Os playboys do Tortosendo

Na vila do Tortosendo, entre operários e pastores miseráveis da serra da Estrela, viveu, nos anos 60, uma elite de ricaços que conduzia carros de luxo, fazia compras no estrangeiro, ia de avioneta tomar café ao Estoril ou comprar peixe fresco à Figueira da Foz, para o almoço. O que resta hoje desse mundo de contrastes e de ressentimento?

O Mercury V8 azul, de 1950, a deslizar pela Avenida Viriato. As fábricas a laborar em pleno, sem dar tréguas aos teares, bobinadeiras, râmolas, urdideiras e cardas, mesmo quando os operários de fato-macaco abrem as marmitas com batatas cozidas, sentados à porta, na rua, faça sol ou caia neve.

O ronco altaneiro, fanfarrão, dos 4200 centímetros cúbicos dos oito cilindros do majestoso Mercury de Francisco Batista, a ecoar entre a sua casa e o edifício da Moura e Batista, e entre este e o Clube Avenida, onde se joga às cartas e se organizam bailes chiques, e onde os operários não entram.

Famílias a passar fome nos casebres do Casal da Serra, enquanto as senhoras vão à missa de limusina, conduzidas por um motorista fardado. Crianças de 11 anos a trabalhar nas fábricas, a troco de nada, enquanto os jovens filhos dos industriais coleccionavam carros e participavam em corridas, sem nunca terem tido um emprego. E sem nunca terem brincado com os filhos dos operários, que viviam na casa ao lado.

Que resta hoje desse Tortosendo de prosperidade de uns e miséria de outros, de exploração, de ostentação, de humilhação, de assédio sexual das operárias dos turnos da noite, de revolta, de greves e prisões? As fábricas estão em ruínas, os palacetes estão fechados, e o resto? Onde foi parar todo o esplendor, toda a vaidade? A superioridade, o preconceito e a prerrogativa?

Onde estão os carros de corrida? As avionetas que levavam os patrões ao Casino Estoril? Que será feito do imponente Mercury V8 de Francisco Batista?

Ao entrar pela estrada que vem da Covilhã, o Tortosendo é uma cidade-fantasma. Ou uma "cidade sinistrada", como prefere dizer o escritor Manuel da Silva Ramos, a respeito da Covilhã. O Tortosendo é igual, ou pior. Aqui não nasceu uma universidade, para aproveitar alguns dos edifícios monumentais da arqueologia industrial, atrair jovens estudantes, a quem as famílias dos antigos operários agora alugam quartos. Aqui não há nada. Nos arredores nasceu um parque industrial, com armazéns e fábricas de arquitectura horrenda, mas o centro da vila continua dominado pelos magníficos edifícios do seu período áureo. Nos anos 1950 e 60 havia mais de 20 fábricas na pequena povoação do Tortosendo, que davam trabalho a cerca de 5 mil pessoas. As elites dos lanifícios viviam à grande. No meio da serra da Estrela, num mundo de pastores, agricultores e operários mal pagos, um mundo de analfabetismo e isolamento, a elite industrial dançava pela noite dentro no Clube Avenida, ia às compras a Paris ou a Salamanca, às boîtes do Parque Mayer, tomar café a Espinho de Alfa Romeu desportivo ou comprar sardinhas frescas para o almoço à Figueira da Foz, de avioneta.

Em 1940, a Covilhã possuía 60 por cento de toda a produção de lanifícios do país. Em 1949, exportava 6 mil toneladas de têxteis, grande parte para Angola. Em 1968 exportava três vezes mais - 15 mil toneladas só para Angola.

A decadência começou nessa altura; o 25 de Abril de 1974 deu o golpe fatal nesse mundo de exploração e privilégio, e os anos 80 viram fechar, uma a uma, todas as grandes fábricas. Alguns dos edifícios foram convertidos em armazéns ou noutras indústrias (principalmente de confecções, que depois também foram abrindo falência). Mas a maior parte mantém-se no lugar, como que à espera que os operários voltem, que os teares se liguem de novo e a lã encha outra vez os armazéns. São edifícios degradados, quase sempre em ruínas, mas com estranhos sinais de vida emanando do interior. No meio da destruição, há máquinas, tecidos, botões, instrumentos espalhados pelo chão, como se o abandono não tivesse sido lento e duradouro, mas repentino e provisório.

A Sociedade de Lanifícios, a Sociedade de Fabricantes, a João Pontífice, a Cláudio de Sousa Rebordão, a José Laço Pinto Júnior, e tantas outras fábricas que ainda enobrecem a Avenida Viriato, a principal artéria do Tortosendo, pararam no tempo, cristalizando o momento em que a actividade se deteve, em que alguém fugiu, ou se escondeu, para não enfrentar o devir histórico que os sepultaria a todos.

Nas ruas do Tortosendo, a vida continua. As pessoas passam pelas carcaças das fábricas como que fingindo não as ver. Talvez não as vejam já. A inutilidade manifesta e monumental dos monstros de pedra transformou-os em acidentes naturais, como se fossem colinas ou árvores centenárias. Ou templos primitivos, habitados ainda pelos deuses do ressentimento.

Manuel Batista, 58 anos, vive no palacete da família. Hoje tem um negócio de importação de acessórios para as fábricas de confecção, com pouco que ver com as indústrias fundadas pelo avô, Francisco Pontífice Batista. Chegou a trabalhar nas fábricas geridas pelo pai, Gabriel, e os tios, mas afastou-se quando elas entraram em decadência. Depois, todo o império económico dos Batista se afundou.

Francisco foi pobre. Emigrou para o Brasil e trouxe de lá algum dinheiro, que investiu na indústria têxtil. Diz-se que usava calções rotos, quando chegou, antes de enriquecer. "O meu avô era um homem de poucas palavras, recto e justo", recorda Manuel. "Trouxe algum dinheiro do Brasil e investiu numa fábrica. Nunca pediu um empréstimo. Construiu as fábricas e depois deu sociedade a outros."

Francisco tinha quintas, várias fábricas, casas e propriedades. Diz-se que ajudava os pobres, que iam à quinta pedir comida. Ofereceu o terreno para a construção do seminário do Tortosendo, mandou construir um bairro inteiro, para os seus operários. Chamou-se Bairro dos Pinhos Mansos, mas era mais conhecido (e ainda é) como Bairro dos Batistas. Ficava ao lado das fábricas e incluía um parque para as crianças brincarem. Hoje chama-se Bairro José Carlos Ary dos Santos.

Mas foi Francisco quem fundou o Clube Avenida. Comprou a casa e convidou os amigos para sócios. Carlos Barata, 72 anos, habitante do Bairro dos Batistas, lembra-se do clube. Havia lá grandes festas, carros de luxo estacionados à porta. Mas nunca entrou. Ia ao outro, o Clube Unidos, onde se dançava ao som de uma banda chamada "O Jazz". Mas nunca ao Avenida. Não era sócio nem o deixavam ser. "Era só para os ricos. Nós não podíamos entrar." Carlos e a mulher, Maria do Céu Gabriela Silveiro, de 70 anos, vivem no Bairro dos Batistas há 50 anos. Trabalharam na fábrica de Francisco, ele desde os 10 anos, ela desde os 11.

Ganhavam muito pouco, mas pelo menos naquela altura havia trabalho, dizem agora a Manuel, o neto de Francisco. "Foi pena a indústria ter acabado, ó sr. Manuel", diz Maria do Céu. E Carlos: "A vida dantes era mais alegre do que é agora."

Manuel começou a trabalhar cedo, na empresa do pai e dos tios, embora sem ganhar nada. Um dos tios chegou a pagar-llhe um salário, quando ele tinha 18 anos, mas o pai veio a seguir e tirou-lhe o dinheiro. "Deves trabalhar para aprender, não para ganhar dinheiro", dizia-lhe.

Manuel andou a carregar tecidos, a distribuir calças com uma carrinha. Isso já na fase em que as empresas se dedicavam à confecção. Nos tempos gloriosos dos lanifícios, era ainda criança e o que recorda é uma época de abundância e redenção.

Brincava com os primos, nas várias casas e quintas da família. Tinha brinquedos caros, exclusivos. Como por exemplo um automóvel telecomandado, que ainda hoje guarda num armário, ao lado das colecções de carrinhos Matchbox.

Manuel lembra-se do primo Tó Rui e das brincadeiras com carrinhos. Era esse o tema que dominava toda a sua infância e adolescência, bem como as dos primos e amigos. No caso do Tó Rui, o hobby prolongou-se pela juventude, e depois dela. Substituiu as miniaturas por carros de verdade, tornou-se corredor de rallies.

Foi viver para Londres, dedicou-se às corridas de Fórmula 3 e Fórmula Ford. Chegou a ser campeão, com o nome de António Rui Bacelar de Moura. Conduziu um Fiat 600, um Abarth 1000, um Austin Cooper, um Alfa Romeu GTA e um Opel Commodore. Além de piloto, Tó Rui era músico numa banda de rock and roll que interpretava canções dos Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan.

"O Tó Rui era um verdadeiro playboy", diz Manuel Batista. "Casou muito tarde e fazia uma vida... como disse um amigo dele, fazia suspirar as meninas da época e as suas mães."

Tó Rui morreu há dois anos, mas a paixão dos carros desportivos sobreviveu no Tortosendo. Manuel tem a parede do escritório forrada de fotografias de modelos dos anos 1960 e 70. E na garagem de uma das casas da família, na Avenida Viriato, junto à sede do Clube dos Ricos, hoje fechado, tem vários exemplares, perfeitamente tratados e conservados. Um Citroën Palas, um Taunus, um BMW 1600, um Renault 12, um Cortina GT e um Fiat 125 Special azul, o seu preferido.

A indústria têxtil na Covilhã começou a desenvolver-se no século XIX. No início do século XX, era já uma das indústrias mais importantes do país. Mas foi com as duas guerras mundiais que os lanifícios se tornaram numa actividade incrivelmente rentável. Os países europeus beligerantes pararam a produção de lãs e tecidos, abrindo a janela de oportunidade aos industriais da serra da Estrela.

Segundo Elisa Pinheiro, historiadora e investigadora, ex-directora do Museu dos Lanifícios da Covilhã, a elite dos industriais tem origem, desde o século XVIII, na comunidade judaica da região. Desenvolveram a actividade segundo um modelo sui generis baseado na existência de muitos cursos de água na cidade. Daí as fábricas terem sido construídas junto às ribeiras e, por terem apostado nos teares hidráulicos, terem prescindido da energia a vapor que se impunha na Inglaterra, na época da Revolução Industrial.

No Tortosendo, a indústria desenvolve-se mais tarde e como subsidiária das fábricas da Covilhã. Por isso as fábricas foram construídas junto à estrada, para facilitar o transporte para a Covilhã.

"As elites do Tortosendo são mais tardias", explica Elisa Pinheiro. Têm origem nos tecelões que enriqueceram a fornecer fio de lã para as fábricas da Covilhã. De um ou dois teares, passaram a juntar várias dezenas, num "casarão", que depois deu origem às primeiras fábricas. Estes primeiros empresários começaram por ser sócios de fábricas da Covilhã, antes de se terem tornado independentes.

E foi talvez por terem ascendido socialmente com rapidez e alguma facilidade que se tornaram mais exploradores dos operários e mais exibicionistas. Tinham características idênticas às dos seus congéneres da Covilhã, embora talvez mais exageradas em alguns dos seus traços. E, como viviam num meio mais pequeno e mais pobre, criaram uma sociedade ainda com mais contrastes e mais injustiças. Nos anos de 1960, no auge da indústria, havia uma centena de fábricas na Covilhã e cerca de duas dezenas no Tortosendo - o que, dada a dimensão relativa da povoação, representava um peso ainda maior na actividade da população.

Uma das características destas elites, tanto na Covilhã como no Tortosendo, era a sua fraca cultura. "O liceu na Covilhã começa tarde, já nos anos 40", conta Elisa Pinheiro. Nas actas da reunião da Câmara Municipal em que foi decidido criar o liceu, estão registadas muitas objecções. Um industrial importante da época disse: "Um liceu? Para quê? Nós pomos os nossos filhos a estudar fora. Se houver um liceu cá, os filhos dos operários também irão estudar."

O liceu acabou por ser inaugurado, mas não serviu de trampolim para a universidade.

Os industriais tinham possibilidade de mandar os filhos continuar os estudos, mas não o fizeram. Acharam que não era necessário. Era tão fácil ganhar dinheiro, que o estudo era visto como uma perda de tempo. Poucos foram os empresários que quiseram dar aos filhos uma formação na área dos têxteis. Ou qualquer outra formação. Elisa lembra-se de que quando chegou à universidade, em Lisboa, os professores se queixaram de que nunca ali tinham visto um jovem da Covilhã.

"Era fácil ganhar dinheiro. Estas pessoas gastavam muito e não tinham qualquer respeito por quem trabalhava." Elisa recorda-se de uma modista da Covilhã que contava que as senhoras ricas lhe encomendavam 20 ou 30 vestidos de cada vez, para levar ao casino, e depois não pagavam. Havia também a tradição da caridade, embora o objectivo fosse mais o exibicionismo do que o verdadeiro interesse pelos que viviam pior. Havia festas de caridade, onde as senhoras jogavam canasta, e o hábito de "adoptar" pobres. "As famílias tinham os seus pobres de estimação", diz Elisa. Ela estudou as listas de donativos para o albergue dos pobres, que os ricos mandavam publicar nos jornais. "Eram quantias miseráveis. Davam coisas em mau estado, que não valiam nada, só para aparecer nos jornais."

Os homens tinham amantes entre as operárias. "Escolhiam as mais bonitas, montavam-lhes casa, tinham filhos delas. Ter várias mulheres por conta era até um sinal de afirmação e poder."

Ao contrário desta espécie de "aristocracia iletrada", os operários tentavam colocar os filhos na Escola Industrial da Covilhã, que em 1881 abriu com cursos de especialização nas várias actividades fabris.

A partir de certa altura, o contraste era evidente entre a incompetência dos patrões e a alta capacidade dos operários, ou pelo menos dos quadros intermédios das fábricas, como debuxadores, tintureiros, etc. "Havia um escol de técnicos médios." E talvez isso tenha sido uma das razões para a violência do conflito que se seguirá.

A ignorância e incompetência dos industriais impediu-os de se modernizarem quando a crise chegou, explica Elisa Pinheiro. Com a concorrência do terceiro mundo e, principalmente, depois de 1974, com a contestação às condições de trabalho e o desaparecimento das colónias, a indústria morreu.

"As fábricas tinham sido equipadas com máquinas novas, mas estavam adaptadas para produzir para o mercado colonial, que era pouco exigente em termos de qualidade", diz Elisa. Desaparecido esse mercado protegido, não podiam concorrer num mercado mundial mais competitivo.

"Era um mundo muito violento", diz a historiadora. "Não só da parte dos patrões, mas também do lado dos operários." Desde cedo houve greves e manifestações, organizadas por um forte movimento anarco-sindicalista, e depois comunista. Logo em 1923, por exemplo, houve uma greve em protesto por a França ter ocupado o Ruhr. Os operários podiam ser tão arrogantes quanto isto.

Nas suas investigações, Elisa descobriu que este movimento contestatário não nasceu espontaneamente, nem na Covilhã nem no Tortosendo. Apercebendo-se das condições sociais propícias, activistas em Lisboa enviaram agitadores e militantes. Sabe-se que para as fábricas da Covilhã foram enviados estudantes, para trabalhar como operários e agitar os colegas. Ao Tortosendo chegou um sapateiro do Seixal, anarco-sidicalista, chamado Joaquim Roça, e também dois padeiros chamados José e Américo Ribeiro, maçons e ligados ao Partido Comunista. Trabalharam em conjunto para criar a célula comunista, que se tornaria célebre e poderosa.

Desde os anos 20, criou-se uma elite operária no Tortosendo. Foi fundado o Clube Unidos, onde os activistas davam aulas de teoria política revolucionária, mas também de outros temas culturais, como piano e francês. Era um clube de cultura, enquanto o Avenida era de jogo e futilidade. Um terceiro clube, o Sport Lisboa e Benfica, juntava elementos das classes rica e pobre.

O Clube Unidos reuniu uma biblioteca com muitos volumes, parte deles subversivos, que os operários escondiam em suas casas, por vezes enterravam, para escapar às rusgas da polícia.

Alberto Oliveira, 78 anos, usufruiu dessa biblioteca. Leu Zola e Stendhal na juventude, graças ao Clube Unidos. Trabalhou em fábricas e foi dirigente sindical grande parte da sua vida. Ajudou a organizar greves, deu apoio a operários presos.

O pai era carteiro e já tinha "tendências literárias". Escrevia artigos de cariz religioso para o Notícias da Covilhã. Alberto viria a ser membro da Juventude Operária Católica (JOC). Aos 11 anos foi trabalhar para o comércio, depois do exame da 4.ª classe. E aos 16 entrou para uma fábrica, a Sociedade de Fabricantes. Depois para a Leonel de Sousa Rebordão e, mais tarde, a Américo Sousa e Irmão. Nesta, trabalhou 40 anos.

Entrou cedo para o sindicato, que de início era organizado segundo o modelo corporativista. A autonomia sindical foi primeiro conquistada na Covilhã. O Tortosendo teria de esperar mais dez anos.

"Os trabalhadores não tinham qualquer protecção, não se podiam queixar. As mulheres ganhavam menos. As crianças trabalhavam como atadores de fios e não lhes pagavam. Só a partir dos 18 anos se tornavam aprendizes. Se os operários se queixavam, o sindicato, controlado pelos patrões, nunca lhes dava razão."

Uma vez, na Sociedade de Fabricantes, Alberto viu aparecer um inspector do trabalho. Um dos patrões, José Laureano de Moura e Sousa, que nunca comparecia na fábrica, foi lá e disse ao inspector: "Escolha aí o fato que quiser." O homem escolheu o fato e foi-se embora.

Quando o ministro das Corporações, Veiga de Macedo, visitou o Tortosendo, Na década de 1950, Alberto foi ouvi-lo à sessão oficial. No fim do discurso de circunstância, levantou-se e interpelou o ministro, pedindo a realização de eleições no sindicato, como já ocorrera na Covilhã.

O ministro desatou aos gritos. "No Tortosendo? Essa corja de comunistas? Ouvi dizer que têm um clube com uma biblioteca subversiva..."

Alberto Oliveira é um homem respeitado no Tortosendo. Quando passeia pelo Casal da Serra, um dos bairros mais antigos e mais pobres da povoação, todos o vêm cumprimentar.

Manuel Fernandes Pontífice, de 97 anos, conta como, durante 30 anos, ia todos os dias para a Covilhã a pé, pelo meio da serra, para trabalhar numa fábrica como cardador. Nos tempos livres, cultivava um terreno que pertencia a uma das famílias de industriais, os Garrett.

Januário Nunes de Almeida, de 72 anos, trabalhador dos lanifícios desde os 9, sorriso desdentado e pele talhada como um pedregulho, recorda a época em que conseguiu ir trabalhar para uma fábrica nova do mesmo patrão (Fernando Antunes, que ele nunca viu), em Unhais da Serra, na condição de não trabalhar mais nas cardas. "Não queria cardas. É perigoso. Aquilo pode apanhar os braços e a cabeça. Os das cardas, é muito poucochinho os que não ficaram aleijados. Ficaram todos baptizados".

As casas minúsculas, cravadas na encosta, de Casal da Serra, foram todas pintadas com um subsídio distribuído pela Câmara. Mas os habitantes deste bairro que fica num atalho de cabras para a Serra da Estrela continuam tão pobres como no tempo das fábricas e dos patrões exploradores. Já não há fábricas, e os industriais morreram todos, mas os contrastes sociais no Tortosendo continuam evidentes como nos anos 60.

"Ter o nome de uma importante família de industriais ainda vale alguma coisa nesta região", diz Natália Oliveira, oficial de Justiça, filha de Alberto. As pessoas dão-se umas com as outras, conta ela, mas ? ?na hora da verdade" não é bem assim. O filho de um rico não casa com a filha de um pobre, ainda hoje. Mesmo que isso não passe de preconceito, pois a maior parte dessas famílias de nome estão arruinadas.

As últimas gerações esbanjaram o dinheiro das famílias, explica Manuel da Silva Ramos, o escritor da Covilhã. "Tinham uma vida fácil, esbanjavam, compravam carros, gostavam de exibir-se. Pensavam que o dinheiro nunca iria acabar". Ramos, de 65 anos, escreveu vários livros, mas o mais famoso é Café Montalto, em que retrata a vida das elites de industriais. Para o escrever entrevistou mais de 500 pessoas. "É a bíblia da Covilhã. Depois de o ter escrito, já posso morrer", diz o escritor.

Manuel da Silva Ramos nasceu na aldeia de Refúgio, filho de um alfaiate que fazia fatos para os operários e comprava fazendas aos ricos. Manuel conheceu por isso os dois lados da sociedade. Em 1970 escreveu um livro (Os Três Seios de Novélia) que lhe valeu o prémio literário Almeida Garrett. Com os 20 contos que ganhou partiu para França, fugindo à guerra colonial.

Regressou em 1997, para escrever mais livros. Em Café Montalto, uma obra de ficção, decidiu manter os nomes reais das famílias que retrata. Sofreu ameaças, processos judiciais. Mas o trabalho ficou feito. No livro, os patrões assediam as operárias, os pobres não podem entrar no Café Montalto, o mais famoso da Covilhã, as crianças oriundas de famílias pobres não podem brincar com os filhos dos ricos, os operários contraem doenças, sofrem acidentes de trabalho e tornam-se surdos, têm uma alimentação deficiente. Os filhos dos industriais ouviam Beatles e Adamo, conduziam carros desportivos, pilotavam aviões.

"A Igreja teve um papel importante como cúmplice deste patronato", diz Manuel da Silva Ramos. "Ainda hoje se pode ver que há igrejas construídas ao lado das fábricas. O objectivo era espiar os operários. Pelo menos de um padre tenho provas de que era informador da polícia. Chamava-se padre Morgadinho e, na confissão, fazia perguntas às mulheres dos operários grevistas, para depois os denunciar à PIDE".

Depois do 25 de Abril, a reacção dos operários foi violenta. Manuel Batista lembra-se de assistir, quando era criança, a comícios nas fábricas do avô. "Os sindicalistas chegavam, às horas de trabalho, e mandavam parar as máquinas, para fazerem discursos. Convocavam greves por tudo e por nada. Lembro-me de que uma vez levaram um operário de outra região, trabalhador metalúrgico. "Este camarada foi despedido", disseram. "Por isso vamos fazer greve, em solidariedade com ele"".

Manuel Ramos não se admira com as reacções dos operários. "O sofrimento das pessoas foi incalculável", diz ele. "Houve e ainda há muito ressentimento. A memória desse sofrimento nunca se poderá apagar".

No Tortosendo, os nomes de família dos industriais ainda causam um estremecimento e algum temor. Valdemar Rebordão, sobrinho de Cláudio Rebordão, sócio da Moura Matos. Carlos Sousa, filho de Américo Sousa. Eduardo Carvalhão, filho de João Carvalhão, da Sociedade de Fabricantes. Manuel Batista e os seus primos, que ainda são donos de terras, velhas fábricas e palacetes vazios.

É na garagem de um destes que, por baixo de uma capa de pano, ao lado de um carro moderno e de um barco de recreio, fomos encontrar o sumptuoso Mercury de Francisco Batista. Como e porquê foi mantido ali, todos estes anos? Estranhamente funcional, ao contrário das fábricas, transformadas em destroços. Impecável, pintura azul a brilhar, pneus novos, cromados cintilantes. O orgulhoso V8 de 1950, 4200 cm3 de cilindrada, pronto a circular. O motor ainda está quente, dir-se-ia. Como se tivesse acabado de chegar de um baile no Clube Avenida.

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