1948-2010 Joaquim Vital

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Era a ele que se devia em grande medida o conhecimento que os franceses têm da literatura portuguesa. Joaquim Vital, editor e escritor, criador da Éditions de La Différence, morreu anteontem

O editor e escritor português Joaquim Vital, um dos principais divulgadores da literatura portuguesa em França, criador das Éditions de La Différence, morreu anteontem, subitamente, quando se encontrava num café, em Lisboa. Tinha 62 anos. O corpo encontra-se no Instituto de Medicina Legal e o funeral está previsto para terça-feira, mas ainda não se sabe a hora nem o local.

O jornal Libération chamou-lhe "o bom dinossauro irascível" e havia outros que o apelidavam de "Orson Welles dos livros", pela compostura física, mas também pela determinação e afabilidade.

"Era um príncipe de esquerda", descrevia ontem ao P2 o escritor Urbano Tavares Rodrigues, de quem a La Différence editou a quase totalidade da obra. "Tinha muita cultura, elegância de maneiras, tinha amigos em toda a parte, tinha muito mundo. A sua editora era extraordinária. Para além de editar inúmeros autores franceses, prestou grandes serviços à cultura portuguesa."

O escritor Mário Cláudio - de quem a La Différence editou Amadeo, Guilhermina e Rosa - recorda a personalidade "excêntrica, mas muito afectuosa e cosmopolita" e um físico "que fazia lembrar o Mário de Sá-Carneiro". A sua morte, afirma o escritor, "é uma grande perda para a cultura portuguesa pela acção que desenvolveu de divulgação da literatura portuguesa, colocando autores portugueses contemporâneos ao lado de autores franceses importantes, como a Marguerite Duras, que também editou".

Para além da edição, Joaquim Vital também se dedicou à escrita de quatro livros. Um deles, Adieu à Quelques Personnages (2004) é um olhar sobre a sua vida através de 42 figuras das letras e artes plásticas com quem privou, como Max Ernst, Joan Miró, Gilles Deleuze, Vieira da Silva ou o amigo Júlio Pomar. Da sua autoria são também o livro de poemas Un qui Aboie (2000), o volume de contos La Vie et le Reste (2008) e a antologia de textos e imagens Vingt Ans, Bilan sans Perspective (1996).

Nascido em Lisboa, em 1948, exilou-se por razões políticas em Bruxelas, em 1966, antes de rumar a Paris sete anos mais tarde.

Foi aí que viria a fundar, em 1976 - já depois de ter estado em Portugal por ocasião do 25 de Abril de 1974 -, as Éditions La Différence, uma editora que se dedicou à literatura, ao ensaio, à poesia e à arte contemporânea. Um catálogo ecléctico, com mais de 1600 títulos publicados, entre eles cerca de 120 pertencentes a autores portugueses, como Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Fernão Mendes Pinto, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner, Virgílio Ferreira, Eugénio de Andrade, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Graça Moura ou Maria Judite de Carvalho.

Em 2007, em entrevista ao PÚBLICO, confessava que, no princípio da editora, não estava virado para o lançamento de portugueses. "Foi uma fase em que quase cortei com o país", dizia. "Mas, depois, apercebi-me de que havia tais lacunas em relação à difusão da literatura portuguesa que resolvi fazê-lo."

Publicar o que achava bom

Era ainda adolescente quando editou um livro de ensaios de Urbano Tavares Rodrigues, Escritos Temporais. "Conheci-o em 1963, era ele um jovem do Partido Comunista. Foi antes de ser preso, condenado e torturado e sair clandestinamente para a Bruxelas" recorda o escritor.

Também em declarações ao P2, o historiador, ensaísta e tradutor francês Pierre Léglise-Costa, que trabalhou em vários títulos da La Différence, considerou a morte de Joaquim Vital "uma perda" - não só para Portugal, mas também "para o meio literário francês", onde era uma personalidade reconhecida.

"Impôs planos editoriais fora do comum, no campo da história da arte, com artistas portugueses também, como o Júlio Pomar e o José Guimarães, e foi fundamental na divulgação em França de Eça, Urbano Tavares Rodrigues ou Mário Carvalho", afirma, recordando o equilibro frágil de uma editora independente, mas ao mesmo tempo a capacidade de, a cada lançamento, "renascer das cinzas".

A La Différence editou os dois primeiros livros, de poemas, do controverso Michel Houellebecq e Francis Bacon, da autoria do filósofo francês Gilles Deleuze, foi dos que mais se vendeu. Apesar da grande paixão de Joaquim Vital ser a poesia e a literatura, eram os livros de arte que equilibravam as contas. Mas isso nunca o impediu de apostar na sua paixão, como disse na mesma entrevista ao PÚBLICO: "O sector literário é mais difícil. Mas o meu único critério é publicar um livro se o acho bom."

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