Os norte-coreanos vão para casa. Ou para o gulag

Jogadores norte-coreanos durante o jogo com Portugal, que viriam a perder por 7-0 FRANCISCO LEONG/AFP

O futuro dos jogadores norte-coreanos, depois de uma humilhante derrota no Mundial, é um exercício de adivinhação. Mas há exemplos suficientes para se temer o pior. Por Francisca Gorjão Henriques

Tivessem eles vencido e seriam recebidos como heróis. Apartamentos, carros, benesses várias. Mas uma derrota humilhante frente a Portugal, quando pela primeira vez uma partida do Mundial era transmitida em directo, pode ter consequências imprevisíveis para os jogadores norte-coreanos. E imprevisíveis significa mesmo impossíveis de prever, porque ninguém saberá dizer com algum grau de certeza quais os castigos que podem estar à sua espera, quando regressarem à Coreia do Norte (os jogadores já deverão estar no seu país, embora não haja ainda qualquer confirmação oficial da chegada).

Uma das hipóteses: os jogadores vão ser enviados para minas de carvão, ou qualquer campo de trabalhos forçados, para o resto da vida. Outra: os jogadores perderão alguns dos seus privilégios e dificilmente voltarão a deixar o país. Outra ainda, se bem que talvez menos provável: os jogadores escaparão incólumes.

Terá sido o seu primeiro jogo neste campeonato, contra o Brasil, o responsável por um excesso de confiança do regime de Kim Jong-il? A Coreia do Norte perdeu por apenas 2-1 contra a grande potência mundial e isso talvez tenha feito com que acreditasse que conseguiria mesmo derrotar Portugal. O passo de transmitir o jogo em directo para que os norte-coreanos pudessem ter algum contacto com a realidade lá fora parecia relativamente bem calculado.

"Acho que, por terem jogado tão bem contra a equipa brasileira no último jogo, ninguém na Coreia do Norte teria imaginado que iriam sofrer uma derrota tão pesada", comentou à BBC o norte-coreano Kim Young-il, exilado em Seul.

No último Mundial em que o país participou, em 1966, o então "Grande Líder", Kim Il-sung, pôde orgulhar-se de o seu país ter vencido a Itália; mas a selecção portuguesa (é fado) atravessou-se no seu caminho. A Coreia do Norte estava a vencer por 3-0 quando o jogo virou e Portugal acabou por expulsar o adversário da corrida ao marcar cinco golos. A espinha ficou na garganta.

A culpa é de Kim ou de Kim?

Desta vez, e única desde 66, vencer a primeira eliminatória já traria uma glória aceitável para um país que se põe sempre à margem dos grandes acontecimentos internacionais. O desfecho não foi esse. Sofrer sete golos sem marcar nenhum é uma humilhação por muito que se queira evitar a palavra. O resultado do jogo contra a Costa do Marfim, o último antes de voltar a casa, não minimizou os danos, com a equipa a perder por três bolas a zero.

"Queria aqui deixar o meu respeito pela equipa da Coreia do Norte, pelos seus jogadores e pela forma digna como se bateram do princípio ao fim, sem acabarem o jogo aos pontapés a ninguém...", amenizou o seleccionador português, Carlos Queiroz. "Gostava de dizer que é um daqueles resultados que, por vezes, acontece. Às vezes estamos de um lado, outras estamos do outro."

Mas ninguém imaginará como é estar do lado norte-coreano.

O seleccionador assumiu as suas responsabilidades. "A culpa é minha por não termos jogado com a melhor estratégia", reconheceu Kim Jong-hun.

Há quem questione se a responsabilidade é mesmo de Kim. Deste Kim. É que o próprio treinador afirmou há semanas que Kim Jong-il dava instruções durante o jogo sobre que tácticas adoptar "através de um telemóvel invisível que ele próprio criou". Se este dispositivo tipo James Bond gera descrédito, já o facto de o "Querido Líder" - que é um conhecido amante de futebol, de resto o desporto mais popular no país - fazer valer as suas estratégias futebolísticas não parece criar suspeitas.

Só que, se alguma cabeça rolar, não será seguramente a sua. E, para alguns analistas, parece inevitável que alguém pague um preço pelo que aconteceu neste Mundial.

"Uma vez que estes jogadores são internacionalmente conhecidos, é possível que um escrutínio internacional os poupe a uma retaliação por parte do regime", comenta ao P2 Purun Cheong, investigador do Comité dos Direitos Humanos para a Coreia do Norte (HRNK, nos Estados Unidos). "Mas tendo em conta que em 1966 houve rumores de que alguns jogadores envolvidos na derrota de 5-3 frente a Portugal foram enviados para um campo de trabalho (...) e que o regime da Coreia do Norte embaraçosamente transmitiu em directo a recente derrota de 7-0 para o seu próprio povo, é altamente improvável que todos os jogadores e mesmo o treinador saiam sem um arranhão."

O antigo treinador Moon Ki-nam, que desertou em 2004, afirmou à agência Associated Press que as más exibições no estrangeiro significam castigos em casa, incluindo a purga e o envio para trabalhos forçados. "Os jogadores e o treinador são presenteados com enormes casas quando vencem. Mas quando perdem vão trabalhar para minas de carvão."

O valor da autocrítica

Em 2003, o HRNK publicou um relatório elaborado com o auxílio de testemunhos de antigos presos e de imagens de satélite intitulado Os gulags escondidos, em que expunha a vida desumana nos campos de trabalho norte-coreanos. Estima-se em 200 mil o número de presos políticos e dissidentes que estarão nesses campos, mas ninguém sabe ao certo quantos são. "São apenas estimativas. Pode ser um número excessivo, ou pode ser um número insuficiente", diz ao P2 por telefone Norma Kang Muico, investigadora da Amnistia Internacional.

Kan Chol-hwan esteve dez anos num desses campos, o Yodok, e conta no seu livro Os Aquários de Pyongyang que encontrou lá "um prisioneiro célebre na Coreia". Tratava-se de Park Seung-jin, jogador da selecção de 1966. Para festejar a vitória face à Itália, "os jogadores fizeram uma festa algo descontrolada num bar, onde beberam muito e se envolveram com raparigas... Em Pyongyang, a prestação da equipa nacional no estádio [derrota face a Portugal] e no bar foi muito pouco apreciada, e o comportamento dos jogadores considerado burguês, reaccionário, corrompido pelo imperialismo e pelas suas ideias perversas".

Park terá passado uma longuíssima estadia em Yodok, onde ganhou a alcunha de "Barata". "Alimentou-se sistematicamente de todos os insectos que conseguia encontrar, o que lhe permitiu aguentar-se."

Purun Cheong não exclui o mesmo destino para os futebolistas. "É difícil prever com confiança o que acontecerá", diz. "Mesmo os cidadãos norte-coreanos vulgares nunca sabem o que lhes pode acontecer a dado momento, devido à falta de um sistema judicial transparente, e pela muito real possibilidade de alguém de um nível mais elevado os mandar para um gulag em qualquer altura."

Já Norma Kang Muico não espera este desfecho. "Não acho mesmo que eles vão ser enviados para os campos", afirma. Tal não significa que fiquem incólumes. "Estou a vê-los a ter de passar por uma autocrítica. Numa fábrica isso faz-se com muita frequência. Põem todos os trabalhadores em fila e são obrigados a dizer coisas do tipo "Não estou a trabalhar o suficiente" em frente aos colegas."

Muico entrevistou vários burocratas que desertaram e que passaram por campos de reeducação e "foram obrigados a fazer trabalhos forçados. Tinham também de dizer coisas como "Ainda não aprendi" perante toda a gente da aldeia".

Para a investigadora "a prisão não parece provável", mas terá de haver algum gesto "para salvar a face", talvez um pedido de desculpas público. "Foi transmitido em directo e foi um grande embaraço. Os norte-coreanos tiveram acesso a um jogo muito catastrófico e isso terá consequências." Sobretudo quando a televisão estatal (só há um canal) apenas transmite o que pode glorificar o regime.

Tal como ninguém sabe quantos presos existem, também ninguém sabe quantos campos estão espalhados pelo país. "Toda a gente tenta adivinhar", afirma a investigadora. "As informações são muito antigas e mesmo os presos que desertaram da Coreia do Norte muitas vezes saíram de lá há tanto tempo, dez, 20 anos, que a situação pode já ter mudado. Não há muitas informações novas."

De qualquer forma, sabe-se o suficiente para dizer que há vários tipos de campos de trabalho. "Há campos para os dissidentes, e outros para os que tentam passar a fronteira [para a China]." Nos primeiros, os presos são praticamente vitalícios, ou pelo menos de muito longa duração e por isso "há um espírito de comunidade. Tendem a ter um sistema regimentado de trabalho. Fazem todo o tipo de coisas: trabalhos agrícolas, reparam canalizações, constroem estradas". Já os chamados border crossers, os que tentam fugir à fome saltando a fronteira com a China, fazem "serviços mais improvisados, o que for necessário no momento".

Casos exemplares

O analista do HRNK relata ao P2 exemplos passados que o levam a duvidar de que não haja consequências. "De acordo com testemunhos de desertores, depois da derrota da Coreia do Norte no [apuramento para o] Mundial de 1994, Kim Jong-il ordenou: "Não os deixem sair para o estrangeiro nos próximos anos." Isto poderá ajudar a explicar por que a Coreia do Norte não participou nas qualificações em 1998 e 2002. Como se pode ver através deste exemplo, os jogadores poderão ficar impedidos de deixar o país e perder muitos outros privilégios que lhes são concedidos."

Há mais casos, como o do atleta norte-coreano Kim Jong-su. "O atirador conquistou o bronze e a prata nos Olímpicos de Pequim, em 2008, mas ficou sem as medalhas depois de os testes de doping terem dado positivo. Fontes referem que é muito provável que, se humilhamos o país como fez Kim Jong-su, sejamos secretamente arrastados para algum lugar e que iremos sofrer." Ou seja, destino directo para o "treino laboral", "um eufemismo para quando se é enviado para um gulag e não para uma prisão normal".

Jae Ku, director do Instituto EUA-Coreia da Johns Hopkins University, contou recentemente à National Review que 100 membros de uma claque norte-coreana que foram à Coreia do Sul para um acontecimento desportivo, em 2003, foram obrigados a assinar um contrato e a comprometerem-se a nunca falar sobre qualquer coisa que tenham visto ou ouvido durante a sua estadia no Sul. Quando regressaram, foram enviados para um campo de reeducação, e 20 deles para um gulag.

Kim Jong-hun, o actual seleccionador da Coreia do Norte, já garantiu por mais de uma vez que não haverá qualquer punição, para além do desalento da derrota. "Falhámos o nosso objectivo. Quero desculpar-me perante o nosso povo. Acho que não haverá castigos", declarou numa conferência de imprensa.

E pode ser que seja exactamente como diz o agente suíço Karl Messerli, o elo europeu da equipa norte-coreana: "Isto são tudo histórias."

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