Vamos compactar cidades, andar de bicicleta e dar vida à periferia

Consumimos a energia que se extrai do petróleo de forma desmesurada, mas as reservas têm uma vida finita. E isso vai custar muito caro. Em Lisboa já se estudam cenários para as cidades do futuro, e nem todos são catastrofistas, ao estilo Mad Max. Por Carlos Filipe

a Chegará um dia em que o chamado de ouro negro será tão escasso e tão caro que enquanto não explorarmos convenientemente as energias alternativas teremos que viver apertadinhos, concentrados nas cidades, viajando o menos possível, andando a pé ou de bicicleta. Mas como o petróleo foi um milagre que gerou uma civilização embriagada de energia barata, também (a falta dele) poderá ser a salvação das cidades, pois teremos que aprender o bê-a-bá da energia para saber como poupá-la.

Ainda andamos a bebericar o significado do termo sustentabilidade e eis que surgem mais palavrões - Peak Oil e Transition Towns -, invulgares, é certo, aparentemente inócuos ao senso comum, por parecerem académicos, mas incorporando dramatismo suficiente para darem que pensar. É com eles, e pelos seus alertas, que os especialistas em energia, sociologia, geografia, urbanismo, arquitectura ou artistas têm aberto novas frentes de estudo, que certamente levará ao sacrifício do conforto a que estamos habituados.

De forma simplista, Peak Oil (ou Pico do Petróleo), corresponde ao período em que a máxima produção mundial é atingida, a partir do qual a extracção em campos novos não consegue mais superar o declínio nos mais antigos.

Este pico já ocorreu em vários países, entre os quais figura os EUA, segundo a previsão feita pelo geólogo da Shell, King Hubbert, em 1956. Uma vez instaurado o declínio, as tensões entre países exportadores e importadores vão crescer e alguém vai ter que ficar sem aquele recurso. Para muitos analistas, o início do declínio da produção, em termos globais, deverá começar nesta década.

"Pensamos, comemos e vimos petróleo. Está impregnado nas nossas vidas, nos alimentos (pelos fertilizantes), nos medicamentos, em centenas de materiais", constata Lluis Sabadell Artiga, director do site Post-Oil Cities (www.postoilcities.org). O especialista apresentou em Lisboa o desafio Para Lá do Petróleo, fórum de reflexão que a plataforma digital da secção regional do sul da Ordem dos Arquitectos (www.casadavizinha.eu) promove até Setembro.

Mário Alves, do Instituto Superior Técnico e especialista em sistemas de transporte, tem desenhado cenários evolutivos, de médio e longo prazo. "Se não aumentarmos o preço do transporte individual, as cidades continuarão a expandir-se e as viagens serão mais longas, logo requerendo mais energia, pelo que haverá tendência para as cidades se compactarem e as periferias viverem de forma autónoma, para o seu interior", alerta o engenheiro, que aponta um caminho: "Andar a pé e de bicicleta é, naturalmente, a solução. Há um cenário em que a energia não subirá muito o preço, se os carros largarem as suas gorduras. O carro é máquina ineficiente, pois são precisas duas toneladas para transportar uma pessoa de 70 quilos." E deixa uma nota optimista: "A escassez de energia até pode ser saudável neste aspecto, pois conduzirá à eficiência, à energia eléctrica. Pode não suceder assim, mas pode ajudar-nos a pensar e a decidir."

Quantidade não é movimento

Um futuro apocalíptico, reconhece Mário Alves, "seria o cenário Mad Max, lá para 2050". Como na ficção cinematográfica protagonizada por Mel Gibson, a escassez de petróleo levaria ao aparecimento dos Regional War Lords, senhores da guerra que emergiam a partir do enfraquecimento das instituições do Estado. "Não muito previsível no mundo ocidental, mas onde as pessoas viveriam em condomínios fechados, de elevada segurança."

Mário Alves lança outro cenário, agora contra os sistemas instituídos: "Deveremos garantir mais acessibilidade, que será a qualidade e não a mobilidade, que é quantidade, que de todo não significa liberdade de movimento."

O geógrafo João Seixas não poupa a classe política pela actual inacção. "A cidade, a híper-metrópole dos nossos dias, é filha de transportes baratos, a tal ponto que os morangos que comeremos amanhã poderão vir de Israel", salienta o investigador do Instituto de Ciências Sociais, que lança algumas farpas: "A região de Lisboa é profundamente dependente do petróleo e não tem governo a nível de metrópole, ou a nível local. Paralelamente, fecham-se equipamentos de proximidade, centros de saúde, maternidades, escolas, com o argumento da eficiência. E com o argumento das boas acessibilidades. E o que faz a população para protestar? Faz marchas lentas, para atrapalhar o bem colectivo, o andar depressa."

Há, porém, caminhos a seguir e muitos desafios. "A cidade é a solução, não o problema. Mas há que conhecê-la, medir o seu metabolismo, energético, cultural, social, económico. A crise é um forte sintoma de outras que virão, como o Post-Oil, se vier, em 2013 ou 2030, ou 2050", antevê João Seixas. Do seu ponto de vista, "as estruturas governamentais estão em delírio de incapacidade": "Vamos ter que medir os consumos, que os perceber. Daí que os desafios imediatos passem por radicalizar as críticas à fragmentação da região metropolitana de Lisboa, contra a dispersão, denunciar as cadeias de valor acrescentado, pois as imobiliárias não produzem cidade, produzem urbanização afastada da cidade". Mais: "Vamos ter que reduzir distâncias, promover a compacidade, a diversidade à pequena escala, saber como cada um dos bairros pode ter mais contenção nas suas actividades. Teremos que portajar a cidade e integrar na fiscalidade os consumos e os custos energéticos ambientais. teremos que valorizar a produção local, na alimentação, a cidadania e dotar o local e a metrópole de mais poderes e responsabilidades, sejam as freguesias ou as área metropolitanas". E a criatividade? "É altura da arquitectura trabalhar em mais estreita colaboração com a geografia urbana, a pensar o território e as cidades", diz João Seixas.

Alterar comportamentos

De alternativas, nos veículos e nos edifícios, Maria João Rodrigues, engenheira de sistemas energéticos, admite que os transportes representam a questão mais complexa. Os comportamentos são elevados ao extremo: "O sucesso de vida, o que é? Qualidade de vida é andar a pé? Não o é para toda a gente. Para muitos é andar de carro". Passando para o edificado, os comportamentos são importantes e representam um desafio para a arquitectura. Como se pode melhorar os consumos de energia? "Temos muitas oportunidade para utilizar melhor os recursos. Mas cria-se outro paradigma: como satisfazer essas necessidades, sem comprometer o conforto? A atitude será comportamental e cultural. No Post Oil, essa noção de conforto vai sofrer uma grande evolução."

As casas não mais serão as mesmas. Mas a sua eficiência requererá imaginação. "Como vamos melhorar os nossos consumos nas actividades domésticas, sejam a climatização, iluminação ou o aquecimento? É evidente que a energia solar é fantástica, mas só de dia. Poderemos evoluir para sistemas de armazenamento sofisticado, solar ou combinados com outras formas. Há fórmulas criativas que é preciso explorar, como recursos locais. A auto-produção. Há "n" hipóteses, mas há ainda mais por descobrir."

A arquitectura desempenhará um papel importante na mudança, embora sem perder as suas virtualidades. "Esta terá que evoluir, terá que racionalizar, sem comprometer o conforto, fazendo evoluir a habitação, pelo bom uso da tecnologia. Há muito conhecimento disponível. Há é pouca educação", diz Maria João Rodrigues.

A palavra, então, a um arquitecto, Miguel Nery, para quem a escala da cidade "é algo para o qual os arquitectos ainda não se sentem muito à vontade, mais habituados à escala do edifício." Miguel Nery admite a maior escala, mas na sua especialidade também admite alguma utopia na reflexão: "O princípio ecológico é fechar o ciclo. E consigo ver fechado o da água, o dos materiais [locais, renováveis, com baixa energia incorporada] também. Já o da energia, não. Vejo é uma substituição do sistema energético por outros, renováveis, solar, eólico, hídrico, dos biocombustíveis". Nos edifícios, prossegue, "já se vê alguma coisa, tal a importância da ecoeficiência". No entanto, quando se fecham os ciclos, é altura de "ver não a metrópole, mas os satélites que se podem fechar": "Deveremos, contudo, transfigurar as cidades, reutilizá-las, e tentar fechar o seu ciclo. Ou partir para outro lado qualquer, numa perspectiva de ficção científica, porque me parece quase impossível dar uma resposta ao cenário Post-Oil". É que, anulado o factor energético que nos ergueu, o que resta? "Se este modelo cair haverá o abandono das cidades. Já aconteceu. É um desafio. O movimento sci-fi parte para o espaço. E se partirmos para o mar, que será o mais hostil?"Mário Alves

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