Corpos que deslizam num museu clandestino

NUNO FERREIRA SANTOS

O artista Jonathas de Andrade implodiu os estereótipos do homem do Nordeste brasileiro. Na Kunsthalle Lissabon com uma série de cartazes fotográficos que dialogam com a museografia, a memória cultural e o colonialismo interno do Brasil.

Quem entrar na Kunsthalle Lissabon até meados de Agosto (dia 17) vai encontrar um estranho museu. É feito de cartazes onde posam homens que, pelas suas características físicas, não serão totalmente estranhos a quem (ainda) conserva uma certa memória cultural. Alguns exibem-se em pose orgulhosa, outros remetem para a figura do trabalhador pobre, de pele curtida pelo sol e pelo tempo. E também há os que pousam descontraídos, serenos, numa provocação bem-humorada, à beira do riso franco.

Podiam pertencer todos ao "Museu do Homem do Nordeste", que o sociólogo e escritor pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) criou em 1979 na cidade do Recife, mas, por enquanto, fazem parte da exposição que Jonathas de Andrade (Recife, 1982), apresenta na instituição lisboeta. O título é elucidativo: Cartazes para o museu do homem do nordeste. "O projecto começou como uma pesquisa e uma proposta", explica. "Reparei que algumas fotografias do meu arquivo não encaixavam com o nome do museu [do Homem do Nordeste]. Que este, estando vivo, não lidava com a contemporaneidade, mas com um certo grau de estereótipos, com uma construção de nordeste brasileiro que já era uma muito clara e daí criei um mecanismo muito simples". O mecanismo consistiu em pedir a colaboração de membros da classe operária local. "Coloquei um anúncio no jornal convidando trabalhadores para posarem para os cartazes. Eles contactavam-me de volta e, depois de uma breve negociação, as fotografias aconteceram". Com resultados distintos. "Às vezes caminham para uma representação quase heroica, exploram o corpo, outras são mais simples, estão relacionadas com o trabalho. Mas essa mudança de tom devolve para o museu original uma mudança de carácter e isso é muito interessante. Porque coloca em perspectiva o papel do museu que já existe, que é histórico, e confronta-o com estes cartazes que parecem oficiais, mas que na verdade são imaginários, são hipóteses".

A exposição não inclui apenas cartazes. Jonathas de Andrade revela o processo que antecedeu a produção das fotografias. Podemos ler o anúncio que publicou no jornal e, por meio de um retroprojetor, consultar alguns momentos do trabalho de campo." Fui anotando como as coisas foram acontecendo. A minha interacção na rua, os nossos encontros, as minhas observações. Jogo com os códigos de museografia, da pesquisa antropológica, sendo que este museu existe numa esfera pessoal. Assumo o papel de uma espécie de personagem que encontra outras personagens. Faço tudo olho no olho e isso é uma coisa que a pesquisa científica costuma neutralizar. Criei um critério, uma metodologia, uma tipologia fotográfica diferente da antropologia tradicional. Aqui mostra-se um contexto que é fruto directo da relação criada com esse convite aberto".

Com efeitos, vários cartazes surgiram depois de conversas e abordagens na rua. O artista aponta para um homem de meia de idade de rosto cansado mas grave. "Tinha estado a trabalhar e encontrei-o num bar, a beber uma cerveja. Tem uma pose que relaciono com uma certa auto-estima. Em todos os cartazes procurei mostrar como cada personagem entende o nordeste, o trabalho, a região".

Implodir estereótipos

Pese embora a diversidade dos rostos, das poses e até das tipologias (há fotografias de grupo, grande planos, imagens que ameaçam excluir os corpos, deixando entrever apenas pormenores), o homem nordestino de Jonathas de Andrade é razoavelmente familiar. Recordamos o Sertão ficcionado pelas telenovelas, representado nos filmes de Glauber Rocha ou nos livros de Jorge Amado. "Eu parto desse reconhecimento e é muito interessante apresentar esta exposição em Portugal. O Nordeste que foi inventado na literatura, num jogo de oposições entre Norte e Sul, num certo colonialismo interno, criou um estereótipo do sofrimento, do trabalhador que precisa de ir para cidade, que é mão-de-obra barata. Nesse sentido, este "museu" é uma continuação do museu original, mas o que eu quero mesmo é mergulhar nesse estereótipo e implodi-lo a partir de dentro. Quis criar uma situação ambígua, quase contraditória para sublinhar o que é possível reconhecer nestes cartazes e o que lhes escapa por vizinhança".

E o que lhes escapa? "Não vou dizer. Cabe ao espectador descobrir. Alguns podiam pertencer ao museu de Gilberto Freye, mas por vezes deslizam", sugere. O deslize é operado humor, por uma certa ousadia (lembram, com as devidas distâncias, a vibração de Moi un noir, de Jean Rouch) e até por uma ambiguidade sexual. O modo como a exposição se apresenta convida o espectador a interagir com as imagens, a compor o seu próprio museu. Pode trocar os cartazes, esvaziar as molduras, desenhar novas relações, retirar dos expositores outros homens do Nordeste brasileiro e mostrá-los. "Quis que a exposição fosse uma espécie de arquivo-laboratório, um processo no qual as pessoas pudessem participar. Visitei pela primeira vez o museu oficial na minha infância e fiquei com a sensação de que a museografia era muito densa e saturada de caminhos. Hoje já não é assim, há mais vitrinas e artefactos. Aqui, de alguma forma, tento reproduzir essa sensação para gerar uma museografia como potência de percurso e confronto com a presença do espectador. A interactividade é menos intenção do que uma conversa com esse museu".

Artista que adquiriu uma notória visibilidade internacional (foi um dos vencedores do prémio especial do júri no Future Generation Art Prize 2012), Jonathas de Andrade tem explorado situações ou práticas que implicam a colaboração de comunidades locais. Em 2012 organizou no Recife uma corrida de carroceiros clandestinos, trazendo para o quotidiano o lastro de uma ruralidade que o novo Brasil faz por esconder ou maquilhar, e há três anos apresentou "Educação para Adultos" na Bienal de São Paulo. "Nesse projecto trabalhei com um grupo de mulheres analfabetas usando o método pedagógico do Paulo Freire. Procurei confrontar-me com esse pensamento e do processo também resultaram cartazes. Foi muito gratificante. Há um engrandecimento que surge na relação com as pessoas".

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