Nacionalistas eurocépticos vencem eleições na Polónia

Lei e Justiça, do ex-primeiro-ministro Jaroslaw Kaczynski, põe fim a oito anos de poder da Plataforma Cívica, do centro-direita.

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A candidata a primeira-ministra pelo Lei e Justiça, Beata Szydlo Kacper Pempel/Reuters

Os polacos foram às urnas este domingo e deram uma vitória esmagadora ao partido nacionalista Lei e Justiça, muitas vezes comparado ao Fidesz do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.

A grande derrotada foi a Plataforma Cívica, de centro-direita, que liderou o país durante oito anos de forte crescimento económico, mas que acabou por ser penalizada devido a um escândalo que provocou demissões no Governo e à percepção de que o sucesso económico do país não chegou ao bolso da maioria dos cidadãos.

De acordo com os números avançados logo após o encerramento das urnas, o Lei e Justiça obteve 39,1% contra 23,4% da Plataforma Cívica – nenhum partido de esquerda teve votos suficientes para entrar no Parlamento. Com estes resultados, os nacionalistas eurocépticos poderão governar sozinhos, com 242 deputados num Parlamento com 460 lugares.

A vitória dos nacionalistas do Lei e Justiça significa também o regresso em grande do seu líder, o polémico Jaroslaw Kaczynski, que foi primeiro-ministro durante pouco mais de um ano, entre 2006 e 2007, antes de a Plataforma Cívica ter iniciado um ciclo de duas vitórias consecutivas.

Jaroslaw – irmão gémeo do ex-Presidente Lech Kaczynski, que morreu num acidente aéreo, em 2010 – não é o candidato a primeiro-ministro pelo Lei e Justiça, mas é o seu líder, e a generalidade dos analistas acredita que será ele a puxar os cordelinhos da governação, atrás de Beata Szydlo.

A chegada ao governo do Lei e Justiça é mais um capítulo da viragem nacionalista em vários países europeus, com as suas políticas anti-imigração, eurocépticas e mais viradas para dentro do que para a procura de soluções em conjunto na União Europeia.

Durante a campanha, o líder do partido que venceu as eleições deste domingo na Polónia disse que os migrantes e refugiados "já trouxeram doenças como a cólera e a disenteria para a Europa, tal como todo o tipo de parasitas e protozoários".

Para além das posições duras em relação à chegada de milhares de pessoas de países da África subsariana, do Médio Oriente ou da Ásia – muitas em fuga de guerras e perseguições em países como a Síria, o Iraque ou o Afeganistão –, o Lei e Justiça defende uma pressão maior sobre a Rússia, o que pode originar ainda mais divisões no seio da União Europeia e pôr em risco a relação privilegiada do país na última década com a Alemanha.

Em particular, o partido nacionalista de direita promete ser inflexível na exigência de ter uma base permanente da NATO, uma medida a que a chanceler Angela Merkel se opõe. "As relações entre a Polónia e a Alemanha iriam sem dúvida piorar com o Lei e Justiça. A única questão é saber se iriam piorar muito ou pouco", disse ao site da revista norte-americana Politico o analista Lukasz Lipinski, do think tank Polityka Insight.

A economia polaca tem crescido acima dos 3% ao ano na última década – e o facto de não estar na zona euro permitiu-lhe passar ao lado da recessão que afectou a maioria dos países europeus, em 2009 –, mas isso não bastou para que a Plataforma Cívica renovasse a confiança dos eleitores. Apesar do sucesso dos números, muitos dos 38 milhões de polacos continuam sem sentir melhorias nas suas carteiras, devido à precariedade do trabalho e aos baixos salários, algo que tem sido aproveitado pelo populista Lei e Justiça.

Marcadamente católico, o partido propõe a redução da idade da reforma de 67 para 65 anos entre os homens e para 60 anos entre as mulheres (para que possam passar mais tempo com a família); o aumento do salário mínimo; e o aumento das taxas de impostos para os bancos.

O descontentamento entre grande parte da população foi resumido ao jornal britânico Guardian por Grzegorz Piotrowska, um canalizador de 38 anos: "Na Polónia continuamos a ser pobres. Dois milhões de polacos saíram do país para trabalharem em outros países da União Europeia. Se ficarmos aqui, limitamo-nos a lutar. Abrem restaurantes finos por todo o lado, mas eu nem consigo pagar um café no Starbucks. O Lei e Justiça quer tornar este país mais parecido com a Alemanha."

Esta é a segunda grande vitória do Lei e Justiça em apenas cinco meses, depois de Andrzej Duda ter sido eleito Presidente da República em Maio, à segunda volta, derrotando Bronislaw Komorowski.

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