“Somos o número dois”, rezava o antigo slogan da Avis. “Esforçamo-nos mais.” Este conceito encerrava uma sabedoria profunda. Quando a Apple concebeu o seu iPhone original, tinha zero quota de mercado e não perdia nada em correr riscos. Consequentemente, o telefone fervilhava de ideias ousadas.
Contudo, à medida que o iPhone se tornou mais icónico e mais importante para a Apple, a coragem da empresa para abanar as coisas esmoreceu. Para quê mexer numa equipa que ganha?
Esta timidez deu à Samsung a brecha de que precisava. O seu Galaxy S perseguiu o iPhone com todo o seu poder de fogo e cedo se tornou uma estrela de pleno direito no universo dos telemóveis.
Quando era apenas uma distante aspirante a concorrente, a Samsung não tinha nada a perder. “Vamos experimentar fazer um ecrã enorme!” “Vamos experimentar o comando por gestos!” “Vamos experimentar o reconhecimento do olhar!”
Mas agora chegou o Galaxy S4, a quarta encarnação do campeão de vendas da Samsung. (As quatro grandes operadoras dos Estados Unidos vão oferecê-lo a preços entre os 150 e os 250 dólares com um contrato de dois anos, ou a cerca de 640 sem contrato.) E o curioso é que a Samsung começou a jogar pelo seguro.
O Galaxy continua a ser um telefone Android muito bonito e potente. Mas, basicamente, é um Galaxy S3 actualizado. Se a Samsung fosse como a Apple, que adiciona um “S” ao nome do modelo para indicar que ele foi ligeiramente melhorado (“iPhone 4S”, por exemplo), teria chamado a este telefone Galaxy S3S.
O S4 é do mesmo tamanho que o S3 (OK, tem menos sete décimas de milímetro). Continua a ser enorme: é mais um Jumbotron que uma ficha, o que é bom para mapas e filmes, mas mau para mãos pequenas.
E continua a ser feito de plástico. É leve e aderente, mas não tão elegante como o iPhone (vidro) ou o HTC One (metal).
Tudo somado, ninguém no escritório vai notar que comprou o melhor e mais recente telemóvel no mercado.
No entanto, a Samsung conseguiu enfiar melhor componentes neste wafer sem aumentar o seu tamanho. O ecrã, muito luminoso e supernítido, tem agora 5 polegadas na diagonal, quando anteriormente tinha 4,8; as margens encolheram.
A bateria também é 20 por cento maior. Isto não significa necessariamente uma grande melhoria na duração, porque o ecrã, maior, consome mais energia. Felizmente, ainda se pode abrir o painel posterior e trocar de bateria, o que não se pode fazer num iPhone sem um maçarico. Também se pode aumentar a capacidade de armazenamento com um cartão de memória; com um iPhone, só pode ficar a roer-se de inveja.
A maior parte das outras alterações no S4 são no software. Mais do que nunca, a ideia da Samsung foi, desta vez, “Vamos atirar tudo lá para dentro e ver o que pega”. Não houve filtro nenhum. Também não há coerência, coordenação ou direcção unificada: trata-se apenas de um grande cargueiro chocalhante atafulhado de funções.
Alguns exemplos: deslizamento inteligente. Esta é a função muito aguardada de detecção do olhar do S4. Tal como o seu antecessor, o S4 reconhece os nossos olhos; pode, por exemplo, escurecer o ecrã quando desviamos o olhar, para poupar energia. Na aplicação de vídeo do S4, a reprodução pára (geralmente) quando deixa de se olhar para o ecrã.
Melhor ainda, a página de internet ou a mensagem de correio electrónico que estamos a ler desliza quando movemos a cabeça ou inclinamos ligeiramente o telefone. Sem mãos! Trata-se de uma engenhoca imprevisível, mas que diabo, é inovação!
Vista aérea. Aponte para o ecrã sem lhe tocar para obter uma janela instantânea de pré-visualização de qualquer coisa. Por exemplo, aponte para um quadrado no calendário para pré-visualizar os eventos desse dia, ou para uma miniatura da Galeria para ver a foto em tamanho integral.
Infelizmente, esta função é incoerente. Porque é que funciona no programa Correio, mas não no programa Gmail? (Já agora, porque é que o Android requer uma aplicação para o Gmail e outra para outros serviços de correio electrónico?)
Gestos no ar. Um sensor vê se acenarmos com a mão – uma função que “é uma real mais-valia quando estamos a comer com as mãos”, diz a Samsung. Pode fazer-se deslizar uma página da internet ou uma mensagem de e-mail movendo os dedos para baixo ou atender uma chamada com um aceno. Quando o telefone está bloqueado e escurecido, outro gesto basta para iluminar o ecrã o tempo suficiente para vermos as horas, o indicador da bateria e ícones de notificação.
Tradutor S. Alegadamente, esta aplicação é o tradutor universal dos sonhos da ficção científica. Escrevemos ou falamos até numa língua e o telefone apresenta ou diz a tradução noutra. Até funciona quando escrevemos, mas não melhor que a página de tradução do Google. Mas o telefone faz o que dizemos em picadinho – e isto antes de tentar sequer a tradução. Lamento, Trekkies.
Estas funções de reconhecimento de arregalar o olho só funcionam em certas aplicações, e descobrir em quais leva algum tempo. E algumas vêm activadas e outras desactivadas, parecendo o critério aleatório. Quando se liga o S4 pela primeira vez é-nos oferecida uma lista, com explicações, mas o meu ignorou algumas selecções que lá fiz.
E esse não é o único problema. O meu S4 bloqueava constantemente, expulsando-me sem cerimónias da aplicação Câmara ou das páginas de configuração, e esquecendo de imediato preferências que defini.
A câmara é muito boa, mas as fotos de 13 megapíxeis são ligeiranente desfocadas e, com pouca luz, ficam com grão. A aplicação Câmara também foi remodelada, seguindo a mesma filosofia das outras funções: qualquer coisa serve.
Podemos fotografar enquanto filmamos. Podemos filmar em câmara lenta ou rápida. Podemos aplicar filtros do tipo Instagram (cores estranhas, efeitos de envelhecimento) a fotos e vídeos, e pré-visualizar os efeitos antes de fotografarmos. E isto para não falar dos modos especiais:
Foto dramática. O telefone tira dezenas de fotografias de um sujeito em movimento (um praticante de skate, por exemplo). O software cria uma única foto composta, apresentando várias exposições do skater em várias fases do movimento.
Foto animada. Cria-se um filme e depois coloram-se as partes da cena que pretendemos congelar. O resultado é uma fotografia em que só um elemento se move (por exemplo, uma ventoinha no tecto ou uma fonte).
Câmara dupla. Tanto a câmara de trás como a da frente estão activas. O fotógrafo aparece numa inserção móvel dentro da foto ou do vídeo maior.
A maior parte dos estilos de inserção têm molduras um pouco patetas: um coração, um selo de correio, uma grande angular. Mas há um, um ecrã que é dividido igualmente entre as câmaras anterior e posterior, que pode ser extremamente útil. Permite-nos filmar o entrevistador e o entrevistado simultaneamente, por exemplo, ou narrar um desembalamento enquanto nos mantemos na imagem.
E aqui fica uma dica: a melhor função nova do S4 é aquela que esconde a maior parte delas. Chama-se Modo Fácil e vai fazer muita gente feliz.
Neste modo, a chuvada de funções do S4 abranda. Só há três ecrãs iniciais e os ícones – tais como Câmara, Internet, Telefone e Mensagens – são poucos, grandes e claros. Algumas aplicações foram simplificadas e receberam tipos de letra maiores e mais visíveis: Calendário, Definições, o marcador, E-mail e Mensagens. No navegador de internet, um prático botão “mais” aumenta o corpo da letra.
A Samsung não diz que o novo Modo Fácil é para pessoas mais velhas, mas destina-se claramente a pessoas que preferem letras grandes e funções simples.
E porque não? Até agora, os avanços no hardware dos telemóveis – internet mais rápida, câmaras melhores, ecrãs mais bonitos – têm sido acompanhados por uma crescente aglomeração de software. Mas porque é que uma coisa tem de implicar a outra? Porque é que não podemos ter um telemóvel de ponta com uma interface sóbria?

Comentar