Miúdos de punhos erguidos e luvas calçadas

A Federação Portuguesa de Boxe diz que há dez anos era "impensável" ter crianças a praticar a modalidade. Hoje são cada vez mais os miúdos que calçam luvas e passam horas a treinar desportos de combate. Fazem bem?

Os temas do álbum Brothers in Arms, dos Dire Straits, já foram substituídos há uns bons minutos pelo som demasiado alto de batidas musicais a fazer lembrar as barracas de festas populares, quando Ricardo "Golden Boy" Rodrigues e Ricardo "Pretty Boy" Silva sobem para o ringue da Arena de Matosinhos. O primeiro, de calções negros e brancos, ocupa o canto vermelho. O segundo, com calções pretos e laranja, dirige-se para o azul. Os respectivos treinadores dão as últimas indicações e os dois preparam-se para o "combate". "Golden Boy" tem 12 anos e é a sua estreia no ringue. "Pretty Boy" dá-lhe pelo pescoço, mas já tem experiência e dá bastante trabalho ao adversário.

Há alguns anos seria "impensável" ter crianças a praticar boxe, quanto mais a participarem em combates, explica à 2 o presidente da Federação Portuguesa de Boxe (FPB), Eugénio Pinheiro. Mas hoje, em todo o país, há "entre 250 a 300" miúdos a treinar a modalidade em ginásios, aponta. Alguns, como os dois Ricardos que, há algumas semanas, se defrontaram em Matosinhos, sobem ao ringue e colhem aplausos de familiares, amigos e da audiência que está ali para assistir aos combates "a sério", ocupando grande parte dos lugares disponíveis nas duas bancadas.

Porque o bailado de toca e foge, com alguns socos à mistura, absorvidos, em grande parte, pelos capacetes de protecção, que os dois rapazes desenham ao longo de três assaltos com um minuto cada, não é um verdadeiro combate. Chamam-lhe "demonstração" ou "exibição". É uma forma de mostrarem o que aprenderam. A diferença para um combate real é que não há pontuação, vencedores nem vencidos, e não é permitida qualquer acção mais violenta no ringue.

Dois dias antes da demonstração, no ginásio Água Viva, em Matosinhos, Ricardo "Golden Boy" Rodrigues pára uns minutos o treino para explicar como está a lidar com a batalha que se aproxima. "Estou nervoso. Soube no início de Março que ia combater, agora estou mais nervoso. O outro miúdo é mais rápido, mas eu tenho mais força, porque ele é mais baixo", diz. Chegou ali como muitas outras crianças chegam a outros ginásios - espicaçado por um amigo que começara a treinar boxe. O entusiasmo do amigo esmoreceu e não ficou no Água Viva mais de um mês, mas Ricardo gostou e percebeu que tinha jeito. Agora, o pai leva-o cinco dias por semana de Vila Nova de Gaia até Matosinhos, para treinar. Além do boxe, começou também a praticar kick-boxing "para fortalecer os músculos", mas continua a gostar mais da modalidade olímpica a que chamam "a nobre arte".

Em casa, Ricardo tem de lidar com o entusiasmo do pai e do irmão mais velho e com a leve oposição da mãe, Manuela. Ela não proibiu o filho de treinar boxe, mas é contra a sua participação em combates, mesmo que lhes chamem outra coisa. Dois dias antes da apresentação do rapaz, na Arena, jurava que não ia assistir ao filho a socar e ser socado por outra criança, dentro de um ringue. Mas, no próprio dia, não resistiu a ver toda a família e amigos de Ricardo precipitarem-se para Matosinhos e acabou por se sentar também nas bancadas. Ainda que sob protesto. "Sou contra isto. Acho que não tem idade. Nisto, eu e o meu marido não concordamos. Mas ele gosta de boxe e acho que temos de o apoiar. Ele gosta muito disto", diz.

Manuela não é a única a pensar assim. No Água Viva, de Matosinhos, no ginásio Lisboa Futebol Clube, junto ao antigo Casal Ventoso, ou no Health Club dos Pinhais da Foz, no Porto, onde os miúdos calçam luvas para praticar kick-boxing, ouve-se repetidamente a senha: "O meu pai apoia, a minha mãe não gosta muito, sobretudo dos combates". A violência associada a estes desportos ainda levanta muitos obstáculos à prática destas modalidades por crianças e jovens. A questão é: faz sentido?

Por cá não se tem prestado muita atenção aos riscos ou benefícios associados à prática de boxe ou kick-boxing por crianças a partir dos oito ou dez anos, mas em países como Estados Unidos, Canadá ou Inglaterra as associações médicas têm tomado posições claramente contra a prática de boxe por pessoas tão novas. A American Academy of Pediatrics e a Canadian Pediatric Society emitiram recentemente uma posição pública na qual defendem: "O boxe não é um desporto apropriado para crianças." Os especialistas defendem que a protecção de cabeça usada pelos jovens não é suficiente, mantendo-se o risco de concussões ou traumas oculares. "Recomendamos que os jovens participem em desportos em que o objectivo principal não seja golpes deliberados na cabeça", diz a informação.

Paula Fonseca, presidente da secção de Medicina do Adolescente da Sociedade Portuguesa de Pediatria, teve de pensar a sério nas consequências de prática de boxe por pessoas mais novas quando, há algum tempo, lhe apareceu uma jovem obesa de 16 anos a pedir conselho. "Ela está num programa nutricional e de actividade física e recusava qualquer outra actividade que não o boxe. Recomendei-lhe que experimentasse outra modalidade, mas ainda não sei qual será a resposta dela", explica a médica.

Como a SPP não tem qualquer directriz sobre a prática de boxe, Paula Fonseca teve de se informar e dar a sua opinião médica - que vai ao encontro da dos seus colegas norte-americanos e canadianos. "É consensual que não é recomendada a prática de boxe nestas idades, porque existem efectivamente muitos riscos: traumatismos oculares ou faciais e consequências a longo prazo que são conhecidas", defende, numa referência aos casos de problemas neurológicos que, não poucas vezes, acabam por afectar a vida de boxeurs profissionais. A especialista diz que a prática da modalidade na sua vertente exclusiva de treino, sem contacto, "não acarretaria grandes problemas", mas acredita que tal não é muito viável, porque mais tarde ou mais cedo, os miúdos vão querer usar os punhos num adversário.

No Health Club Pinhais da Foz, o treinador Nuno Terroia deparou-se com essa exigência há algum tempo, por parte dos alunos mais jovens que praticam kung-fu, kick-boxing e sanda (boxe chinês). O ginásio está situado numa zona considerada chique da cidade do Porto e alguns dos alunos de Terroia envergam os uniformes dos colégios privados que frequentam. Ali, admite o professor, os alunos são todos de famílias mais abastadas e muito longe da imagem que muitas vezes é associada à prática de modalidades como o kick-boxing. "O kick-boxing ainda tem uma imagem muito ligada a arruaceiros, mas não é verdade. As artes marciais são boas para os miúdos porque eles vão-se conhecendo, ganham força, aprendem a controlar a dor e ficam com uma noção dos limites, algo que hoje não é fácil", diz.

Quando abriu a sua aula no Health Club Pinhais da Foz, o antigo campeão nacional e mundial de sanda fez saber que estava disponível para receber miúdos de alguns bairros problemáticos próximos, como o Aleixo ou a Pasteleira, sem qualquer custo. "Ninguém apareceu", diz. A barreira invisível que separa o bairro social do ginásio "bem" falou mais forte. Nuno ficou apenas com os rapazes e raparigas que chegam ali a conselho dos pais (porque querem que eles aprendam a defender-se) ou de psicólogos, que "aconselham a prática destas modalidades para crianças com algum grau de hiperactividade, fobias ou medos", graças à elevada concentração exigida e à confiança que conseguem interiorizar com a prática da modalidade, explica.

O professor, que também leva o kung-fu e o sanda ao CLIP - Colégio Luso-Internacional do Porto (uma escola privada), diz que há diferenças entre treinar crianças mais desfavorecidas e outras mais endinheiradas. "Acima de tudo, há uma diferença na atitude. Os miúdos de estatuto social mais baixo treinam com uma vontade maior de se afirmar. Aos outros é mais difícil incutir a noção que têm de se sacrificar para obter um objectivo. No CLIP, eles pura e simplesmente não percebiam por que tinham de fazer um exercício mais rápido ou de forma mais incisiva", diz.

Na sua aula, onde há tantos rapazes como raparigas, essa falta de esforço parece não caber. De luvas nas mãos, batendo em aparelhos com os punhos ou os pés, saltitando sempre, mudando de posição constantemente com os colegas, os alunos suam e arquejam. Mariana, 15 anos, treina há seis, e apesar de ter sido a mãe a incentivá-la a experimentar a aula de Terroia, esta já não achou grande piada quando soube que a filha iria combater num torneio de kick-boxing. A rapariga de cabelos compridos e negros perdeu com a adversária espanhola e a memória desse combate não é das melhores. "Foi difícil combater e o facto de ter perdido é algo que não quero sentir outra vez. Esforço-me mais para não correr o risco de perder de novo e também para poder melhorar", diz.

A dificuldade em lidar com a derrota é um dos motivos pelos quais Eugénio Pinheiro defende que ninguém deveria participar em combates "a sério", pelo menos no boxe, antes dos 16 anos. "Nenhum jovem tem formação emocional que lhe permita suportar a tensão do combate antes dessa idade. Não é saudável. Às crianças, recomendo que treinem com cuidado, com atenção. Não se pode pôr muito espírito de competição nos mais novos, até porque, embora da mesma idade, nem todos têm o mesmo nível de desenvolvimento e perder um combate pode ser traumático", defende.

Dito isto, o presidente da FPB não concorda com o tom das recomendações médicas sobre a prática de boxe por crianças. Defende que o boxe de que falam os norte-americanos não é o mesmo que se pratica na Europa, muito mais preocupado com o bem-estar e protecção do atleta, diz, e acrescenta que, em França, o boxe já foi mesmo incluído nas modalidades do desporto escolar. "Na Europa, o boxe é mais tocar do que castigar, quase como uma esgrima. É claro que pancadas na cabeça são sempre pancadas na cabeça, mas no futebol, uma bola molhada, que vem a grande velocidade e bate mal na cabeça, é pior do que um soco", argumenta.

O neurologista pediátrico José Carlos Ferreira diz que não pode refutar este argumento. "É verdade, um traumatismo causado por uma bola com força pode ser muitíssimo mais grave que um soco, mas isso é um acidente enquanto a natureza do boxe é a de desferir golpes na cabeça", argumenta. O especialista ressalva que não tem dados que lhe permitam defender uma idade mínima para a prática de boxe ou kick-boxing e até admite que "em Portugal, estas modalidades não acarretem riscos nenhuns, pelos cuidados com que são feitas", mas ressalva: "O que sabemos é que há uma série de profissionais que têm sequelas de uma vida inteira a praticar boxe e que com o cérebro das crianças há o maior risco de um pequeno traumatismo se tornar preocupante. O factor essencial é a forma como esses treinos e demonstrações são feitos, sendo certo que uma modalidade que envolve pancadas repetidas na cabeça pode, com certeza, ser prejudicial".

Eugénio Pinheiro não quer que restem dúvidas sobre a sua opinião: "Concordo com o boxe como prática, desenvolvendo os exercícios - fazer saco, sombra, saltar à corda - em que se pode avaliar tecnicamente como os miúdos fazem estas coisas. Pôr crianças à porrada, não." E pede que não diabolizem o boxe porque, diz: "Ele também pode ter uma função social. Há muita gente que se hoje é alguma coisa na vida ao boxe o deve."

A psicóloga clínica Sofia Nunes da Silva, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, confessa que tem sobretudo dúvidas sobre os benefícios e malefícios da prática de boxe ou kick-boxing por parte de crianças e jovens. "Há poucos estudos sobre isto e, se calhar, estamos numa altura em que começa a surgir a necessidade de os fazer. Como não temos experiência nesta matéria, temos de olhar para isto quase caso a caso e não generalizar", defende. Mas não tem dúvidas em apresentar reservas à prática destas modalidades nas crianças entre os seis e os dez anos. "Sei que lhes é ensinado que o que fazem no ginásio não se pode fazer no exterior, mas não sei se todos os miúdos têm a maturidade suficiente para, em determinadas situações do seu dia-a-dia, como conflitos na escola, conseguirem ter esse autocontrolo", diz.

Já no caso dos adolescentes, a situação é diferente. A psicóloga recorda que, há pouco tempo, um rapaz de 14 anos, tímido e com muitos problemas de afirmação, manifestou a vontade de praticar kick-boxing. "Achei que, neste caso, praticar uma modalidade que lhe permitia dar uns socos poderia fazer sentido, mas o pai teve medo da modalidade, do que a sua representação de agressividade e autodefesa pudessem fazer ao filho. É óbvio que temos de analisar caso a caso, mas neste parecia-me razoável", explica.

Mas sobram muitas dúvidas à psicóloga clínica sobre a prática destes desportos pelas camadas mais jovens. Diz não entender muito bem como é que a prática de boxe pode ajudar miúdos de bairros sociais "já rodeados de tanta agressividade", por exemplo. Paulo Seco, o rosto do ginásio Lisboa Futebol Clube, poderia contar-lhe a sua história para a ajudar a entender, já que não tem dúvidas em afirmar que o boxe lhe salvou a vida. "Nascido e criado num bairro de droga, o boxe salvou-me de tudo, de todos os vícios", diz. Do prédio onde está instalado o ginásio tem vista para as colinas onde há apenas uns anos se estendia aquele que era o mais conhecido bairro de tráfico e consumo de droga da capital e também a sua casa, o Casal Ventoso. "Vi todos os meus amigos de infância irem presos, morrerem devido à droga. Tudo o que é negativo", explica.

Insiste que o que o salvou foi ter descoberto o boxe, aos 12 anos, através de um amigo. A disciplina e exigência da modalidade que praticou como atleta, arrecadando vários títulos, e a que hoje continua ligado como treinador, mantiveram-no de cabeça limpa. Quando chegou a hora de retribuir, tomou conta do Lisboa, o pequeno e velho ginásio frequentado por estrelas da música e da televisão e também pelos putos dos três bairros sociais envolventes - Cabrinha, Liberdade e Bela Flor -, onde todos têm a chave e que já esteve uma noite toda com a porta escancarada (Paulo esqueceu-se de a fechar) sem que sofresse qualquer dano.

Ao final da tarde, enquanto alguns adultos já batem nos sacos da única sala do ginásio, começam a chegar as crianças. Paulo prende um cesto de basquetebol sem rede, que alguém deitara ao lixo, no muro em frente à porta do ginásio e incentiva os primeiros a chegar a jogarem, enquanto esperam pelos colegas. Ali, muitos dos mais novos vêm e vão. Alguns experimentaram o boxe durante uns meses, desistiram e voltaram. Outros gostam verdadeiramente da modalidade. Como o João Marcelo, de 11 anos, que treina há três e a quem o treinador chama, na brincadeira, de Ricky Hatton, porque o rapaz, diz, se parece "na agressividade" com o boxeur inglês já reformado.

A maior parte dos miúdos chegam arrastados pela curiosidade de um amigo que está a experimentar usar as luvas de boxe ou encaminhados pelos pais. Para perderem peso. Para deixarem de ser "demasiado sensíveis" e ganharem alguma força. De caracóis loiros, faces rosadas e olhos azuis, Fabiana de nove anos parece ter um sorriso permanentemente colado ao rosto. Explica que está ali "há um mês, para emagrecer". Desde então, perdeu um quilo, entre saltar à corda, correr ou bater nos sacos. Sempre a rir, diz que entre as suas preferências está "pôr as ligaduras" que protegem as mãos, antes de colocar as luvas. Durante a aula, participa distraidamente, sempre a sorrir, e não está entre os miúdos que respondem à pergunta do treinador: "Quem quer fazer luvas?"

A pergunta é o mote para avançar para pequenos combates. Com os dentes e a cabeça protegidos, luvas bem apertadas, os miúdos enfrentam-se, sempre sob o olhar atento do treinador que exige "calma" ou apela "mais devagar", quando alguma sequência de socos se torna mais enérgica. O conselho é mais vezes repetido quando Bianca, 11 anos (treina quase há quatro), e Márcia, de 14 (pratica há dois), se defrontam. As duas são "bravas", descreve Paulo Seco sorridente, mas aparentemente apenas nos momentos intensos da troca de socos. Mal o "assalto" termina conversam amigavelmente num canto, enquanto o treinador pergunta, amiúde, ora a uma, ora a outra: "Estás bem, estás bem?"

Bianca diz que gosta do boxe e que todos os miúdos que gostem de o praticar devem fazê-lo. Garante que se sente protegida, com o capacete, sempre que enfrenta um colega, e que o que lhe faz mal é obrigarem-na a estar longe do ginásio de Paulo. "Há dias estive de castigo, a minha mãe tirou-me do boxe. Emagreci, andava mal e ela deixou-me voltar", explica. Diz que a modalidade lhe garantiu "mais respeito na escola", apesar de saber que não deve combater fora do ringue e sem luvas. "O Paulo [Seco] disse que era proibido andar à porrada e fazer boxe. Explicou que lá fora, como não temos protecção, era muito perigoso", diz.

Márcia é uma fã de desporto. Além do boxe, já experimentou kick-boxing (mas não gostou tanto) e pratica futebol. Diz que o acompanhamento que tem no ginásio Lisboa a ajudou a lidar com o divórcio dos pais e encontra outras qualidades na prática da modalidade: "Quando estamos irritados, é bom. Descarregamos energias, aprendemos novas práticas, ficamos mais atentos, melhoramos a alimentação..." Vindo da porta ao lado, o presidente do projecto Alkantara - Associação de Luta contra a Exclusão Social, que trabalha nos três bairros sociais da zona, espreita o treino e elogia o trabalho de Paulo Seco. "A população daqui tem uma grande vantagem por ter o Paulo Seco, porque lhes oferece o desporto. É muito interessado na divulgação do boxe e do kick-boxing e está sempre a oferecer-se para fazer demonstrações nas escolas, é muito proactivo." O treinador também ajudou a identificar "uma série de casos" que depois foram acompanhados pelo projecto.

Em Matosinhos, César Moreira, que gere o Água Viva há dez anos e criou a Arena na mesma altura ("o único espaço do país legalizado pelo Instituto do Desporto Português para a promoção de eventos de desportos de combate", explica), também insiste no carácter de "acção social" que o boxe pode desempenhar.

Diz que quando aceitou o convite de Cooperativa Água Viva para dinamizar o ginásio vazio do bairro e decidiu dedicá-lo exclusivamente a desportos de combate lhe chamaram "maluco", mas não se importou e tratou de começar a trabalhar para destruir a imagem menos simpática associada ao boxe. Fez um protocolo com a Junta de Freguesia de Matosinhos, no qual se oferecia para receber 30 crianças e jovens, entre os 8 e os 16 anos, das escolas locais, durante três meses. Queria as crianças rebeldes, os que levavam o medo à escola, "que batiam na professora" e geravam sobressaltos. Garante que, antes de uma mudança política na junta ter posto fim ao protocolo, tinha "98% de taxa de sucesso". Que os miúdos que passaram pelo Água Viva se disciplinaram e "ainda hoje são uns senhores". O segredo? O esforço a que um deporto individual como o boxe obriga, mas também a atitude do treinador, diz sem falsas modéstias. "Não há bons ou maus atletas, eles apenas reflectem o treinador que têm, o que lhes é transmitido. Sou muito disciplinador, trato os meus atletas como um filho. É preciso dar e receber na mesma proporção, explicar que não vai ser fácil. Sou quase um ditador, mas amigo deles ao mesmo tempo", diz.

É deste equilíbrio frágil que os miúdos mais problemáticos podem beneficiar, defendem os treinadores. Nos desportos de combate descarregam energia, aprendem a ser mais fortes e ágeis. São obrigados a desenvolver confiança e responsabilidades porque, num frente a frente com o adversário dependem apenas de si próprios. "Se se magoarem ou caírem não vale a pena chorar pelos pais, porque eles é que têm de resolver a situação", frisa Nuno Terroia. Os seus alunos, se usarem alguma das técnicas aprendidas na aula fora da sala, sem ser em caso de emergência, são expulsos.

Tal como César, Paulo Seco diz que tem "50 filhos dentro do ginásio", tantos quantos os atletas que por lá passam. Nas paredes, há folhas A4 impressas com os "princípios" da modalidade - honestidade, orgulho, missão - e os seus "valores" - realização pessoal, felicidade. Paulo, César e Nuno dizem que não se limitam a formar atletas. "Formamos homens", dizem.

Jorge Mota, director do Centro de Investigação em Actividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto já fez vários estudos sobre as crianças e a prática desportiva, mas admite que nunca se debruçou sobre a influência que os desportos de combate, como o boxe ou o kick-boxing, pode ter nos mais novos. Defende que "a prática desportiva em geral é um elemento de socialização muito importante do ponto de vista integrador" e admite "algumas vantagens" para estes desportos quando se fala em crianças com "um certo nível de agressividade intrínseca ou hiperactividade". Mas franze o sobrolho à participação em combates. Não estudou a questão, não quer emitir opiniões sobre algo tão específico.

Eugénio Pinheiro vai no sentido oposto. Avisa mesmo que está prestes a emitir "uma posição muito pessoal", que não deve ser confundida com o cargo que desempenha. "Todo o atleta que começa muito cedo acaba muito cedo. Qualquer criança que escolhe uma modalidade antes dos 12 anos está a fazê-lo ao gosto dos pais, não ao seu. Por isso, acho que até aos 12 anos os miúdos devem experimentar tudo, para verem qual a sua vocação", diz.

A tensão notória no corpo de Manuela não desaparece totalmente quando o filho termina a sua primeira exibição. No ringue, o árbitro ergue os braços dos dois adversários, indicando que ambos são vencedores. De medalha ao peito, "Golden Boy" trepa pela bancada e vai sentar-se junto da família, para assistir aos combates que, naquela tarde de domingo, levaram ao Arena atletas da Galiza e de vários clubes de Portugal (além do Água Viva, andam por ali homens e mulheres com os casacos do Porto, do Boavista, de Braga, dos Unidos da Sé...). No dia seguinte, quando chegar ao ginásio, há-de receber uma salva de palmas de todos os colegas. É essa a tradição. "Fazemo-lo a todos os atletas, independentemente do resultado, porque representaram a equipa e transmitiram os nossos valores", diz César, no ginásio bem equipado de Matosinhos. Sorrateiramente, aponta para o pequeno ringue num dos cantos da sala onde um miúdo solitário desfere murros enluvados contra o ar. Tem 12 anos, começou a treinar há pouco. "Tem potencial", sorri o treinador.

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