Kurt Wagner já escreveu uma mão cheia de grandes discos. Mr. M é o primeiro que é clássico logo à primeira nota

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Há um par de anos Kurt Wagner, o eterno líder dos Lambchop, deu por si num daqueles momentos em que se repensa tudo. Este tudo inclui a vida em todas as suas dimensões - mas esse é assunto que deixaremos para mais tarde. Por enquanto fiquemos pelo lado prático, quando, dando por si numa encruzilhada, acabou por ter uma visão:

"Estava em frente à minha prateleira de discos e pus-me a pensar "Mas o que é que eu quero ouvir?", porque nada parecia deixar-me satisfeito. E foi aí que percebi: o que eu queria ouvir era a Ella [Fitzgerald], aqueles discos de 78 rotações antigos, com canções muito orquestradas e um sentimento arrebatador".

Durante algum tempo Wagner deu-se ao simples deleite de ouvir aquelas canções. Mas a dada altura apercebeu-se de que "todo o caminho traçado pelos Lambchop" tinha-o levado ao ponto em que "era capaz de compor assim". De compor canções que "impõem um ambiente", obrigam a parar o mundo e perceber que "umas coisas são maiores que outras". Canções que "se põem a tocar antes de puxares a cadeira à tua senhora para jantares com ela", canções "para quando estás a beber um copo sozinho ou com aquelas poucas pessoas que são verdadeiramente íntimas".

Foi desse pequeno momento de iluminação, que chegou na sequência de alguma dor, que surgiu Mr. M, o mais recente álbum da banda de Nashville - e que os torna de novo válidos e preciosos, como já não eram há algum tempo. É um disco de crooner, de canções clássicas, com princípio, meio e fim, escritas a régua e esquadro, um daqueles discos que não se faz desde os anos 1950 e que pedem vozes impositivas e imaculadas. Só há uma ligeira diferença entre Mr. M e esses discos: em vez da voz imaculada está a voz de cana rachada de Kurt Wagner.

Diz-se isto a Wagner - titubeando aquando da menção à sua slightly crappy voice, claro - e o homem desata a rir ao telefone. Embora aquela definição não fosse um insulto podia muito bem tê-la tomado como tal. Mas não: o riso dele é imediato, espontâneo e ainda dura uns segundos - o que não é a reacção mais esperada num tipo que fez carreira graças à sua capacidade de tornar a tristeza bela. "Essa é das melhores teorias que ouvi sobre o disco, meu", diz, quando pára de rir. O man com que finaliza a frase, com a típica entoação sulista, fá-lo soar acessível e terra-a-terra. "E é verdade: eu não sei cantar. Quer dizer, sei. Mas não sei cantar à crooner, como um disco destes exige".

Punk, country, pop

Valha a verdade, nunca se comportou como uma diva e sempre teve qualquer coisa de desconcertante. Quando os Lambchop apareceram ele ia a mais de meio dos trintas e o seu currículo laboral, até então, incluía assentar tijoleira e trabalhar com madeiras. Mas logo ao primeiro disco, o mini-álbum Jack"s Tulips, de 1994, a imprensa europeia elegeu-o como reinventor da country, espécie de exemplo da "verdadeira" música americana. O extraordinário trio de discos subsequentes - How I Quit Smoking, Thriller, What Another Man Spills - promoveu-o a figura cimeira do revivalismo da música tradicional que varreu o final da década de 1990.

"Sabes, nós nunca fomos verdadeiramente country", diz ele a dada altura. Não é exactamente o tipo de afirmações que um tipo está à espera de ouvir, mas a confissão estava a dar-lhe prazer, pelo que prosseguiu: "Nas entrevistas perguntavam-me como é que eu caracterizava a nossa música e eu dizia que era country porque me parecia o disparate mais engraçado que podia dizer".

Faz uma pausa e pergunta:

"Sabes porque é que as pessoas acreditaram que aquilo era mesmo country???

(Não.)

"Porque às vezes usávamos slide-guitar. Pões uma slide-guitar numa canção e as pessoas dizem que é country. E toda a gente começou a repetir que era country e de repente o country era fixe, era fixe gostar da música que antes era dos broncos. Por mim tudo bem".

E dito isto, riu-se de novo. Estava embalado e empenhado em esclarecer duas ou três coisas sobre a música que vem fazendo há mais 15 anos - e sobre si mesmo e a imagem que foram criando dele na imprensa. Ou que deixou que criassem.

"O que nós sempre fizemos, se quiseres saber a minha opinião, foi misturar o folclore americano com a pop. Nunca fomos a "verdadeira" música americana ["the real americana", no original]. Nunca fomos o verdadeiro nada. Quer dizer, eu sou real, mas não sou o melhor exemplar da América profunda que anda por aí. Eu não fazia aguardente ilegal. Não caçava. Não vivia num monte, isolado do mundo".

Deve haver um certo prazer nisto: saber que o mundo tem uma imagem errada de nós e deixar seguir o jogo, rindo de fininho, E depois um dia, chegada a uma certa idade, conta-se a verdade. "Eu não sou um redneck. Nashville não é uma aldeia", continua, revelando ainda mais, e deixando claro que o seu estatuto de trabalhador manual poderá ter sido mal interpretado: "O meu pai era um professor universitário e eu tenho um mestrado. Simplesmente tinha jeito com madeira e na América ganhas mais a trabalhar na construção que a dar aulas numa universidade. E não tinha de aturar as politiquices da academia. Trabalhava sossegado".

Surpresa final: em miúdo Wagner não andava a cantar Hank Williams pelos cantos. Nada disso, do que ele gostava era de guitarras eléctricas. "Eu cresci com o punk. E sempre conheci muita pop e sempre estive a par de tudo o que se fez".

É só nesta altura que ele volta a Mr. M, para dizer que tudo o que fez foi um caminho até chegar ao conhecimento composicional necessário para escrever um disco assim. "Ao início pegámos na folk de uma forma punk: não sabíamos tocar e reproduziamos a folk como sabíamos. E também só era folk porque comecei a preferir usar a guitarra acústica e cantar devagar. Acabámos por tornar a nossa folk em algo mais pop. Agora já podemos fazer um disco pop - mas é um disco pop dos anos 1950".

Há um fundo nisto tudo, um par de razões para isto tudo - sendo que por "isto tudo" deve entender-se todo o lado confessional presente de Wagner, o negrume que faz de Mr. M o disco mais triste da carreira dos Lambchop, e a necessidade de criar um disco clássico: Wagner esteve doente (um cancro), o que "ajudou a adiar o disco", e entretanto um dos seus melhores amigos, o extraordinário músico Vic Chesnutt, morreu. O disco, aliás, é-lhe dedicado.

"Não queria usar o nome dele de modo a aproveitar-me. Mas quero que ele continue a ser lembrado. Porque era um gigante, talvez o melhor de nós. Gostava que a sua dor não tivesse sido em vão", diz, agora sem risos e com mais cuidado nas palavras. Chesnutt matou-se após anos de vida numa carreira de rodas devido a um acidente que o paralizou das pernas para baixo e é nítido que Wagner não gosta de falar de doenças e suicídios.

"Acho que se não fosse ele eu nunca teria sido músico. Conheci-o num concerto dele, quando ele ainda estava a começar, e demo-nos bem. Eu fazia pequenas cassetes com as minhas canções e ninguém parecia achar-lhes graça. Comecei a achar que era louco, porque eu gostava do que fazia e ninguém mostrava o mínimo interesse. Quando lhas mostrei - e já o conhecia há algum tempo - ele adorou. Deu-me sempre força e foi o primeiro a falar dos Lambchop". Wagner e Chesnutt mantiveram-se amigos até ao fim.

"Sinto-lhe falta. Sinto falta das nossas conversas", diz a custo, e por esta altura achámos que era melhor desviar o tema - estar a escaranfurar nas dores de alguém que não conhecemos não é bonito.

Quando Wagner se dedicou finalmente à escrita, a forma final das canções acabou ser determinada por razões práticas. À excepção das cordas tudo o que se ouve é tocado pelo mais pequeno conjunto de músicos com que alguma vez trabalhou. Porque, simplesmente, "precisava de poupar dinheiro"."Isto pode parecer cínico, mas eu tinha de fazer um disco com os mesmos músicos que levasse para a estrada. Não podia fazer um disco que não pudesse reproduzir em palco. À excepção das cordas, podemos tocar tudo isto com cinco pessoas".

A versão poupada dos Lambchop tem a sua razão de ser - e não é cínica: Wagner gastou o seu dinheiro com a sua saúde. Reclamar com a falta de serviço de saúde assistido nos EUA tornou-se uma constante. O dinheiro tornou-se uma preocupação gritante.

Curiosamente, depois de falar sobre isto (sempre muito de passagem, as coisas negativas parecem incomodá-lo) tenta ver o lado positivo da coisa: começa a dizer que não é a primeira vez na história da música que se reduz o número de músicos com que se trabalha, lembra que "até Glenn Miller teve de se desfazer da sua big-band e criar um ensemble mais pequeno", etc, etc. O que é curioso é que ao seu jeito Wagner tem um quê de totó: é hiper-explicativo, faz infindáveis referências musicais, fala mais depressa do que canta e tem uma pureza discursiva com que é fácil empatizar - nota-se que acredita em tudo o que diz. (Excepto se lhe perguntarem se os Lambchop são country.)

Deu por si a pensar que não sabia "quantos mais anos é que ainda andaria a tocar". Não se via a fazer um disco rock e imitar Mick Jagger, em parte porque "nem o Mick Jagger consegue imitar o Mick Jagger". Com a mortalidade em fundo atirou-se aos clássicos, tendo um único fito: "Fazer um disco que, se por acaso amanhã não poder voltar a fazer música, me fizesse sentir orgulhoso".

Kurt Wagner já escreveu uma mão cheia de grandes discos. Mr. M é o primeiro disco que é clássico logo à primeira nota. Só demorou 18 anos de carreira e 54 de idade a consegui-lo.

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