Neste país não temos livro de elogios

A dois dias de o PÚBLICO fazer 23 anos, 23 portugueses dos 18 distritos de Portugal continental respondem à pergunta: que ideia tem para o país?

Um apicultor do Mogadouro. Uma médica de Lisboa. Uma família numerosa numa aldeia de Carregal do Sal. Um bombeiro de Melgaço. Um músico de Braga. Um juiz de Mértola. Um pescador de Setúbal. A poucos dias do 23.º aniversário do PÚBLICO, falámos com 23 pessoas de contextos sociais, económicos e profissionais distintos. Como é que a crise afecta as suas vidas? E que ideias têm para o país?

A frase "se eu pudesse, baixava os impostos" foi a mais repetida. E há quem não consiga conter uma certa revolta - "Também fazia falta uma guerra civil, mas isso não pode escrever." Há, contudo, um discurso que parece ter encontrado eco em diferentes classes e geografias e que se mostrou bem mais predominante nesta "volta a Portugal" feita em dez dias, pelos 18 distritos do país, cerca de 5000 km percorridos: "Não nos podemos queixar tanto"; "temos de ser empreendedores"; há que "espalhar o optimismo". É repetido na aldeia mais isolada, no gabinete de um juiz no tribunal ou na fila para o banco alimentar.

Hugo Viegas, 39 anos, é um desempregado de Faro que soma cursos do Centro de Emprego enquanto vê o prazo do subsídio de 400€ esgotar-se com o passar dos dias. Conta que tem pensado muito - na sua vida, nos trabalhos que teve, no que gostava de fazer (é numa aula de um curso de empreendedorismo que o encontramos) e no que faz falta a Portugal. E o que faz falta, diz, é "um livro de elogios". Um livro em cada loja, em cada empresa, porque nada motiva tanto uma pessoa, trabalhador ou patrão, como tornar público e notório o que faz bem: "É uma ideia simples e não é cara: ao lado daquele cartaz que diz "temos livro de reclamações", púnhamos um a dizer "temos livro de elogios". Acho que este se ia gastar mais depressa. É a minha ideia."

"Vamos ao trabalho e deixemo-nos de nos queixar", diz Carlos Rocha, 35 anos, apicultor em Estevais, concelho de Mogadouro, distrito de Bragança. Mesmo se a receita que está a ser posta em prática para "curar" o país não é totalmente convincente. Palavras de Fernando Santos, 47 anos, dono da mercearia Cividade, no coração de Braga: "Às vezes chega aqui um cliente e pede ajuda, para levar fiado. Eu podia dizer: "Levas fiado, cobro-te mais caro." Mas não era justo. Então se ele está a pedir ajuda, eu, em vez de o ajudar numa situação difícil, ainda vou piorar a situação pedindo-lhe mais? Mas é isso que está a acontecer: Portugal e a Grécia a precisarem da ajuda e, em vez de colocarem juros baixinhos para a gente se poder levantar, não! Pedimos 70 e tal mil milhões, não foi? E só em juros vamos pagar 30 mil milhões, não é? Isto tem algum jeito?"

Também há quem ache que o que falta são bons líderes. "Precisamos de bons líderes, sérios, competentes, transparentes", diz Marcelino Marques, padre na paróquia de São Tiago de Urra, Portalegre, onde gere uma série de instituições sociais que servem crianças, idosos e doentes e constituem o maior empregador da terra - 80 postos de trabalho. "Precisamos, ao mesmo tempo, que as pessoas se sintam envolvidas na causa pública", continua o padre, numa tarde de sol, junto à igreja recentemente restaurada, branquinha, luminosa. "Se eu passar ali e alguém estiver a estragar aquela paragem de autocarro, como aquilo não é meu, passo indiferente. Quando aquilo também é meu! Se vem um presidente da junta e eu não votei nele, vou fazer-lhe a vida negra! Não colaboramos."

É também essa a ideia do juiz do Tribunal de Mértola, Pedro Godinho. "Somos um povo extraordinário, o maior defeito que temos é dizer mal de nós próprios. E, num contexto em que cada vez dizemos mais mal, o que às vezes até pode dar jeito (é o dividir para reinar), acho que nos falta enaltecer aquilo que temos e dar valor à prata da casa. Nós, lá fora, somos reconhecidos. Aqui, em grupo, parece que não funcionamos. Temos de funcionar em conjunto em vez de nos atacarmos uns aos outros."

Não é muito diferente do que diz Alexandra Lourenço, 32 anos, "amante profissional", como gosta de ser chamada. "Eu começava por obrigar os senhores que estão no poder a trabalhar em conjunto, porque eles não sabem. Parece que falam todos línguas diferentes. E fazia com que de cada vez que os políticos criticassem uma coisa tivessem também de apresentar uma solução. Ensinava-os a respeitar-se e a respeitar as pessoas."

Alexandra, que trabalha em Matosinhos, anda a tentar constituir uma organização que lutará pela regulamentação da prostituição, algo que considera "fundamental para a dignificação dos trabalhadores do sexo, para acabar com alguma criminalidade que envolve a actividade e para melhorar as condições de trabalho". A concretizar-se, nota, "seriam também mais pessoas a pagar impostos".

"O que nos fazia falta era um Obama", acredita, por seu lado, Maria Amélia Almeirão, 65 anos, feirante de Alcanena, distrito de Santarém. "Ou um Marcelo Caetano." Maria Amélia saiu da pobreza a vender enxovais - "de qualidade, bordados à mão" - porta a porta e, mais tarde, nas feiras. Construiu uma casa com cozinha, "coisa que nunca tinha tido", investiu na educação das filhas. Agora, anda a comprimidos para lidar com perdas no negócio "na ordem dos 80%".

Como Obama vive nos Estados Unidos e Marcelo não volta, a sua ideia para o país é simples: "Deixem lá estar o Passos Coelho mais dois anos, para ver o que ele consegue fazer. Não estou a ver outros com melhores ideias."

Regresso a Braga e às contas do merceeiro Fernando Santos. O montante dos empréstimos a Portugal inicialmente acordados com a troika ronda os 78 mil milhões. O valor a pagar em juros é que será à partida inferior aos 34 mil milhões noticiados aquando do arranque do programa (e que Fernando fixou) - as taxas de juro baixaram e rondam, actualmente, os 3,3% ao ano, em média. É sob o peso destes compromissos financeiros que se têm prometido reformas, ao mesmo tempo que se aumentam impostos e o desemprego bate recordes (16,9%). Uns sentem mais, outros menos. Fernando Fonseca, 75 anos, criador de cavalos na Benedita, Alcobaça, é dos que sentem menos.

É certo que os cavalos ("cavalos de luxo, 100% lusitanos") valem metade do que já valeram - "O construtor, o industrial, o empresário de qualquer coisa comprava cavalos porque gostava, porque a vida lhe estava a correr bem e era giro o filho andar a cavalo." A muitos desses empresários, contudo, a vida deixou de correr tão bem. E hoje os clientes do criador são essencialmente estrangeiros, "uns desportistas, outros simplesmente apaixonados" pela beleza dos animais.

Para Fernando Santos, os lusitanos são precisamente uma paixão, mais do que uma actividade económica. É a fábrica de rações, que construiu no final dos anos 60, a poucos metros da coudelaria, que lhe permite viver confortavelmente e essa não se tem ressentido com a crise. "A minha ideia para o país é esta: as pessoas devem começar a pensar que não podem viver à espera de subsídios. Viver à espera de esmolas é uma vida muito triste. Não tem nada de mal ter uma boa casa, um bom carro, uma vida muito boa. Mas devemos produzir, quanto mais melhor, e ganhar para isso. Continua a haver por aí terras e mais terras por cultivar. E, ao mesmo tempo, os estrangeiros preferem os nossos produtos aos outros, as frutas, o azeite, a pecuária. É evidente que não é para nos pormos agora a explorar a terra como antigamente, sabemos que antigamente se vivia mal. As pessoas devem procurar métodos modernos. Para produzir muito e ter uma vida boa."

Inovar e experimentar são as obsessões de António Lima, 37 anos, um agricultor de Cuba (Beja) que começa por receber a revista 2 junto a um "tractor com GPS" - "Serve para pilotar as máquinas de forma a não haver sobreposições no terreno. Evitar sobreposições, mesmo de 10, 20 cm, num terreno grande, permite poupar uma fortuna em gasóleo, adubos e pesticidas."

António gosta mesmo disto. Vê-se. Todos os anos investe, experimenta e "mete a cabeça no cepo". E todos os anos sente a adrenalina: vai resultar, ou não? A água do Alqueva permitiu que a produção disparasse. E, não fosse o aumento dos impostos, a crise não o importunava por aí além. "Normalmente, a agricultura anda em contraciclo com a crise. As empresas têm menos capacidade para mandar vir um barco inteiro de cereais, do estrangeiro, que tem de ser pago à cabeça, acabam por governar-se com a produção nacional, compram mais aos bocadinhos." Resultado: o preço de venda do cereal no mercado interno subiu.

Está na moda falar no regresso aos campos, mas este agricultor não vê muita gente nova a chegar ao Alentejo. Espaço não falta. O que falta são mudanças. "Precisamos de uma política fiscal que incentive o investimento na agricultura." O que é que isto significa? "Pessoas que investissem e usassem produtos nacionais - por exemplo, é para instalar um sistema de rega? Vamos usar apenas pivôs portugueses - pagariam zero impostos durante o período de investimento."

Outra ideia? A mesma que Carlos Rocha, o apicultor do Mogadouro, repete várias vezes: des-bu-ro-cra-ti-zar. "As pessoas não fazem ideia da papelada que é preciso para chegar a isto, um simples frasco de mel, e para o pôr à venda", diz com um frasco na mão. "Em 2009, decidi construir uma melaria, em 2010 meti os papéis, em Agosto de 2012 tive a licença para construir. Alguns fundos que poderia ter ido buscar estão cancelados."

Sara Horta, 30 anos, três filhos, propõe também "um regresso às origens". Não só ao campo, mas sobretudo ao mar. Marca o encontro com a revista 2 junto à porta da junta de freguesia da Conceição, Faro, onde dezenas de pessoas fazem fila no passeio, apesar do frio. Sara, com o seu sorriso rasgado, é uma dessas pessoas. Tem uma doença crónica que a obriga a passar algumas temporadas no hospital. E uma lista de trabalhos que não duraram muito. "Cresci no Arraial Ferreira Neto [uma estrutura de apoio às armações de pesca, em Tavira], com cinco irmãos. Os homens todos levantavam-se de madrugada e iam para o mar. As pessoas eram muito unidas. Tínhamos o mar a perder de vista."

O arraial é hoje um hotel.

Sara interrompe a história e entra no edifício da junta mal a porta se abre e a fila se desfaz. Cada pessoa recebe uma senha, com um número. É aqui que a Plataforma de Apoio Alimentar a Carenciados presta apoio semanal a 141 famílias (mais 30% do que em 2011). Sara espera pelo seu caixote com alimentos. "Porque não abrir as escolas de pesca que existiam antigamente e voltarmos a pescar?", vai dizendo. "As pessoas trabalhavam e, no final do dia, recebiam o seu dinheiro ou um cabaz como este."

Quem continua a fazer vida do mar garante que não é fácil. Mário Cruz, 34 anos, mestre da traineira Jonas David, em Setúbal, adora o que faz. Foi a vida do mar que escolheu - e tentou outras, mas não gostava de estar rodeado de telefones. Só que anda a vender cavala, para alimentar os viveiros de atum em Espanha, a 21 cêntimos o quilo, e "joaquizinhos" (carapau pequeno), a 17 cêntimos. "Os meus homens têm meses em que levam 300 euros para casa."

A sua ideia para o país? "Baixar os ordenados dos políticos e acabar com as reformas milionárias." Era mais justo, diz. E não é o único. A 500 km de distância, Pedro Pereira, 43 anos, comandante dos bombeiros de Melgaço, distrito de Viana do Castelo, apresenta a mesma proposta que o mestre. Devia haver um limite para os salários, no sector público e privado: "Somos todos Portugal. É como nos bombeiros, somos bombeiros para tudo, para o bom e para o ruim."

Manteigas, domingo, 10 de Fevereiro. João Clara, 57 anos, é, na linguagem em voga, um empreendedor. Pegou num negócio da família que vinha do início do século passado, acrescentou-lhe "um traço de modernidade", e em 1995 criou a marca Ecolã. Na sua fábrica com seis teares e 12 funcionários fabrica-se burel - um tecido de lã de ovelha usado pelos pastores e pelas ordens religiosas e que agora se transforma também em peças de moda exportadas para Itália e Japão. Há pouco tempo decidiu "dar o salto". Está a investir mais de meio milhão de euros numa nova fábrica no concelho. A crise não passou por aqui.

"É preciso transmitir optimismo", é esta a sua ideia. Como é que se faz isso? "Os responsáveis, sejam eles Governo ou autarquias, deviam distinguir o perfil e o percurso de determinados empresários. Os empreendedores, que não andam permanentemente à procura de subsídios, deviam ter uma distinção de trato, seja ao nível de impostos seja ao nível de intervenções em determinados eventos. Podiam chamá-los para transmitir ideias a outros empresários. Nós acreditamos que as coisas não têm necessariamente de estar mal e se as pessoas conhecerem casos concretos podem questionar-se: "Por que é que aquele singra?""

Em Serzedo, Vila Nova de Gaia, Isabel Pereira, 30 anos, mãe solteira de quatro filhas pequenas, beneficiária do Rendimento Social de Inserção (RSI) - "era 280€ euros por mês, agora, com os cortes, passou para 200" -, não sabe nada de subsídios para empresas. São outros os subsídios que conhece e, sobre esses, tem opinião clara. A beneficiária do RSI acabava com o RSI para quem, como ela, pudesse trabalhar. Na sua casa minúscula - quatro crianças dormem numa divisão onde cabem dois berços, uma cama, dois beliches e nada mais -, diz que, em vez do subsídio, o que queria que arranjassem emprego a toda a gente.

Não fica por aqui: proibia os patrões de despedir as mulheres quando engravidam - aconteceu-lhe por duas vezes e Inês Caeiro, da associação Vida Norte, que presta apoio a esta e outras mães solteiras, diz que é frequente. E mais: inventava uma nova prestação, "600 euros era suficiente", para mães com muitos filhos sem possibilidade de se empregar e "velhinhos" - um montante que lhes permitiria "pagar a renda, ir ao talho, ter uma vida digna".

No mesmo dia em que falamos com Isabel, seguimos para Fiais da Telha, concelho de Carregal do Sal, distrito de Viseu. Na sala de estar de Ana e José Batista, ela professora, ele bancário na Caixa Geral de Depósitos, ambos com 44 anos, o impacto das medidas de contenção em curso no país, entre aumento de impostos, corte de subsídios e de prémios, expressa-se num número: "A minha família ficou sem um quarto do rendimento mensal."

A família Batista é sócia da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas - o casal tem quatro filhos, como Isabel. Vivem todos numa casa grande e confortável, que estão a pagar ao banco, na qual se consomem 55 litros de leite por mês e não passa um dia em que não seja preciso encher de roupa a máquina de lavar.

Há fogo na lareira e os miúdos, entre os 4 e os 16 anos, aparecem um a um quando a mãe os chama. "Construímos a casa com base nos rendimentos que tínhamos, partindo do pressuposto de que ia ser sempre assim. Tínhamos um nível de vida médio, queríamos uma família grande... mas sim, se voltasse a fazer hoje, se calhar não punha um telhado com tantos "berbicoques"; em vez de ter umas escadas de ferro e vidro, tinha umas de cimento; em vez daquelas portas de correr mais bonitas, punha outras mais baratas", conta o pai.

Consideram-se, ainda assim, uns privilegiados - mesmo se tiveram de trocar as férias nas praias do Sul por uns dias no parque de campismo dos Salgueiros, em Gaia. "Tem tudo a ver, as águas são quentinhas como as do Algarve", diz o bancário a rir. Há um lado bom, acrescenta a mãe. "As crianças estão a crescer a saber que têm de gerir o dinheiro muito apertadinho." A dúvida é: "Será que vai piorar?"

Para não piorar, o que seria necessário? "Costumo dizer que precisamos de governantes não é para ver o dia de hoje, é que tenham capacidade para ver a dez anos. Não tivemos", diz José. "E, por isso, hoje temos professores a mais, crianças a menos, estradas a mais, cultura a menos." Desafiado a eleger uma área essencial, sobre a qual actuaria se tivesse poder para tal, escolhe o problema das "crianças a menos" - "O que sugiro são políticas que façam com que uma família de seis seja tratada como sendo de seis. Eu não tenho uma casa grande só porque quis, tenho porque somos seis e é preciso ter quatro ou cinco quartos. Por que é que eu hei-de pagar tanto de IMI como um solteiro que lhe apeteceu construir uma casa com seis quartos? Tenho seis pessoas a tomar banho, a beber água, a carregar no autoclismo. Por que é que os escalões [da água] são iguais aos de quem só tem um filho, mas tem um jardim que rega com água da companhia? Por outro lado, os escalões do IRS deviam reflectir mais o tamanho da família..."

A questão da natalidade é apontada, por vários dos entrevistados, como uma das ameaças ao futuro de longo prazo do país. Em 2011, há a registar menos de 97 mil nados-vivos, o número mais baixo da década (no ano 2000 tinham sido 120 mil). E é por isso que José não entende como é possível que as famílias numerosas sejam tão pouco acarinhadas. "Parece que nos castigam: "Ai tiveram tantos filhos? Tivessem visto mais televisão!""

No Hospital da Luz (Espírito Santo Saúde), em Lisboa, a diminuição de partos não se fez sentir, mas esta unidade de saúde privada lida, sobretudo, com uma classe média alta, menos exposta a eventuais efeitos da crise. De qualquer modo, não é neste ponto que se centrará a conversa com a coordenadora do Bloco de Partos e Obstetrícia, Paula Arteaga. A médica elege como questão essencial para o país o planeamento. "O país vai ter de aprender a planear em todas as áreas", "sem planeamento não há êxito". E continua: "Se tivéssemos planeado na Educação, por exemplo, teríamos muito menos gente no desemprego e mais pessoas vocacionadas para o que nos faz falta. Assim, temos pessoas a entrar em cursos nas faculdades que, à partida, não vão ter emprego, porque não foi planeado com as empresas quantos é que poderiam sair. E temos áreas onde há pessoas a trabalhar sem terem tido formação específica."

Os que falam na necessidade de melhorar a nossa arte de fazer planos realistas não se esgotam na médica. Numa noite gélida de Fevereiro, numa pista de atletismo da Covilhã, o medalhado Gabriel Macchi, 37 anos, atleta paralímpico com deficiência visual, toca na mesma tecla. Na sua vida, planear é essencial - para conjugar as aulas de apoio que dá em duas escolas (é professor do 1.º ciclo), a actividade de dirigente da Acapo (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal) e os treinos diários, para se manter em forma para as provas de atletismo. "A minha ideia é: devia fazer-se um grande estudo para sabermos o que é que o exterior precisa. Fazia-se esse estudo, as empresas iam produzir esses produtos, iam conseguir vender, iam criar emprego e ajudar Portugal."

É de planificação, também, que se fala em Alijó, distrito de Vila Real, na barragem de Foz-Tua, um projecto monumental da EDP que deverá estar concluído em 2016. Nuno Henriques, engenheiro da Mota-Engil, está habituado a gerir centenas de operários e vai explicando que isto não é muito diferente de uma obra. "Traça-se um plano, vão aparecendo questões técnicas que é preciso resolver, mas rapidamente se volta ao plano inicial. Há uma estratégia." É do que o país precisa: "Os nossos líderes estão lá pouco tempo, têm uma visão de curto prazo, parece que mudam políticas por mudar, não há continuidade."

Por isso, o engenheiro civil de 46 anos saca das suas notas, alinhavadas na véspera de receber a revista 2, e diz: "O país precisa de uma matriz de mudança, baseada num compromisso a longo prazo, intergeracional, que envolva todo o território nacional. É necessário aprofundar a responsabilização na governação e na cidadania. Consolidar um Estado eficaz e um Governo inteligente, com sentido de serviço público. Reforçar a iniciativa privada, coordenada, e o empreendedorismo a uma escala global. O desenvolvimento passa pelo mundo inteiro e temos de lá estar e interagir."

Mas há realidades que não se compadecem com o discurso optimista. Maria Natália Osório, 82 anos, explica qual é a sua. Passa semanas sem sair de casa, porque começou "a cair muito", e, não fossem as voluntárias do Mais Voluntariado, Menos Solidão, um programa coordenado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, estaria quase sempre sozinha.

Com uma reforma razoável e casa própria, podia ter uma velhice com conforto - mesmo que fosse mais material do que afectivo, já que a família se dispersou. Contudo, o filho, que vive fora de Lisboa, não conseguiu manter o projecto empresarial pelo qual se endividou. De nada lhe valeu "uma licenciatura a sério, de cinco anos", e "um mestrado em Finanças". Está no desemprego. E Maria Natália voltou a ter de partilhar o seu rendimento com ele.

Não é de se queixar muito. Mas vai dizendo que deixou de comprar as suas ampolas para a cabeça. "Por não as tomar, ando desmemoriada." Ninguém diria. Assiste, todos os dias, religiosamente, às notícias na televisão. Tem opinião formada sobre o BPN, a privatização da TAP e o mundo em geral. E sabe poemas inteiros de cor. O que fazia, se mandasse? "Aumentava as reformas e o salário mínimo" e inventava novos políticos. "Salazar não era perfeito. Havia sacríficios. Mas quando chegava as férias ia para a santa terrinha e os de hoje vão passear à nossa custa.??

Cristina Ferreira, 46 anos, sócia-gerente da Ecoart, em Espinho, também não se mostra particularmente confiante. Por razões distintas. Faz consultoria económica e financeira. É contactada por muitas empresas "que já cortaram em tudo o que tinham a cortar" numa tentativa de subsistir, e que procuram ajuda para pensar em novas fontes de rendimento. Mas não é fácil. "Já todos acreditamos que temos de trabalhar mais, ganhar pouco e fazer um esforço. E acreditámos que íamos ter resultados. Mas o que as pessoas estão a ver é uma economia estagnada, empresas que continuam a fechar e uma classe média, essencial em qualquer economia, em declínio. Tenho aqui microempresas que dizem mesmo assim: "Apetece-me pegar na chave do negócio, entregá-la às Finanças e dizer tome lá, fique com isso." Porque neste momento trabalham para pagar impostos. Não conseguem fazer investimento e o banco não lhes dá crédito." Por isso, a sua proposta é mesmo "que se baixem os impostos". E que o Estado "pressione a banca" a apoiar mais as empresas. "Quando a banca se vai abaixo, todos ajudamos com injecções de dinheiro. O contrário também deve ser verdade."

Na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, onde se defendem os doutoramentos e se realizam as cerimónias mais solenes, Joana Marcelino, 20 anos, estudante do 3.º ano de Gestão na Faculdade de Economia, sintetiza muito do que a revista 2 ouviu por estes dias, nos 18 distritos do país. "Três pontos essenciais para o futuro: sustentabilidade, transparência, eficiência. O que significa um sistema político menos corrupto, menos de cunhas, menos de troca de influências para criar empregos para amigos. Significa que as pessoas acreditem em quem está no poder e saibam para onde vão os seus impostos. Significa perceber quais são as áreas estratégicas em que o país deve investir e quais as que não fazem mais sentido. Significa alguma estabilidade, também, porque sem ela é difícil traçar um plano."

O país precisa, igualmente, de pensar para além dos números - da crise, do défice, do desemprego. Em Montemor-o-Novo, onde encontramos a dupla de bailarinos e coreógrafos Sofia Dias e Vítor Roriz a trabalhar no centro artístico transdisciplinar criado por Rui Horta, O Espaço do Tempo, a conversa oscila entre os crescentes cortes orçamentais impostos à Cultura (números) e o papel da arte e da filosofia na vida do cidadão comum (valores). É neste último ponto que a dupla acaba por se fixar. Sofia e Vítor temem a generalização do "discurso do "por que é que eu tenho de pagar a reforma daquele?"". No passado, dizem, "a religião era o que dava o padrão moral e moderava o comportamento perante os outros". Hoje, as pessoas são cada vez menos religiosas, e os valores - "a solidariedade, a ideia de que somos integrados num todo" - adquirem-se por outra via. "A filosofia é algo que nos ajuda a pensar tudo isto. A arte também." Uma medida para o país, então? Que se invista na Filosofia e nas Artes nas escolas. E mais: que as portas dos teatros e dos centros culturais se abram mais - "A cultura dá oxigénio às pessoas para continuarem a ser felizes." Se tivesse poder para tal, Ricardo Pereira, 24 anos, professor de Música e trompetista de Braga, baixava os preços dos espectáculos e apostava mais na divulgação da música erudita. Este país também precisa de música.

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