Um dos inéditos de Roberto Bolaño

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O Terceiro Reich

A partir das 23h30 de 25 de Fevereiro, O Terceiro Reich será lançado na Póvoa de Varzim, no encontro literário Correntes d"Escritas. No dia seguinte estará disponível nas livrarias

20 de Agosto.

Pela janela entra o rumor do mar misturado com os risos dos últimos noctívagos, um barulho que talvez seja o dos empregados a levantar as mesas da esplanada, de vez em quando um carro que circula com lentidão pelo Passeio Marítimo e zumbidos abafados e inidentificáveis que provêm dos outros quartos do hotel.

Ingeborg dorme; o seu rosto parece o de um anjo a quem nada perturba o sono; em cima da mesinha-de-cabeceira há um copo de leite que ela nem provou e que ainda deve estar quente, e ao pé da sua almofada, meio coberto pelo lençol, um livro do detective Florian Linden, do qual apenas leu umas duas páginas antes de tombar adormecida. A mim acontece-me exactamente o contrário: o calor e o cansaço tiram-me o sono. Geralmente durmo bem, entre sete e oito horas diárias, embora seja raríssimo deitar-me cansado. De manhã acordo fresco que nem uma alface e com uma energia que não diminui ao fim de oito ou dez horas de actividade.

Que eu me lembre, foi sempre assim; faz parte da minha natureza. Ninguém mo inculcou, simplesmente sou assim e com isso não quero sugerir que seja melhor ou pior do que outros; a própria Ingeborg, por exemplo, que aos sábados e domingos só se levanta depois do meio-dia e durante a semana só uma segunda chávena de café - e um cigarro - consegue acordá-la totalmente e empurrá-la para o trabalho. Esta noite, porém, o cansaço e o calor tiram-me o sono. Também, a vontade de escrever, de registar os acontecimentos do dia, me impede de me meter na cama e apagar a luz.

A viagem correu sem qualquer percalço digno de nota. Detivemo-nos em Estrasburgo, uma bonita cidade, embora eu já a conhecesse. Comemos numa espécie de supermercado à beira da auto-estrada. Na fronteira, ao contrário do que nos tinham avisado, não tivemos de fazer fila nem esperar mais de dez minutos para passar para o outro lado. Foi tudo rápido e de forma eficiente. A partir de então, conduzi eu, pois Ingeborg não confia muito nos automobilistas nativos, acho que devido a uma má experiência numa estrada espanhola, há anos, quando ainda era pequena e vinha de férias com os pais. Além disso, como é natural, estava cansada.

Na recepção do hotel fomos atendidos por uma rapariga nova, que se desenvencilhava bastante bem com o alemão, e não houve qualquer problema para confirmar as nossas reservas. Estava tudo em ordem e, quando já íamos subir, avistei Frau Else na sala de jantar. Estava a arranjar uma mesa ao mesmo tempo que indicava qualquer coisa a um empregado de mesa que, ao seu lado, segurava uma bandeja cheia de pequenos saleiros. Vestia um fato verde e no peito trazia colocada a chapa metálica com o emblema do hotel.

Os anos mal tinham passado por ela.

A visão de Frau Else fez-me lembrar os dias da minha adolescência com as suas horas sombrias e a suas horas luminosas; os meus pais e o meu irmão a tomarem o pequeno-almoço na esplanada do hotel, a música que às sete da tarde os altifalantes do restaurante começavam a espalhar pelo rés-do-chão, os risos sem sentido dos empregados de mesa e os grupos que se organizavam entre rapazes da minha idade para irmos nadar de noite ou às discotecas.

Naquela época qual era a minha canção favorita? Cada Verão havia uma nova, um tanto semelhante à do ano anterior, trauteada e assobiada até à saciedade e com a qual todas as discotecas da povoação costumavam encerrar o dia. O meu irmão, que sempre foi exigente na área musical, seleccionava com esmero, antes de começar as férias, as fitas que teriam de o acompanhar; eu, pelo contrário, preferia que fosse o acaso a pôr nos meus ouvidos uma melodia nova, inevitavelmente a canção do Verão. Bastava-me ouvi-la duas ou três vezes, por mero acaso, para que as suas notas me seguissem através dos dias soalheiros e das novas amizades que iam ornamentando as nossas férias. Amizades efémeras, segundo o meu actual ponto de vista, concebidas só para afugentar a mais ínfima suspeita de aborrecimento. De todos aqueles rostos apenas uns quantos perduram na minha memória. Em primeiro lugar, Frau Else, cuja simpatia me conquistou desde o primeiro instante, o que me valeu ser o alvo das piadas e chacotas dos meus pais, os quais chegaram até a troçar de mim na presença da mesmíssima Frau Else e do seu marido, um espanhol de cujo nome não me lembro, fazendo alusões acerca de uns pretensos ciúmes e da precocidade dos jovens, que conseguiram fazer-me corar até à raiz dos cabelos e que em Frau Else despertaram um terno sentimento de companheirismo. A partir de então julguei ver no seu trato comigo um calor maior do que o dispensado ao resto da minha família. Também, mas num nível distinto, José (chamava-se assim?), um rapaz da minha idade que trabalhava no hotel e que nos levou, ao meu irmão e a mim, a lugares que sem ele nunca teríamos pisado. Quando nos despedimos, talvez adivinhando que não passaríamos o Verão seguinte no Del Mar, o meu irmão ofereceu-lhe umas cassetes de rock e eu as minhas velhas calças de ganga.

Passaram-se dez anos e ainda recordo as lágrimas que brotaram de repente a José, com as calças dobradas numa mão e as cassetes na outra, sem saber o que fazer ou dizer, murmurando num inglês de que o meu irmão troçava constantemente: adeus, queridos amigos, adeus, queridos amigos, etc., enquanto nós lhe dizíamos em espanhol - língua que falávamos com uma certa fluidez, não era em vão que os nossos pais passavam há anos as suas férias em Espanha - que não se preocupasse, que no Verão seguinte voltaríamos a estar juntos como os Três Mosqueteiros, que deixasse de chorar. Recebemos dois postais de José. Eu respondi, em meu nome e do meu irmão, ao primeiro. Depois esquecemo-lo e nunca mais se soube dele. (...)

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