António Nóvoa - Por que é que as humanidades não nos humanizam?

O grande erro de Portugal foi nunca ter investido no território e no conhecimento, diz o reitor da Universidade de Lisboa.

O reitor da Universidade de Lisboa tem sido uma voz muito crítica relativamente ao rumo que Portugal está a tomar. Em Abril criticou o despacho com que o ministro das Finanças congelou temporariamente todas as novas despesas, considerando-o "um gesto insensato e inaceitável" e acusando o Governo de utilizar "o pior da autoridade para interromper o Estado de direito e para instaurar um Estado de excepção".

Já este mês, na abertura do congresso do maior sindicato docente do país, a Fenprof, fez um discurso em defesa da escola pública e declarou que "em tempos tão duros como os de hoje ninguém tem o direito de ficar em silêncio". Mais uma vez apontou o dedo aos "economistas da inevitabilidade" e exortou os professores a dizer "não".

Nesta entrevista explica que "um reitor não deve ter como orientação tornar-se um bicho acéfalo", por isso vai continuar a dizer o que pensa. Dentro de um mês deixará o cargo, depois de ter concluído o projecto em que mais se empenhou: a fusão da Universidade de Lisboa com a Universidade Técnica, para criar uma grande universidade com uma profunda ligação à cidade. Mas é apenas o princípio. Dado este primeiro passo, está quase tudo por fazer. E considera "urgente" que a universidade portuguesa saia para fora de si mesma e ajude o país a reflectir e a encontrar caminhos.

Diz que o pior erro que Portugal pode fazer é recuar no investimento que começara, timidamente e com muito atraso, a fazer na educação. E garante que, mesmo que não lhe dessem mais dinheiro, se não estivesse sujeito "a um conjunto imenso de regulamentos, normas, coisas infindáveis em que nunca se pode fazer nada", teria "capacidade de dar muito mais emprego e fazer muito mais coisas".

Em tempos de crise como os actuais, a universidade está a cumprir o seu papel de nos ajudar a reflectir sobre a situação em que nos encontramos?

Não. Não está. A universidade portuguesa está a fazer bem o seu trabalho na área da formação, na área da ciência, mas tem falhado na elaboração de um pensamento crítico, numa reflexão sobre o país, numa capacidade de ir para além de si mesma e de se voltar para o país. É preciso que o faça urgentemente.

Essa é uma característica de sempre na universidade portuguesa ou é algo que acontece agora?

A universidade em Portugal sempre foi historicamente muito fechada. Os momentos de abertura foram mais provocados por movimentos estudantis, crises académicas, por movimentos que nasceram dentro das universidades mas para além da própria estrutura universitária. Vivemos nas últimas décadas uma fase de expansão que obrigou a que as universidades se consolidassem.

Agora chegou uma altura em que a universidade já não pode ser só universidade, tem de ser uma voz, uma presença muito mais forte. Enquanto outros continentes se desenvolveram a partir de diferentes matrizes, religiosas ou outras, a Europa desenvolveu-se a partir de uma matriz da razão, da ciência, da inteligência. Não seria possível haver Europa sem essa matriz e as universidades tiveram um papel decisivo. Hoje, no século XXI, não podem deixar de traduzir essa matriz, esse pensamento crítico, numa reflexão sobre os problemas sociais, e na minha opinião não têm estado suficientemente presentes nesse debate.

Como é que isso se faz? Há nesse panorama algum bom exemplo?

Temos de ser capazes de mobilizar um conjunto de energias que às vezes estão adormecidas dentro das universidades e dentro das sociedades, e dar-lhes forma, dar-lhes dimensão. A fusão da Universidade de Lisboa e da Universidade Técnica é um bom exemplo, porque foi feita a pensar na sociedade portuguesa e não nas universidades. Se tivesse sido feita a pensar nas universidades, nunca teria acontecido. Quando se pensa a partir das realidades que existem, fica-se fechado nessas realidades.

A fusão foi feita a pensar na cidade de Lisboa e numa grande universidade urbana ligada à arte, à ciência, à vida da cidade. Historicamente, as universidades foram sempre criadas pelo poder central, pelos governos, esta é a primeira que nasce do interior dela própria e de um exercício de liberdade académica, tentando demonstrar, num certo sentido, que Miller Guerra [1912-1993, médico e professor universitário] não tinha razão quando dizia que as universidades não se auto-reformam, que são corpos imobilistas, sem capacidade de mudança.

Só conseguimos mudar se olharmos para fora. Sempre que olhamos para dentro, acabamos por justificar o que está. É preciso fazermos muito mais do que fizemos até agora.

Quem está fora do mundo académico interroga-se: o que é que esta fusão significa para nós?

Precisávamos de ter na cidade de Lisboa uma universidade com três marcas fortes. Uma é a da ciência e da investigação, que hoje não se faz nas áreas tradicionais, mas em áreas de fronteira, de cruzamento. É muito difícil fazer investigação em ciência e produzir tecnologia em áreas da saúde ou do envelhecimento ou do ambiente sem ter as engenharias e as faculdades de medicina, sem ter as ciências e as tecnologias. Tudo isso estava dividido entre as duas universidades. A fusão vai permitir fazer muito mais ciência, muito melhor ciência e ciência em áreas de fronteira, que são as que hoje em dia estão na ponta da investigação e do desenvolvimento das sociedades. Não há qualquer possibilidade de desenvolver uma sociedade sem ser a partir do conhecimento.

Uma segunda marca muito forte é a referência a Lisboa e a ideia de que numa cidade com 540 mil habitantes há cerca de 150 mil estudantes do ensino superior. Não pode ser irrelevante para a organização, para o planeamento, para a vida, para a habitação, para os transportes, esta presença fortíssima dos estudantes do ensino superior. E esta consciência não estava inscrita na vida da cidade.

Terceira marca: estamos hoje com dificuldades maiores do que imaginaríamos na afirmação da língua e da cultura portuguesa no mundo. E isso dificilmente se fará apenas através de estruturas diplomáticas. As grandes estruturas para projectar a língua portuguesa no mundo são obviamente as universidades. E poder ter em Lisboa uma grande universidade da língua e da cultura portuguesas com uma abertura não só à Europa mas ao mundo é central.

Depois da fusão, qual é a dimensão da nova universidade?

Cerca de 46 mil alunos, é uma dimensão média no plano europeu, mas muito significativa se atendermos apenas à realidade portuguesa. Mas mais importante do que a dimensão é a massa crítica que a universidade vai ter. Estamos a cumprir o ideal republicano, que apontava para uma grande universidade em Lisboa e considerava que uma das suas principais missões era "o estudo metódico dos problemas nacionais".

Publicámos recentemente um texto de um professor universitário [Jorge Figueira] que se lamentava daquilo em que se transformou a vida universitária. Leio-lhe um breve excerto: "Houve um tempo em que ser professor na universidade tinha uma certa eloquência. [...] O professor universitário é hoje alguém sentado à secretária furiosamente "submetendo" artigos para peer review, perdido na tradução, estupidificado pela internacionalização em obrigatória língua inglesa." Concorda?

Não alimento qualquer visão idílica da universidade do passado. Era muito pior do que é a do presente. A universidade portuguesa dos anos 1950, 60, 70 era muito má, muito má mesmo. Não havia cientistas, muitos tinham sido expulsos, não havia grandes professores com excepção de três ou quatro exemplos, era terrível a falta de cultura, a mediocridade em muitos aspectos.

Agora o que nos está a acontecer é estarmos submetidos a uma lógica de produtivismo académico, uma espécie de mercantilização das universidades, com uma intensificação do trabalho docente, retirando-nos aquilo que é o coração da liberdade, isto é é o tempo e o controlo das nossas vidas. Se não temos tempo, se andamos sempre numa azáfama, e sem controlo sobre as nossas vidas, se quem as controla são lógicas de produtivismo, o coração da liberdade académica é atacado. Temos de fazer um grande movimento contra estas tendências. Temos de fazer um movimento de valorização das humanidades, e também de um outro tipo de ciência.

Alguns colegas europeus estão a trabalhar num manifesto a favor da Slow Science, um manifesto a favor da ciência lenta, que é uma metáfora contra a ideia do produtivismo, da multiplicação dos artigos, dos papers, de uma vida controlada por outras dimensões. Felizmente, há muitas dinâmicas de resistência dentro das universidades sobre essa matéria.

É preciso repensar as regras da avaliação da avaliação da carreira docente, o que obriga a um despertar dos professores dentro das universidades. Há muita gente distraída em relação a essa matéria, muita gente resignada, como se isso fosse uma fatalidade, e não é. Nós podemos organizar as nossas universidades de outra maneira.

Mas isso não tem que ver com a internacionalização? Para se poder ter apoio para determinados projectos de investigação, tem de se cumprir uma série de regras.

Claro que está relacionado com determinados modelos de organização da ciência, dos financiamentos, de um mundo universitário muito dependente do económico, mas pode-se sempre resistir.

Mas a questão central é financeira...

Não é estritamente financeira. É uma questão de prestígio no mundo académico, da avaliação das carreiras, dos concursos, do que se valoriza. É possível ir introduzindo regras que não estejam sempre dependentes desses critérios.Dou um exemplo: num concurso para professor universitário, posso pôr como critério que a experiência docente e a capacidade pedagógica valem zero e que a única coisa que vale é a publicação de artigos, ou posso considerar que isso vale 50% e os outros 50% são medidos através de critérios de publicação.

As melhores universidades do mundo conseguem fazer esse equilíbrio de uma maneira muito mais inteligente do que países "novos-ricos", que são sempre mais básicos e que adaptam essas regras de forma muito menos sofisticada. Nós somos responsáveis pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer e pelo que deixamos que os outros façam connosco. Se não formos capazes de resistir nessa matéria, teremos dificuldades no futuro.

Tem dito que existe, por outro lado, um desequilíbrio em relação às modalidades de financiamento dentro da Europa, com algum domínio do Norte sobre o Sul.

Deixe-me começar por falar de uma ideia histórica sobre Portugal. Leio e releio muitas vezes os mesmos autores e ando agora a reler o Alexandre Herculano, o Oliveira Martins, o Antero, o Alberto Sampaio, que era da minha família, o António Sérgio, o Vitorino Magalhães Godinho. Se há uma rferência comum nestes autores, é a ideia de que os portugueses nunca investiram na terra, no sentido de território, nem no conhecimento. Fomos um povo que se construiu historicamente pelo lado da partida, da viagem, da intermediação, do comércio, e menos pelo lado da terra e do conhecimento. Estivemos pouco presentes dentro de nós, valorizamos sempre o fora de nós, como se estivéssemos a fugir de nós mesmos.

E este é um drama central, porque ao cruzá-lo com a ideia de que a Europa se constrói pelo conhecimento, pela criação cultural e científica, nós, ao afastarmo-nos desta ideia, afastamo-nos da Europa e tornamo-nos dependentes dos outros. Alimentámos uma dependência da qual sofremos até hoje. Fomos sempre dependentes das especiarias, do ouro, do império, da Europa, porque não construímos dentro de nós este investimento na terra, na agricultura, na indústria e no conhecimento. Fomos um povo que desprezou a cultura escolar, a cultura científica, achávamos que não éramos feitos para isto, éramos feitos para outra coisa, tínhamos outra missão, outro destino, outra vocação.

O nosso grande drama, hoje, é saber como é que investimos na terra e no conhecimento, e através deste investimento conseguimos criar riqueza, cultura, independência. Se não criarmos independência, vamos estar sempre sujeitos a este vai-e-vem, com momentos de euforia e de depressão. Ora para isso só há uma resposta: as universidades. Não há três mil respostas.

Como é que o conhecimento transforma a agricultura, a indústria, a estrutura produtiva, a transferência de tecnologia? A resposta para quase todos os problemas de Portugal está nesta ligação: o conhecimento e o território. E isso foi qualquer coisa que começámos a fazer muito tardiamente, chegámos tarde à escola, à cultura escolar, à alfabetização, tardíssimo à ciência, à criação cultural e científica, andamos sempre desfasados 200 anos em relação à Europa.

A segunda questão: quando entrámos na Europa, podíamos ter pensado que o mais normal seria que os fundos europeus e a estratégia de integração tivessem em conta este diagnóstico e investissem tudo na terra e no conhecimento. Que fosse a partir desses investimentos que nos tornássemos europeus. Não foi isso que se fez, antes pelo contrário. Quando se olha para a questão do conhecimento hoje em Portugal, somos ainda contribuintes líquidos para os fundos europeus na área da ciência e da inovação. Os portugueses dão mais dinheiro para o orçamento europeu da ciência do que o que recebem. Ou seja, estamos a pagar a ciência que se faz no Norte da Europa e estamos a aceitar um destino em que a criação está no Norte e para o Sul fica uma espécie de intermediação. Este "destino" foi justificado no nosso Parlamento desde o século XIX, os portugueses não foram feitos para criar, as novidades hão-de cá chegar um dia, deixem o Norte trabalhar, estudar, nós aproveitaremos.

Este é o pior discurso sobre Portugal, o mais medíocre. Estranhamente, os programas europeus, em vez de terem sido desenhados para colmatar estas nossas duas enormes deficiências - o não termos investido no território e no conhecimento - , levaram-nos a gastar o dinheiro numa série de outras coisas. Metade deste erro é culpa nossa.

Investimos em coisas que teoricamente iriam potenciar o território. As estradas iriam aproximar-nos, eram consideradas essenciais para o desenvolvimento.

Mas não potenciaram nada. Hoje sabemos que não é por haver mais auto-estradas que se evitou um enorme despovoamento do interior. Devia-se ter investido nas pessoas, no conhecimento.

Foi uma falta de visão, um deslumbramento com o dinheiro que vinha da Europa?

Alimentámos o sonho de que seríamos como os europeus e o pior que nos podia acontecer era o mesmo que acontecia ao resto da Europa. Poderíamos ter alguns problemas mas iriam ser os mesmos que os dos franceses, dos alemães. Mas viu-se que os nossos problemas não são os deles. Houve culpa nossa neste processo, mas houve uma culpa muito grande na maneira como os programas europeus foram desenhados.

Os programas de ciência estão desenhados de uma maneira aparentemente objectiva, ninguém vai dizer que dá dinheiro à Holanda e não a Portugal, mas tudo valoriza um acumular de massa crítica, uma concentração de dinheiros, de pessoas, de laboratórios que nós não temos no Sul. Vamos a jogo, e felizmente conseguimos ganhar alguns projectos, mas os programas estão desenhados de uma maneira que quase parece que os países do Norte disseram "estamos dispostos a dar dinheiro para o Sul, mas a parte da criação científica, isso fica para nós".

O que nos incomoda é sentirmos que o país é de uma enorme fragilidade. Tudo parece estilhaçar-se ao mais pequeno abanão. É a fragilidade de um país que não teve no passado, e tem ainda muito pouco hoje, uma cultura escolar e científica, uma cultura de criação. Se não conseguirmos dar a volta a isso, é muito difícil sairmos do lugar em que estamos.

Nas últimas décadas, tivemos um movimento muito grande em direcção às universidades. As pessoas queriam estudar, havia um desejo de saber.

Há uma palavra muito simples para explicar o que falha: continuidade. Isso aconteceu nos últimos 30 anos, houve uma democratização, uma expansão do ensino. Mas como se percebe hoje por muitos discursos de pessoas das áreas governamentais, e não só, que dizem que há diplomados a mais, ao fim de 30 anos já estamos cansados. Os outros países andam a fazer este esforço há 300 anos. Na área da escola e da ciência, o valor mais importante é o da continuidade. Em 1995, António Guterres disse que queria que a educação tivesse 6% do PIB. Na altura havia um consenso na sociedade portuguesa de que o nível de investimento na educação era muito inferior ao de outros países. À direita ou à esquerda ninguém criticou este aumento do PIB. Nos cinco anos seguintes o PIB foi aumentando para quase 6%. Mas a partir do ano 2000 começa a ver-se tudo o que são opinion makers no país a dizer "estamos a gastar de mais em educação", "o país não aguenta tanta despesa em educação". Bastaram quatro ou cinco anos a fazer um investimento próximo da média europeia para que o país ficasse cansado.

Mas isso terá talvez que ver com a questão com que iniciámos esta conversa, a ideia de que a universidade é um sítio onde as pessoas estudam num projecto individual, vão ter a sua vida melhor do que a dos pais, mas que não é vista como uma instituição ao serviço da sociedade.

Sim, aí estamos de acordo que a universidade tem falhado nessa missão. Mas não sei se era possível, até agora, pedir-lhe muito mais do que fez. Portugal passou de 40 mil alunos do ensino superior há 40 anos para 400 mil hoje. Isto obrigou a um esforço grande de formação e de consolidação institucional. Mas as universidades não têm desculpa e têm hoje uma obrigação infinitamente maior do que tinham no passado de pôr o seu potencial ao serviço do país.

Com a crise, muitas pessoas que chegam à universidade estão mais preocupadas com as saídas profissionais do que com o conhecimento em geral. Talvez não seja o momento ideal para pensar na universidade como um centro de conhecimento e não como uma fábrica para preparar as pessoas para o mercado de trabalho.

As duas coisas não são contraditórias. A universidade faz mal o seu trabalho quando estreita os estudos universitários num sentido excessivamente profissionalizante. Isso retira instrumentos às pessoas. O que dá a maleabilidade de mudar de vida, de emprego, de fazer diversas coisas, é a capacidade de pensar, de conhecer, de obter informação. Se a pessoa não tiver isso, até pode ter emprego durante uns anos, mas à mínima mudança fica sem os instrumentos para uma renovação da sua vida profissional. Parece um paradoxo, mas quanto mais insistimos em visões estreitas menos empregabilidade estamos a dar. Isto é claríssimo quando se fala com grandes empresários, que não têm dúvidas nenhumas de que querem pessoas que saibam pensar, que tenham boa formação, que sejam articuladas, com criatividade. O gesto profissional concreto, isso a universidade não sabe fazer, tem que ser feito nas empresas.

A revista Economist fez recentemente um trabalho sobre as causas do desemprego jovem no qual apontava o dedo às universidades, acusando-as de não estarem a formar pessoas que o mercado de trabalho precisa. Deve haver aí alguma aproximação? A McDonald"s tem uma universidade, tal como outras empresas, porque precisam de pessoas com qualificações concretas. O que a Economist parece dizer é: jovens, se não querem estar desempregados, é melhor tornarem-se mais pragmáticos.

Esses jovens são os primeiros candidatos ao desemprego. As universidades estão dentro das sociedades e têm de estar atentas ao que nelas se passa. Mas o que distingue uma universidade de um centro de formação profissional são as dimensões de que temos estado a falar. O que refere é um centro de formação profissional. Podem ser muito bons, e, nessa perspectiva, acho que a McDonald"s faz isso melhor do que uma universidade. As universidades são feitas para formar pessoas numa pluralidade de dimensões, culturais, sociais, intelectuais e outras, e resulta dessa formação que as pessoas vão ter um emprego e dar uma contribuição à sociedade. Para formar profissionais para fazer determinados gestos muito concretos e específicos, as universidades são dispensáveis.

Mas não devemos nunca deixar de trazer para dentro da universidade as grandes preocupações das sociedades contemporâneas e estas também estão no trabalho. Temos de ser capazes de fazer essa ligação de maneira inteligente. Há um texto da Liga Europeia de Universidades de Investigação em que se diz que o essencial numa universidade é que ela cultive um ambiente onde esteja a cultura das profissões, a cultura intelectual, de criatividade, de cooperação, de trabalho em equipa, de ser capaz de fazer amanhã uma coisa diferente do que se faz hoje. Um estudante que se forma num ambiente desses vai ser capaz mais tarde de se adaptar a diferentes culturas profissionais.

Há pouco dizia que tem havido críticas ao excesso de diplomados, mas o próprio mercado de trabalho penaliza quem tem habilitações a mais.

Penaliza, e esse é outros dos nossos dramas. Mas estamos num momento extremamente importante e a questão que temos pela frente é saber se queremos elevar a estrutura produtiva ao nível dos diplomados que já vamos tendo, ou se, ao contrário, queremos baixar a nossa aposta no conhecimento e pô-la outra vez no rés-do-chão da vida onde está a estrutura produtiva portuguesa. Essa décalage existe e explica muito dos problemas do desemprego jovem, mas temos de saber o que queremos fazer. Estamos ainda muito longe de ter a média europeia em termos de números de diplomados. A estratégia da Europa 20-20 aponta para um mínimo de 40% de diplomados entre os 30 e 34 anos, há muitos países europeus que já ultrapassaram essa meta e Portugal tem cerca de 25%.

Mas são algumas vozes vindas desses países que nos dizem que, para sermos competitivos, temos de ter ordenados baixos.

Aí vêm os desequilíbrios na Europa, e a maneira como nós em Portugal - e essa é uma das minhas grandes dores - aceitamos uma integração feita de uma excessiva cedência àquilo que deveríamos querer ser como povo. Para estarmos no barco europeu, cedemos, não fizemos as reivindicações que deveríamos ter feito, baseadas num projecto de futuro para Portugal. O nosso projecto de futuro esgotou-se na ideia de que queríamos ser europeus. E não percebemos que isso era curto, que por trás disso tinha que haver um projecto próprio. Hoje, perante a crise, regressa a ideia de que Portugal é um país periférico.

Interiorizámos muito a ideia de que o território é pequeno e somos poucos, não podemos ter um peso maior do que a realidade.

Mas podemos ter um projecto para o país. Há muitos países mais pequenos do que nós que têm um projecto. A Suíça, por exemplo, que nem sequer é membro da União Europeia, e recebe mais dinheiro da UE para a ciência do que aquele que lá põe, ao contrário do que se passa connosco. Porque é um país que sabe o que quer e que sabe que as suas apostas têm de ser no conhecimento. Quando há uma espécie de bloqueio do princípio europeu, nós ficamos praticamente sem nada. De repente, ser europeus parece pouco e não há nada por detrás desta capa que nos tivesse distinguido no nosso projecto de afirmação.

Quando ouvimos discursos de que se está a gastar de mais na educação ou na ciência, percebemos que somos um país que não tem prioridades. Era preciso uma visão muito mais forte sobre essa matéria. Se houvesse coragem para colocar uma parte substancial dos fundos comunitários nas mãos de estruturas universitárias e redireccioná-las exclusivamente para a criação de emprego jovem qualificado, seria uma âncora brutal para o futuro do país. Mas não se vê nada disso, corta-se aqui e acolá sem grande critério, há uma cegueira que é extraordinariamente perigosa. Todos nós já percebemos que não há nada mais perigoso do que um tecnocrata excessivamente determinado.

Perante a classe política, parece haver duas sensações: a de que são fracos e mal preparados ou a de que são figuras que, tendo uma grande preparação técnica, também se revelam uma desilusão. Entre o conhecimento a mais e o conhecimento a menos, o que é que se passa com a classe política?

Tanto na Europa como em Portugal, os sistemas políticos estão bloqueados. Foram amarrados por grupos partidários e são hoje estruturas muito pouco abertas à sociedade, com uma lógica interna própria, pouco capilares, pouco infiltradas na sociedade. Isso leva-os a alimentar uma lógica que não é a que precisávamos, sobretudo num tempo de crise.

É preciso uma dimensão humana que falta muito aos tecnocratas, que aprenderam certas receitas e as aplicam, e se as receitas não funcionam a culpa não é deles nem das receitas, é de outra coisa qualquer. Vão insistindo na mesma receita, enquanto nós precisávamos de gente capaz desse olhar de fora das coisas. Há um problema, que se traduz em Portugal numa visão de pessoas que foram para o Governo com um enorme preconceito contra o Estado, uma visão idílica dos mercados, e com a ideia de que era preciso fazer mais do que o que a troika mandava, para mostrarmos que éramos melhores alunos do que as pessoas pensavam. Quando essa receita falha, o tamanho do estrondo é imenso e hoje sentimos esse estrondo e essa incapacidade de repensar uma estratégia que continua a funcionar mal. A incapacidade de uma reflexão mais elaborada dos problemas e uma falta de sensibilidade social ao nível político dão-nos uma receita impossível.

Temos essa ideia de que as classes políticas são tão fracas hoje e que no passado houve grandes políticos com capacidade para pensar e ter projectos para os países. Como é que se explica que, depois de anos de maior acesso ao conhecimento, com mais políticos formados nas universidades, que a qualidade geral seja mais fraca do que quando saíam apenas de uma elite?

Esse é um dos grandes paradoxos que os grandes educadores do início do século XX colocavam e que o [pensador George] Steiner colocou relativamente à II Guerra Mundial: como é que a I Guerra Mundial aconteceu nos países mais civilizados da Europa? Nos países onde havia mais escola, e portanto mais civilização, foi aí que se deu a barbárie. E que foi repetida 30 anos depois outra vez no centro da cultura, com a II Guerra Mundial, que leva Steiner a fazer aquela pergunta: por que é que a música não disse que não? Muitos homens eruditos passavam a noite num concerto e iam matar no dia seguinte no campo de concentração.

Por que é que a cultura não nos salvou?

Sim, por que é que as humanidades não nos humanizam? Esta é uma pergunta que temos de fazer hoje outra vez, porque estamos à beira de situações muito difíceis na Europa e no mundo. E isso reenvia para o início da nossa conversa de que a universidade tem de se envolver com as sociedades. É nesse momento que se tornam úteis do ponto de vista social. Enquanto permanecerem fechadas nos seus recintos, estamos sempre sujeitos a que aconteça outra vez o que aconteceu na I Guerra e na II Guerra.

Há outra contradição: quer-se reduzir o peso do Estado, mas temos muito interiorizada a ideia de que a sociedade civil é fraca e por isso essa transferência de responsabilidades para as universidades, de que falava há pouco, é algo difícil de concretizar.

É verdade, mas há muitas coisas que têm que ver com dinheiro, e muitas outras que têm que ver com culturas de funcionamento, em particular com autonomia. Eu se tivesse autonomia e não estivesse sujeito a um conjunto imenso de regulamentos, normas, de coisas infindáveis em que nunca se pode fazer nada, em que se se pode fazer de acordo com uma lei mas não se pode de acordo com outra, eu teria capacidade de dar muito mais emprego do que dou, defazer muito mais do que faço. E não precisava de mais dinheiro.

E então se nos dessem mais dinheiro, esses fundos comunitários todos que vão ser devolvidos, se colocassem isso nas mãos de uma universidade ou de um consórcio com objectivos muito precisos, metas muito claras de desenvolvimento de certas regiões, ou de certas indústrias, eu faria mil vezes mais do que sou capaz de fazer agora. Mas quando nos colocam numa camisa-de-forças em que para comprar uma caneta tenho de fazer dez regulamentos, em que para contratar uma pessoa demora um ano, isto torna tudo extraordinariamente difícil, e a nossa sociedade está também bloqueada desse ponto de vista. Poderíamos fazer muito mais, não fazemos em grande parte por culpa nossa, mas também porque há mil regras inúteis que nos impedem.

E de onde vem esta obsessão nacional com as regras?

A marca do salazarismo é muito forte, sobretudo no que diz respeito à maneira como se controlam as finanças. É um controlo muito irracional porque eu posso gastar um milhão de euros mal gastos e ninguém me levanta qualquer problema, e posso gastar dez euros bem gastos e ter as auditorias todas a cair-me em cima. Atende-se muito às questões burocrático-administrativas e não se atende às questões mais essenciais, ao sentido das coisas. É impressionante ver como as inspecções se agarram a minudências e perdem meses da vida deles e da nossa com aspectos que são do domínio quase da caricatura.

Às vezes nem sabemos se o que nos está a acontecer é uma espécie de um suicídio ou de homicídio, se somos nós que nos estamos a suicidar ou se alguém nos está a assassinar. Nestes momentos, é preciso uma capacidade de pensamento crítico e de revolta que eu não sinto nas pessoas, uma grande indignação e insubmissão em relação à situação actual. No dia em que os reitores todos dissessem que não aceitavam mais estas regras, as coisas tinham de se resolver. A nossa sociedade ficou muito com a marca de uma certa resignação.

Comparo muito isso com o 25 de Abril. Eu tinha 18 anos na altura. Parecia que aquilo que cada um de nós fizesse ia mudar o mundo. Havia uma mobilização de energias como se tudo fosse possível e só dependesse de uma coisa - da nossa vontade. Agora, estamos quase no extremo oposto, façamos o que fizermos, não adianta nada. Parece que a única coisa em que podemos acreditar que alguém um dia nos virá salvar. Não virá.

Até que ponto é que essa capacidade de acreditar que tudo é possível, o livre pensamento, a criatividade, são transmitidas pelo sistema de ensino que temos?

O nosso sistema de ensino tem uma matriz oposta a essa e esse é um dos seus grandes problemas. É absolutamente anacrónico desse ponto de vista. Falo do ensino básico e secundário, onde as coisas melhores acontecem fora da sala de aula, como se não conseguíssemos mudar a sala de aula e fizéssemos umas flores à volta dela, projectos com a comunidade, actividades artísticas. Não inovamos no coração da pedagogia. A questão é como é que construímos uma escola que não seja à volta das aulas, mas sim do estudo? E o estudo implica uma dinâmica de autonomia, de liberdade, de cooperação, que é uma coisa que falta imenso nas nossas escolas e na sociedade portuguesa. E nos últimos anos, pior ainda.

Refere-se ao discurso de que o importante é decorar...

Fui sempre uma pessoa que estuda e trabalha imenso, prezo muito o valor do trabalho, mas quando se vê regressar essas coisas velhas e relhas de uma memorização mecanizante, é assustador. Voltando às questões da criatividade, há um ponto que eu acho muito importante: a ideia de criação. É diferente de criatividade, e dificilmente podemos ter uma dinâmica de criatividade se não tivermos uma dinâmica de criação, e a criação cultural, científica ou de conhecimento exige um enorme trabalho para que num determinado momento haja o clique da criatividade. Esta vem desse trabalho de criação e não pode ser colocada como oposta à ideia do estudo e do trabalho.

Há quem considere que a alternativa ao decorar é apenas facilitismo, que nada exige às crianças.

Nós muitas vezes valorizamos a cultura portuguesa pelo lado da criatividade, da imaginação, do desenrasca como contraponto ao estudo, ao trabalho, à escola, à cultura científica, e se for posto como contraponto nunca chegaremos a lado nenhum. Por isso é que insisto muito na ideia de criação, da escola como acto de criação cultural porque é daqui que pode nascer a criatividade.

Falando de livre pensamento... tem tido uma série de posições públicas críticas em relação à política do Governo, nomeadamente o comunicado que fez atacando o despacho do ministro das Finanças que congelava as despesas, e à política de educação. Tem sido complicado tendo em conta o cargo que ocupa?

No dia em que eu achasse que não podia tê-las, deixava de ser reitor. Com o cargo de reitor não vem nenhuma diminuição de cidadania, antes pelo contrário, vem uma maior responsabilidade pública. Temos de estar nestes cargos com grande desprendimento e acho que no dia em que não sentir essa liberdade total, mas tenho de a sentir mesmo, dentro da alma, deixaria de ser reitor.

E, até onde me é possível perceber, as pessoas entendem essa atitude, talvez por não ter ligações a partidos e por ter usado da mesma frontalidade que uso hoje nos tempos dos governos socialistas. Irritam-me as mesmas coisas, os mesmos autoritarismos e as mesmas arrogâncias de quem está no poder.

Sou capaz de todos os sacrifícios, mas não consigo entender sacrifícios inúteis, uma política inútil, uma burocracia inútil, uma atitude inútil. Num momento como este, temos de dar utilidade aos nossos sacrifícios. É nestes momentos de crise mais profunda, em que há uma ferida aberta, que temos que nos pôr em causa e encontrar novas soluções para o país.

Um reitor é eleito pela comunidade académica para ter as suas opiniões, não pode tornar-se um bicho acéfalo, não é essa a minha concepção do cargo. Sinceramente, acho que as pessoas respeitam isso e que me respeitam mais do que se estivesse calado.

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