Os livreiros no seu labirinto

Retrato de um mundo em mudança, no dia que se segue à abertura de mais uma Feira do Livro de Lisboa.

As livrarias independentes em Portugal parecem estar perante uma morte anunciada: em 2011, cada agregado familiar gastou em média 75 euros em livros, montante que terá sofrido uma quebra de 10% no ano passado José Sarmento Matos

Retrato de um mundo em mudança, no dia que se segue à abertura de mais uma Feira do Livro de Lisboa.

O mapa do império romano em 251 na parede do lado direito de quem entra na Livraria Sá da Costa, no Chiado, em Lisboa, lembra as palavras de Vítor Silva Tavares, o editor da & Etc, momentos antes, ao falar sobre o estado actual do mercado livreiro em Portugal: "Decadência da ordem mental, espiritual; e não é só Portugal, todo o Ocidente está arrastado na mesma ordem de barbárie." Para Vítor Silva Tavares, estamos perante uma "questão civilizacional", a "decadência tout court". Em meados do século III, o império romano do Ocidente enfrentava o princípio da anarquia e a decadência que acabaria por levar ao seu fim.

A Sá da Costa arrasta-se pelos tribunais há dois anos, estando a ser administrada judicialmente e gerida pelos cinco funcionários. Foram eles que travaram a segunda hasta pública e assumiram o controlo da livraria depois da saída da anterior gestão. O futuro é negro para uma das referências livreiras do Chiado, mas a livraria parece mais viva do que nunca.

Ao fundo, soam tiros. Não há crime, apenas o vídeo Karuna, de Joana Linda, tentando "lembrar todas as vítimas anónimas e atrocidades cometidas em nome do progresso, religião, civilização" na exposição colectiva inspirada em A Ilha, de Aldous Huxley. Uma das múltiplas actividades dos "amigos" (palavra que Pedro Oliveira, um dos cinco empregados tornados gestores, repete amiúde) da Sá da Costa, que se têm multiplicado na ajuda para manter a livraria aberta e que estarão na primeira fila dia 10 de Junho, quando esta cumprir 100 anos.

Quem também lá estará seguramente é Vítor Silva Tavares, autor do manifesto que os funcionários da Sá da Costa irão ler nesse dia. O editor da &Etc pediu para omitirmos o seu nome, porque apenas colocou no papel as palavras dos empregados por dever de "solidariedade" ("Neste tempo de indiferentismo, de apatia, do espectáculo, cinco pessoas mantêm aquilo aberto. Então isto não é bonito?"), mas na Sá da Costa fazem questão de sublinhar o seu papel na chegada da livraria ao centenário.

"Estamos a trabalhar com livros que mais ninguém trabalha, muito livro de autor, muito livro de arte. A &Etc foi fundamental. O Vítor trouxe muita gente. Porque isto funciona muito a nível de amigos", diz Pedro Oliveira.

Apesar da solidariedade e da colaboração, o editor fala de uma "morte anunciada". Eduardo de Sousa, que na Letra Livre se prepara para editar uma plaqueta com o discurso de Augusto Sá da Costa aquando da inauguração da livraria em 1913, partilha do sentimento de que "não vai sobreviver". "A tendência é que venham a desaparecer as médias livrarias independentes, pois têm uma estrutura de custos substancial."

Foi o que aconteceu à Portugal, na rua do Carmo, em Lisboa, que fechou no final de Fevereiro. Devido a uma estrutura demasiado pesada, não aguentou a crise, a concorrência, a nova lei das rendas. Jorge Azevedo, gerente da Lello, que durante anos viveu paredes meias com a Portugal, diz que a sua não terá a mesma sorte: "Não podemos comparar a Lello com a Portugal, porque esta tinha uma estrutura que vinha dos anos 70 e que custava 20 ou 30 vezes mais do que a estrutura que temos aqui."

José Pinho, da Ler Devagar, que ganhou o prémio Ler/Booktailor para o melhor livreiro de 2012, enquadra: "As livrarias tentaram fazer como os hipermercados, esquecendo-se que não eram hipermercados e que, ao contrário das grandes superfícies, precisam de pessoal para atender os clientes." Com uma folha de ordenados extensa e uma quebra acentuada de vendas, a Portugal não resistiu e hoje é uma pastelaria fina.

A Ler Devagar, antes pelo contrário. Apesar do sucesso da fórmula - desde que foi inaugurada a livraria na Lx Factory, em Lisboa, as vendas aumentaram mais de 10% todos os anos, sendo que em 2012 cresceram 20% e no primeiro quadrimestre de 2013 já vão numa subida de 40% -, continua a conter-se nas despesas: "Nós não temos estrutura, serviço de compras, não temos programação cultural; somos nós que fazemos tudo e não fazemos bem. E não podemos ter uma estrutura maior, temos de mantê-la ligeira." Mesmo com cinco novas livrarias abertas agora em Óbidos e com planos de chegar às 11 até 2015, a estrutura de custos leve é filosofia a manter.

Segundo Eduardo de Sousa, "desapareceu o espaço para a livraria pequena de livro novo, porque as grandes ocuparam toda a área de mercado", e com isso todo "o esquema do livro em Portugal mudou". Hoje, além dos grandes - Leya, Bertrand-Porto Editora, FNAC, Almedina, sem contar com os hipermercados -, "só há espaço para os alfarrabistas e para as livrarias especializadas, para os livros baratos, os livros de fundos, o livro antigo e raro; para os livros que não estão na FNAC", acrescenta.

Menos 100 livrarias

Para o sociólogo José Soares das Neves, coordenador do Inquérito ao Mercado dos Livros realizado pelo Observatório das Actividades Culturais e publicado no ano passado, "a conjugação de vários factores" negativos "pode levar a uma diminuição sensível do número de livrarias" até ao final desta década, seguindo aquela que é a tendência actual.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), entre 2007 e 2011 desapareceram mais de 100 livrarias em Portugal - dos 689 estabelecimentos especializados de comércio a retalho de livros existentes em 2007 passámos para 587. No mesmo espaço de tempo, o volume de negócios decresceu cinco milhões de euros, de quase 143 milhões de euros em 2007 para 137,8 milhões de euros em 2011.

E as estatísticas oficiais ainda não reflectem o sucedido em 2012, em que à crise se juntaram as medidas de austeridade que reduziram ainda mais o espaço para os livros no orçamento familiar - que já não era muito. De acordo com o INE, em 2011 os agregados familiares gastaram em média 75 euros em livros (e isso inclui os manuais escolares). "De acordo com os dados conhecidos de 2012, a tendência negativa agravou-se, tendo o mercado registado uma quebra de 10% quando comparado com igual período de 2011", adianta José Leite, director editorial da FNAC para a área do livro.

João Alvim, presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), afirma que, "em situação macroeconómica normal, o número de livrarias teria tendência para estabilizar, havendo um equilíbrio entre os diversos canais comerciais do livro. Contudo, é difícil na actual situação fazer uma previsão, pois a evolução das vendas em 2013 mantém uma tendência negativa".

Até porque, segundo José Soares das Neves, "perante o cenário actual e as dificuldades actuais é esperável a estagnação ou mesmo diminuição dos pequenos e médios leitores, o que para Portugal é particularmente gravoso, porque os nossos níveis de leitura são muito baixos". De acordo com as Estatísticas da Cultura do INE relativas a 2011, 58,4% dos portugueses não tinha lido nenhum livro como actividade de lazer nos 12 meses anteriores e 27,3% tinha lido menos de cinco livros. Os números compõem-se um pouco se juntarmos os livros lidos por trabalho ou estudo: a taxa de não-leitores desce para 41,6%. Mesmo assim, "em França, há 80% de leitores", compara o sociólogo.

João Alvim, que "vê com grande preocupação a diminuição de actividade das livrarias, fruto das limitações económicas das famílias, que se traduz por diminuição do nível de vendas", refere a necessidade de aligeirar as estruturas: "A quebra de vendas que se verifica desde há dois anos é o principal problema e tem pressionado os livreiros que se dedicam em exclusivo ao livro. As soluções passam por tentar reduzir os custos fixos e flexibilizar a estrutura para resistir à diminuição de vendas e procurar atrair clientes às lojas."

O problema das rendas

Mas há quem tendo estruturas pequenas e de custos controlados não resista à nova lei das rendas que ameaça afastar as livrarias das zonas nobres das cidades, dada a incapacidade dos seus proprietários para pagar encargos mensais tão elevados com o arrendamento. A Lello só se mantém na rua do Carmo porque conseguiu negociar um contrato a cinco anos com o senhorio dentro de valores comportáveis. Não fosse assim e também teria "ido embora porque a renda passaria para seis vezes mais", confessa Jorge Azevedo.

"Aqui também tivemos os resultados que tivemos", explica José Pinho, "porque temos um senhorio que nos deu condições para não irmos à falência no princípio, com um contrato de arrendamento indexado aos lucros". A renda fixa é baixa, depois há uma componente variável de 25% sobre as receitas da Ler Devagar não relacionadas com os livros.

As duas sócias da Palavra de Viajante, pequena livraria de viagens que abriu em contracorrente há ano e meio ali para os lados da Assembleia da República, viram-se obrigadas a recorrer a um plano B para a localização da loja, pois na primeira zona escolhida, a da avenida de Roma, lhes pediram seis mil euros pelo arrendamento de um espaço. Um "absurdo", no dizer de Ana Coelho, a única das duas sócias que trabalha na livraria a tempo inteiro.

A Artes e Letras, conhecida livraria alfarrabista do largo Trindade Coelho (vulgo da Misericórdia ou do Cauteleiro), já está praticamente vazia. Neste caso, o senhorio aproveitou a nova lei para despejar os inquilinos (indemnizando-os com o equivalente a um ano de renda), alegando necessitar o edifício de obras de vulto. Até Julho, Luís Gomes terá de concluir o seu moroso processo de catalogação dos livros e de entregar a chave do espaço que abriu há 25 anos num sítio onde havia estado a lendária Forja e que chegou a ser uma bandeira da oposição espanhola. "Pretendo reabrir noutro sítio, num sítio mais excêntrico", afirma Luís Gomes, resignado, apesar de haver ainda uma ténue esperança de reverter o processo. "A Câmara de Lisboa resolveu investigar se as obras profundas eram mesmo precisas, fizeram uma vistoria técnica a pedido do meu vizinho para ver se se aplicava essa alínea da lei e parece que não", diz com pouco entusiasmo.

Para Vítor Silva Tavares, o caso da Artes e Letras é mais um no processo rápido de extinção da memória livreira do Chiado, depois do encerramento da Barateira, da livraria Camões da rua da Misericórdia, da Portugal, da Olisipo e da fragilização da Sá da Costa. "É a destruição da ideia de cidade. O espírito de civilização, como civitas, está a ser paulatinamente destruído e a ser substituído por pão e circo, sem circo. Inexoravelmente condenado", sintetiza.

"Isto vai transformar-se tudo em lojas de roupas e sapatos, vai tornar-se uma passadeira", diz Pedro Oliveira. Talvez, porque, como afirma Jorge Azevedo, "a lógica da roupa já entrou nos livros" e a Baixa se esteja "a transformar em 50% roupas, 40% cafés e restaurantes - o resto são lojistas que sobrevivem como ex-libris". "O livro", argumenta, "massificou-se e deixou de ser um produto cultural para se tornar num produto industrial, tratado da mesma forma que os iogurtes e as batatas. Não vale a pena bramir contra esta evidência".

Preço fixo variável

Não ajuda que os grandes do mercado livreiro pareçam pouco dispostos a cumprir a lei do preço fixo, aprovada em 2000. As grandes cadeias de lojas "esqueceram que havia um preço fixo do livro", que parece servir apenas de "orientação para transgredir", acusa José Pinho. Eduardo de Sousa refere que os grandes grupos "cativam os clientes com descontos de 20% ou mais em livros que mal acabam de sair e isso é ilegal".

"Até ao presente, creio que não se pode concluir que a lei tenha sido desrespeitada de uma forma generalizada", contesta, por seu lado, o presidente da APEL. João Alvim, que é presidente da Bertrand e administrador do Círculo de Leitores, refere ter a associação verificado "a existência de algumas situações que poderão dar a azo a dúvidas", situações essas "que já foram por diversas vezes apreciadas pelas entidades competentes, não se tendo concluído pela evidência de desrespeito pela lei". E, acrescenta, se a lei não existisse "teria sido caótico para toda a indústria, certamente com o encerramento há anos de muitas livrarias ou cadeias livreiras". Leia-se: mais ainda do que as que fecharam nos últimos anos.

Tal como vão as coisas, poderão ficar no Chiado a FNAC, a Bertrand e alguns alfarrabistas. A primeira cada vez mais virada para as novas tecnologias (os livros são apenas 36% da facturação), a mais antiga livraria do mundo em actividade porque faz parte do grupo Porto Editora, os alfarrabistas porque funcionam com livros que não entram em concorrência com as grandes cadeias.

"Com rendas incomportáveis para um pequeno livreiro, a publicidade agressiva das grandes cadeias", padrões de consumo que se afinam "pela lógica de custos comerciais", temos uma receita para a redução do número de livrarias, "a asfixia das pequenas editoras e o desaparecimento de certo tipo de editores", adianta Eduardo de Sousa. Aquilo que fazem as grandes cadeias é suprimir o espaço para outras livrarias: "Nas capitais de distrito instalam-se ao pé das livrarias existentes", levando a que "fechem ou passem para a mão dos grupos".

A Bertrand, explica Margarida Ferra, tem hoje 56 estabelecimentos físicos em 15 capitais de distrito. "Esta rede tem de ser permanentemente ajustada à realidade, nomeadamente à oferta de espaços comerciais disponíveis - sendo cada vez menos os projectos comerciais novos de grande envergadura e aqueles que existem competindo cada vez mais entre si para atrair marcas fortes e credíveis -, o que pode passar por novos investimentos, mudanças de localização ou mesmo encerramento de algumas unidades."

De acordo com um dos entrevistados citados no Inquérito ao Mercado dos Livros, a esta altura, "a concentração está feita" e, agora, "as pequenas livrarias terão de se especializar, escolher um nicho de mercado ou estabelecer uma relação com os clientes". A Palavra de Viajante é o caso típico da pequena livraria especializada. Ana Coelho fala de vínculos a longo prazo, de "estabelecer relações com os clientes para que se tornem amigos da casa, de ter tempo para perder com a pessoa e o prazer de ouvir esses amigos falarem de viagens".

O negócio

"Hoje acredita-se que as reformas introduzidas lucrativamente na indústria de entretenimento irão produzir resultados semelhantes se forem aplicados à edição. Os padrões da indústria de entretenimento também são patentes nos conteúdos das listas dos livros mais vendidos, um leque cada vez mais estreito de obras dedicadas à descrição de estilos de vida ou às celebridades, com pouco mérito artístico ou intelectual." A citação é do livro que a Letra Livre vai publicar brevemente, O Negócio dos Livros, de André Schiffrin, editor norte-americano, filho de Jacques Schiffrin, o fundador da Pléiade em França e da Pantheon nos EUA.

O fenómeno de que fala Schiffrin também se passa em Portugal. "As livrarias de rua, os correios e os hipermercados, tudo vende a mesma coisa, protege os mesmos autores. Eu até já tenho dificuldade em distinguir as editoras pelas capas, são todas iguais, parece um concurso de fotocópias", diz Jorge Azevedo. Luís Gomes fala da "riqueza e da diversidade" que se estão "a perder por causa dessa concentração", porque "a tendência é minimizar o custo, minimizar a arte, minimizar a escrita e, às tantas, é tão mínima que não há diversidade". Os valores que José Leite nos avança ajudam a confirmar esse retrato: "O número de novos títulos editados em 2012 em Portugal foi na ordem dos 12.600, o que representa uma redução de 21% quando comparado com 2011."

Além de que, nos próximos anos, a venda pela Internet, que está em processo de grande crescimento, virá alterar ainda mais a situação. De acordo com José Leite, o site da FNAC regista um crescimento médio anual na ordem dos 50%. O site Wook.pt, a livraria virtual do grupo Porto Editora, tem, segundo o seu director, Rui Aragão, mais de 600 mil clientes registados e vende mais de "oito milhões de produtos". A livraria da Bertrand na Internet, garante Margarida Ferra, disponibiliza quatro milhões de títulos aos seus clientes.

A verdade é que, tal como diz Eduardo de Sousa, "estamos numa fase de transição" em que se discute muito o fim do livro impresso. "Os factores de pressão vão no sentido de mudanças profundas" que podem fazer desaparecer uma parte dos livros impressos, como as grandes enciclopédias, as grandes obras de referência, as grandes compilações de conhecimento, explica. No entanto, em outras áreas, "os livros manter-se-ão como objecto, permanecerão no papel". Se a tendência é para que haja uma "diminuição da diversidade da oferta", as mudanças tecnológicas permitirão, igualmente, o surgimento de pequenas editoras a fazer livros em pequenas tiragens que vendem por venda directa ou pela Internet.

"Pode dizer-se que o mundo editorial mudou mais nos últimos dez anos do que no século inteiro que lhe antecedeu", escreve Schiffrin em O Negócio dos Livros. E não parece que nos próximos dez esteja a preparar-se para travar a mudança. Continuará a haver transformações, embora, na opinião de José Soares das Neves, o livro "não esteja em causa na próxima década". Mas lá que soa a fim de uma era, soa.

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