa vida e o vosso dinheiro. Tudo isso não vale de nada”. “Nem a Grécia, nem nenhum país europeu pode continuar a ser um país de trânsito” para a imigração ilegal, explicou Tusk.

O aviso chega na mesma altura em que, em Bruxelas, circula já um plano da Comissão Europeia para o levantamento das restrições fronteiriças no espaço Schengen “o mais tardar em Novembro”. O texto, que será apresentado na sexta-feira, sublinha que “o fim da livre circulação de pessoas e bens entre os 26 Estados do espaço Schengen poderia custar à economia da UE “entre 500 mil a 1400 milhões de euros” num período de dez anos.

Desde o Outono, oito países da UE reforçaram os controlos fronteiriços ou ergueram vedações, amputando de forma inédita o espaço de livre circulação europeia. No documento, a que a AFP teve acesso, a Comissão confirma que em Maio deverá autorizar o prolongamento excepcional dos controlos, mas insiste que estes devem ser “temporários e por um período de tempo o mais curto possível”. “É tempo de os Estados-membros se unirem em nome do interesse comum para salvar aquele que é um dos mais importantes feitos da União.”

Mas o plano, lê-se no texto, não passará do papel se a Grécia não reparar as “graves deficiências” na gestão das suas fronteiras – uma acusação que já levou Bruxelas a lançar um ultimato a Atenas, sob pena de expulsão da zona Schengen. Um diplomata europeu explicou à AFP que até Novembro Bruxelas conta ter no Egeu “os primeiros destacamentos da guarda-fronteiriça europeia” recém-criada.

Em Atenas, Tusk deixou os ultimatos de lado, colocando-se ao lado do primeiro-ministro Alexis Tsipras na crítica “às decisões unilaterais” dos países que estão a barrar a passagem dos refugiados. “Mesmo que compreensíveis no contexto nacional, contradizem o espírito europeu de solidariedade”, avisou. Tsipras foi mais longe na indignação, dizendo que não aceitará que a Grécia se transforme “num armazém de almas” e defendeu sanções para os países que não aceitem receber a quota de refugiados que lhe compete ao abrigo do plano europeu de redistribuição.

Mas a Áustria, país que tem liderado a pressão para convencer os parceiros a adoptarem uma posição comum mais restritiva, há pouca complacência com a situação grega. “Temos de pôr fim à política grega de deixar passar os migrantes para Norte”, disse o chefe da diplomacia, Sebastian Kurz, insistindo que é tempo de Atenas registar e filtrar todos os que chegam às suas costas.

Com as fronteiras internas sob pressão, a UE concentra-se nas negociações com a Turquia, país que a troco de três mil milhões de euros se comprometeu a melhorar as condições de vida dos refugiados e a travar a actual vaga migratória. Mas Ancara, que ainda não recebeu o dinheiro prometido em Novembro, insiste que não pode, de um dia para o outro, pôr fim à imigração ilegal. “Temos de melhorar os esforços de cooperação com os nossos vizinhos”, admitiu Tusk ainda antes de partir para a Turquia, onde será recebido nesta sexta-feira pelo Presidente Tayyip Erdogan. “Mas um empenho mais intenso dos nossos parceiros é condição essencial para evitarmos um desastre humanitário”, sublinhou o dirigente europeu.

“Não vim para discutir números, mas as medidas para a redução e total eliminação deste triste fenómeno [da imigração ilegal para a Europa]”, explicou o presidente do Conselho Europeu ao lado de Ahmet Davutoglu, em Ancara.

 

 

 

 

 

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