Para onde esta sinfonia nos pode levar

PEDRO CUNHA

O cinema como espaço para uma experiência sensual pura. "Swans" é a segunda longa-metragen de Hugo Vieira da Silva.

O lugar de Hugo Vieira da Silva no cinema português é inabitual: partindo da performance e de um olhar sobre o corpo, estreou "Body Rice" em 2006, procurando derrubar algumas das fronteiras narrativas associadas à linguagem do cinema. Por outras palavras: um foco na expressão do corpo e numa comunicação mais física do que verbal. "Swans" será um filme menos experimental, mais coeso na narração. Mas a reacção que pede ao espectador não será menos forte.

O segundo filme de Vieira da Silva foca-se, então, na experiência de uma família dividida entre Lisboa (pai e filho) e Berlim (uma mãe quase desconhecida para o rapaz), destinos que também se dividem na vida e no trabalho de Vieira da Silva ("Swans" é uma co-produção luso-alemã, falada em alemão e filmada em Berlim, onde o realizador vive). A experiência de "Swans" é a intimidade perdida entre um pai e um filho, e outra por fazer: a de um filho que conhece a mãe num estado de coma. "Escolhi uma pessoa em coma porque conheci essa situação", explica-nos o realizador, "mas também para reflectir sobre a experiência de como se estabelece uma relação com esse corpo. No meu caso, pude estabelecer uma que não era do domínio da palavra ou do consciente, mas em que existia uma dimensão relacional muito rica. Quando se está face a uma pessoa em coma, tem de se inventar uma linguagem, e isso passa por um processo em que se vai pensando, face ao efeito de estranheza, que ela se pode tornar possível." Para o realizador, "é uma questão decisiva entre todas as pessoas: como se podem relacionar entre elas e como isso se pode tornar numa relação."

Sinfonia

Acaba por ser esse o centro do filme: num contexto urbano contemporâneo, em que os nossos corpos se estendem, na nossa rotina, por acessórios tecnológicos e máquinas que definem a nossa conformidade, o corpo em coma é aquele em que se busca uma reacção, uma experiência íntima num estado sensorial puro. "Procuro reflectir sobre a perda desse exercício de intimidade", diz o realizador, "assim como o predomínio de uma dimensão do visual e a perda de um lado táctil e sensível." O seu trabalho em cinema passa, portanto, pela posição do nosso corpo e da sua percepção sobre o mundo. "O que está no centro é essa experiência sensorial e sensual. O filme reflecte sobre isso, tal como a procura de um exercício de comunicação e de intimidade que está interrompido do ponto de vista social, cultural, mas também maquinal." Do mesmo modo, "a construção dos cinco sentidos, nas nossas relações, é teórica, pois eles coexistem e não são separáveis. Trata-se de uma experiência total, e o meu cinema procura ir além da dimensão visual."

A reacção do espectador passará, tal como as personagens de filme, por uma reacção física a esse corpo e à linguagem que se cria com ele. "Acima de tudo, tem-se uma relação física com um filme. Gosto de poder ser transportado e ver como um filme entra por ritmos de respiração e sons, de ver para onde esta sinfonia nos pode levar."

A experimentação atinge o seu ponto mais forte com o olhar do adolescente sobre o corpo que lhe deu vida, estando ele próprio num momento de procura sobre a capacidade de prazer do seu corpo. "A adolescência é um território de experiências e ele está a ter uma experiência física, sensorial e sexual. É um território difuso, e a nossa experiência sobre o mundo é também um pouco ambígua", afirma o realizador. A personagem "encontra qualquer coisa nesta relação com o corpo de mãe, que não é uma mãe cultural mas biológica."

Encontro alemão

Num gesto mais comum a um percurso de artista plástico do que no trajecto de um realizador, Vieira da Silva buscou, no estrangeiro, um território de experimentação junto de um grupo onde pudesse reconhecer uma sensibilidade artística próxima dos seus objectivos. Em Berlim, encontrou pessoas que têm vindo a marcar o novo cinema alemão, a chamada "escola de Berlim". "Reinhold Vorschneider, o director de fotografia deste filme, é a figura central desses filmes, tal como os de Angela Schanelec ["Marseille", 2004; "Orly", 2010]." Mas o realizador português procura manter o seu território de trabalho. "Muitos dos filmes da escola de Berlim versam sobre a temática do tédio da classe média, e sinto-me longe disso, para além de não ser alemão nem interpretar a realidade dessa forma". Por outro lado, tem uma ligação "com pessoas amigas, como Jessica Hausner ["Lourdes", 2009], e este é sem dúvida um momento do cinema alemão em que há uma reflexão sobre a condição contemporânea das pessoas. Também existe um distanciamento e um caminho fora do psicológico em que me revejo." E se o seu próximo projecto será ainda num contexto semelhante, o futuro poderá marcar um regresso. "Tenho um projecto de um filme de produção austríaca, mas queria também fazer um filme em Portugal, em língua portuguesa e com actores portugueses."

Ver crítica filmes págs. 41 e segs.

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