Das tripas um piano

DANIEL NEVES

Elogio da Desordem torna ainda mais contundente que Joana Sá nos é essencial. Hoje, no Teatro Maria Matos, a pianista dedica-se à impossibilidade.

Um piano é um piano nem sempre é um piano. Perante o instrumento, Joana Sá arregaça as mangas e deixa que seja a relação visceral com ele a ditar-lhe os gestos. Mexe-lhe nas tripas, vira-o do avesso, acopla-lhe extensões, toca-o a partir de um plano de impossibilidade. Elogio da Desordem, o disco a solo que sucede a Through this Looking Glass e ao duo com Luís José Martins (Almost a Song), vem daí, de uma reacção propositadamente descontrolada perante uma partitura que sabe, à partida, não poder respeitar. "Estabeleço que a partitura gráfica é lida de uma certa forma, mas essa forma é impossível de ser feita, portanto o que me resta é fazer o melhor possível. Mas nunca consigo fazer tudo o que está lá em simultâneo", explica. Daí que, sentando-se perante a angústia de não conseguir abarcar todas as camadas, num avolumar de simultaneidade e complexidade (ao piano semi-preparado juntam-se dispositivos de campainhas e sirenes), a sua resposta é concretizada por uma imagem quase tentacular: uma coreografia de mãos, braços e pés a tentar chegar a todos esses lugares e encontrando na impossibilidade a sua razão de ser.

"Cada vez que começo um projecto a solo, penso que não posso complicar...", confessa Joana Sá. Mas a verdade é que a tentativa de eliminar por decreto "a parafernália gigante de coisas" que utilizara em Through... só funcionaria enquanto plano de intenções abstracto. Elogio da Desordem tratou de chamar à realidade a compositora e pianista e de esclarecer que deve render-se à sua natureza cada vez mais evidente: quando olha para o piano e começa a fantasiar a música que ali pode caber, Joana vê não apenas o instrumento que tem pela frente mas também os anexos sonoros que podem ajudá-la num desejo de expansão de recursos - neste caso, uma pedaleira com interruptores, "coisa rudimentar". Torna-se quase lúdico, a raiar o infantil, como se pegasse numa fotografia e desenhasse por cima aquilo que quer ver materializado. Só que não se trata de infantilidade, mas sim de um ponto de partida criativo que transborda os limites e invade territórios estranhos.

A desordem que Joana Sá pretende louvar prende-se antes de mais com a ideia de "monólogo interior para piano semi-preparado" que serve de subtítulo à sua obra - "o espaço onde tudo nasce, antes de pormos as coisas em gavetas e em palavras". Mas a compositora não faz por disfarçar o facto determinante de Elogio da Desordem ser igualmente produto do seu tempo. "O monólogo", clarifica, "não é um monólogo comigo própria e só dentro de mim. É também a forma como digiro o mundo - e, nesse aspecto, temos tido uma tarefa mais difícil." Joana vai mais longe no esgravatamento, até chegar à pergunta contextualizada pela "época em que retirámos felizmente a violência do nosso discurso": "Por que estou nesta esplanada e não estou aos murros a alguém?" Ou como, colectiva e individualmente, cada um encontra as suas estratégias para digerir (ou recusar) e se posicionar diante do mundo.

A trilogia introspectiva

Elogio da Desordem começou, lentamente, a tomar forma há dois anos, quando Joana Sá aceitou o convite do artista plástico Pedro Diniz Reis para assegurar uma performance incluída na exposição deste na Culturgest, em Lisboa, tendo desenvolvido partituras gráficas a partir da sua obra. Depois, vários convites levaram-na a desenterrar as peças, até tropeçar num outro elemento fundamental: a palavra. Aos poucos, tornou-se imperativo para Joana justapor dois planos que estabeleceu como basilares para Elogio da Desordem. O principal, já em marcha, partia das peças musicais em que se encontrava já a trabalhar e que dispusera mentalmente com títulos pedidos de empréstimo a um dos volumes da série O Bairro, de Gonçalo M. Tavares. No caso, O Senhor Swedenborg e as Investigações Geométricas. O secundário resultaria precisamente desta nova coordenada.

À medida que a presença do texto se foi infiltrando, a aproximação ao escritor levaria Joana Sá a recorrer a alguns textos do livro Animalescos, num momento prévio à sua publicação. "Aquele tipo de linguagem adequava-se muito àquilo que eu queria fazer com a ideia do monólogo", afirma. "Essa ideia não partia da palavra. Normalmente, temos acesso ao nosso discurso interior através da palavra e é daí que vamos para as camadas inferiores. Queria que fosse ao contrário - uma representação pessoal minha que fosse feita através da música e da qual a palavra sairia de várias formas, sendo tratada segundo uma abordagem mais plástica, menos explícita." Por isso, aquilo que lhe interessava em Animalescos era o texto soar pouco linear, num jorro de ritmo alucinante, "uma coisa quase de gesto, parecia um incêndio". Para atear fogo aos textos, precisamente, chamou então a actriz Rosinda Costa.

Este lado incendiário, físico, de quem fala das tripas do piano, ressoa naturalmente no olhar dessacralizado que Joana Sá lança ao instrumento. De formação clássica, a pianista foi empurrada para essa amputação mascarada de escolha que é decidir entre ser intérprete e ser compositora. Tendo estudado para se especializar na primeira, isso explica talvez a forma livre como se dedica à segunda. "O que o século XX criou foi esta coisa do distanciamento entre a ideia musical e o que está escrito, e o artesão, os performers. A dada altura os performers eram os que davam ao dedo. No meu caso, a composição é bastante artesanal, no sentido em que componho com o corpo, com a matéria. Às vezes o meu pensamento musical tem também muito de coreografia."

Neste momento, Joana Sá não sabe ao certo o que resta em si dessa faceta de intérprete, que desempenhou até há dois anos, até ao momento em que as suas ideias lhe ocuparam impiedosamente os dias. Esse lado, no entanto, nunca fica totalmente esquecido, mesmo que reduzido a consumo doméstico e mero objecto de estudo. Só que dificilmente lhe pode oferecer a mesma sensação de vertigem. "Gosto de estar em chão pouco seguro", diz, numa frase que parece resumir tudo. E é isso que continuar a fazer, no mínimo, até concluir este ciclo de solos, organizado como uma trilogia de "criação de um mundo introspectivo". Felizmente, não nos tranca do lado de fora.

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