Dança

A Ballet Story inaugurou, em Guimarães, um ano que pôs em evidência a singularidade da dança portuguesa no contexto europeu ADRIANO MIRANDA

1. A Ballet Story, De Victor Hugo Pontes, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, 9 de Fevereiro; Teatro Maria Matos, Lisboa, 28 e 29 de Setembro

Prova de uma persistência e de um labor que nunca descurou o que de bom tem a forma e o que de ambíguo tem o conceito, A Ballet Story, do jovem coreógrafo Victor Hugo Pontes, constitui-se como um dos melhores exemplos da qualidade distintiva da dança portuguesa em 2012. Um leque de intérpretes que atravessam fronteiras estilísticas, um coreógrafo com um olhar clínico para as transferências entre o teatro e a dança, um diálogo entre movimento e música (a peça partia de Zephyrtine, uma partitura para ballet do compositor David Chesky) que resulta num corpo uno e indivisível e uma noção exemplar de economia dramatúrgica que fazem desta obra um objecto rico, polissémico e generoso. É ainda um espectáculo de uma simplicidade desarmante, que se sustenta num diálogo franco entre a música enquanto corpo presente e o movimento enquanto acção efémera. A coreografia inaugurou, em Guimarães, um ano rico em força e diversidade, resultante de uma aposta da Capital Europeia da Cultura 2012, que pôs em evidência a singularidade da dança portuguesa no contexto europeu. T.B.C.

2. Cesena

De Anne Teresa de Kersmaeker

Rosas/Graindelavoix

Centro Cultural de Belém, Lisboa, 8 e 9 de Junho; Fábrica ASA, Guimarães, 14 e 15 de Junho

Cesena exprime o acordar da noite para o dia, metafórico da força de uma comunidade que vence os poderes opressores e instituídos e se reconstrói, elevando-se até infinito. Keersmaeker fundiu-se admiravelmente com o coro Graindelavoix numa obra que encheu a música de corpo, gerou ricos vocabulários, expôs intérpretes virtuosos e traçou uma imagem imprescindível de resistência. Belíssima peça na sua exposição tão intangível quanto edificante, foi o diamante na esplêndida retrospectiva da bienal Artista na Cidade 2012. P.V.

3. Danza Preparata

De Rui Horta

Casa da Música, Porto, 11 de Abril; Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, 14 de Abril; Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 29 de Abril

Rui Horta compôs uma coreografia delicada que condiciona a bailarina perfeita (Silvia Bertoncelli) com iluminações e materiais diversos. Danza Preparata é um triângulo afectuoso de música, dança e luz, elementos depurados e de excelência que funcionam em pleno sem hierarquias. É redentor o corpo escultural, atento e equilibrista, que se quebra pelas articulações mas retoma sempre um diálogo gracioso e ritmado com o fantástico pianista (Rolf Hind). Uma bonita homenagem à aclamada composição de Cage, nos 100 anos do seu nascimento. P.V.

4. Vontade de ter vontade

De Cláudia Dias

Culturgest, Lisboa, 20 e 21 de Janeiro; Teatro Municipal de Vila do Conde, 28 de Setembro (Circular Festival)

Este solo performativo é a metáfora de uma portugalidade perplexa, num devaneio auto-analítico espartilhado entre o passado e o futuro, a tentação do escapismo e anseios insurreccionais amornecidos ao sol. Com minúcia de ourives, dispositivos mínimos, despojamento técnico, tempos e soluções interpretativas fabulosos, Cláudia Dias constrói uma visibilidade quase cinematográfica para esta deambulação intimista, que a confirma como uma das mais peculiares e consistentes performers portuguesas actuais. L.R.

5. Perda Preciosa

De André e. Teodósio e Rui Lopes Graça

Companhia Nacional de Bailado

Teatro Camões, Lisboa, 19 a 29 de Abril

Portugueses: ainda estamos à espera, entretidos num absurdo de futilidades e inconsequências, de que o rei perdido volte para nos salvar. Esta é a realidade encenada por Teodósio e Lopes Graça numa colaboração improvável que estreou um ballet moderno, trágicómico, luxuoso, veloz e narrativo, como é apropriado ao género, no espólio da Companhia Nacional de Bailado, no ano em que esta assinalou 35 anos de existência. Uma aposta arriscada mas ganha, cuja sofisticação coreográfica se sintetiza no deslumbrante solo de abertura. P.V.

6. Jim

De Paulo Ribeiro

Companhia Paulo Ribeiro

Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, 24 de Novembro; Teatro Viriato, Viseu, 30 de Novembro e 1 de Dezembro

Um exercício de extrema delicadeza. A prova de que nem todos os corpos podem dançar a mesma revolução. Jim é um trabalho de rememoração do que é essencial na obra de Paulo Ribeiro: a libertação dos corpos sociais, o confronto com a matéria quotidiana, o desapego da narrativa. Uma coreografia hipnótica, servida por um elenco dedicado que enfrenta a solidão da utopia através de uma entrega sem limites. E uma homenagem aos que sonham e resistem. T.B.C.

7. A Cidade

De Olga Roriz

Companhia Olga Roriz

Teatro Camões, Lisboa, 12 e 13 de Outubro

Entre uma cartografia íntima e as representações colectivas, a coreógrafa e os seus quatro intérpretes inventaram um não-lugar citadino onde ressoam conturbações do nosso tempo. Expedientes sonoros e cenográficos notáveis e uma teatralidade depurada tecem uma suave pulsação com a audiência em que, por ápices, o palco se dilata em biliões de cidadãos e vislumbramos a história humana. Roriz reencontra-se com um modo emocional e instintivo de compor, numa peça que figura entre as melhores no repertório da sua companhia. L.R.

8. A Viagem

De Filipa Francisco e António Pedro

Fábrica ASA, Guimarães, 16 e 17 de Março

Depois da experiência com o Rancho Folclórico "Os Camponeses" (Festival Materiais Diversos 2011), Filipa Francisco e o músico António Pedro, prosseguem, com o Grupo Folclórico da Corredoura, por trilhos pouco frequentados na dança portuguesa. Da aproximação entre cultura expressiva popular e arte contemporânea surge um terceiro, que simultaneamente preserva e transforma o olhar sobre cultura e património, revisitando questões identitárias, geracionais, do género e da liberdade. Ao superar fantasmas e preconceitos sobre o folclore, o projecto resulta, ainda, num inventivo e oportuno reforço da auto-estima colectiva. L.R.

9. Três solos em um tempo

De Denise Stutz

Black Box CAORG, Minde, 23 de Setembro (Festival Materiais Diversos)

Peça autobiográfica que recorda a evolução da dança erudita ocidental através de um percurso próprio, 3 solos em 1 tempo interpela o espectador, elogia a imaginação e a efemeridade, funde o feminino e o masculino e reflecte sobre o corpo regulado e a revolta silenciosa das minorias. Stutz partilha apaixonadamente a sua escolha de vida com uma devoção comovente e um humor genuíno. A fantasia do teatro apresenta-se como reflexo poético do real num discurso muito seguro sobre o corpo em movimento como matéria de comunicação que revisita o seu próprio património coreográfico. P.V.

10. 27 Ossos

De Tânia Carvalho

Viana do Castelo, Teatro Sá de Miranda, 13 e 14 de Julho (Festival Cena Sign); Teatro Viriato, Viseu, 17 de Novembro

Sombria e imaginativa, misteriosa e exposta, ambígua e concreta: assim tem sido a dança de Tânia Carvalho, e assim voltou a ser num espectáculo onde melhor explora um rigor coreográfico que a coloca num patamar de referência internacional. Há no modo como se dedica a experimentar as diferentes formas do corpo um desejo de explosão, quase trágico, muito cínico, que assusta e que fascina. 27 Ossos é uma obra negra, de uma eficácia clínica, onde a coreógrafa se diverte a brincar às convenções baléticas. T.B.C.

Escolhas de Luísa Roubaud, Paula Varanda e Tiago Bartolomeu Costa

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