Um escritório em qualquer lugar

Site permite encontrar locais para trabalhar em vários países, para empresas e profissionais com orçamentos apertados.

Os dois fundadores estão à procura de um financiamento entre 500 mil e um milhão de euros Miguel Manso

As fotografias da sala de reuniões para oito pessoas no centro de Lisboa, a meio caminho entre a Avenida da Liberdade e o Largo do Rato, mostram uma grande mesa de madeira e várias cadeiras com brasões gravados nas costas. Há um busto de Camões em cima de uma grande lareira. A sala tem capacidade para oito pessoas e um custo de dez euros por hora.

Com a mesma capacidade, uma sala de reuniões num antigo mosteiro em Óbidos convertido em incubadora de empresas custa 7,38 euros por meio dia. Em pleno Soho londrino, pouco mais de 15 euros dão direito a uma secretária para trabalhar o dia inteiro. São três das cerca de seis mil ofertas de locais de trabalho temporário disponíveis no site português All-Desk. Em Setembro, rondavam as 400.

A plataforma foi lançada no ano passado. Um dos alvos são profissionais freelancers, que podem trabalhar em vários sítios com flexibilidade ou precisar de se reunir com clientes em cidades diversas. Outro são as pequenas empresas, que precisem de se deslocar, dentro do próprio país ou para o estrangeiro, e que podem assim ter um escritório sem estourar o orçamento.

Do outro lado da equação do All-Desk estão as empresas, hotéis, universidades ou quem quer que seja que tenha uma mesa ou uma sala vaga e que pode aqui encontrar oportunidades para uma receita extra. Como mediadora neste processo, o All-Desk cobra uma comissão.

Muitos dos locais listados na plataforma são de espaços de co-working, um conceito que ganhou adeptos em Portugal nos últimos tempos. Estes locais já alugam espaços de trabalho a freelancers e pequenas empresas. Visitar um destes locais significa muitas vezes mergulhar numa mole de jovens urbanos a teclarem em computadores Mac, sentados em cadeiras e mesas que alternam entre o simplismo estético do Ikea e o vintage que está na moda.

Para um local ser listado no site do All-Desk é necessário reunir condições de trabalho e enviar fotografias. Os utilizadores podem deixar críticas aos locais em que tenham trabalhado. O processo de verificação das condições de cada local não dá garantias, reconhecem os fundadores, que estão a equacionar contratar fotógrafos profissionais para simultaneamente captar imagens dos espaços (boas fotos atraem mais clientes, dizem) e confirmar se estes correspondem à descrição. Este processo de verificação está em fase de testes em Lisboa.

 
Em busca do milhão

A ideia do All-Desk surgiu em 2011 quando os dois mentores da plataforma estavam à procura de um local para trabalharem fora de casa. Pedro Santos, 34 anos, tinha regressado há pouco da Holanda, onde tirara um MBA, trabalhara como consultor informático numa empresa de serviços móveis e tinha tido alguma experiência “como consultor de start-ups”. Pelo meio, escreveu um livro sobre empreendedorismo na Europa. Rui Aires, 37, vinha de um percurso em duas empresas de tecnologias de informação em Portugal.

Ambos parecem ter alguma dificuldade em desenhar com precisão o ponto das respectivas carreiras quando se conheceram – num evento chamado Start-up Coffee –, enumerando uma profusão de projectos e de actividades em torno do que chamam a “comunidade de empreendedores”. Agora trabalham a tempo inteiro no All-Desk.

“Não temos um emprego tradicional”, esclarece Rui Aires, numa entrevista na Start-up Lisboa, uma incubadora de empresas, sem fins lucrativos, instalada numa das ruas da baixa lisboeta. A empresa tem ainda outros dois sócios, que já eram empresários quando decidiram juntar-se ao projecto.

O All-Desk ganhou no ano passado um prémio de 100 mil euros num concurso de empreendedorismo organizado pelo ISCTE, em Lisboa. Desde então, passou de um protótipo para um site funcional, contratou um programador e os dois fundadores desdobram-se em contactos para expandir o negócio e obter mais financiamento – entre 500 mil e um milhão de euros, especifica Pedro Santos, adiantando que o plano é que a empresa comece a ser lucrativa dentro de dois anos. “Criar um negócio como este não é criar a plataforma e está feito”.
 

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