Nokia regista perdas de 929 milhões de euros

Stephen Elop admitiu estar "desapontado" Foto: Paul Hackett/Reuters

A Nokia tem sido a imagem de um gigante em queda. A empresa finlandesa teve 929 milhões de euros de prejuízos no primeiro trimestre deste ano. Em 2011, tinha tido lucros de 344 milhões.

Os números, apresentados nesta quinta-feira, contam a história de um dos piores trimestres de sempre: as receitas globais caíram 30% (para os 7,4 mil milhões de euros) e as receitas com as vendas de dispositivos resvalaram 40% (para os 4,2 mil milhões).

Ao todo, foram vendidos aproximadamente dois milhões de dispositivos Lumia (a nova linha de smartphones da marca) a um preço médio de 220 euros (muitos aparelhos são vendidos com custos de aquisição mais baixos, mediante contratos com os operadores).

A Nokia tem 4,9 mil milhões em dinheiro, um montante que, se este ritmo de perdas se mantiver, esgotar-se-á em menos de ano e meio. A empresa já disse na semana passada que espera ter prejuízos também no próximo semestre e que tem em marcha uma estratégia de redução de custos.

O CEO da Nokia, Stephen Elop, admitiu estar “desapontado” com o desempenho no primeiro trimestre, mas sublinhou tratar-se de um ano de transição. A empresa só no final do ano passado lançou os Lumia, equipados com o Windows Phone e com os quais espera fincar um pé num segmento ocupado pelo iPhone, pelos múltiplos Android e pelos BlackBerry, embora estes estejam em queda.

Para além disto, Elop (que é um americano ex-executivo da Microsoft e o primeiro CEO não finlandês) notou que as vendas dos Lumia nos EUA – que não são um mercado natural para a Nokia – estiveram acima das expectativas. Pelo contrário, noutros mercados, como no Reino Unido, a empresa encontrou “desafios competitivos maiores do que o esperado”.

Francisco Jerónimo, um analista da IDC em Londres, explica ao PÚBLICO que a concorrência da Nokia no mercado britânico “é demasiado grande”.

O iPhone “é extraordinariamente popular”, em parte porque é vendido com contratos de fidelização ao operador que tornam a aquisição do aparelho muito barata. Por outro lado, os BlackBerry ainda são “muito populares, incluindo entre adolescentes”, embora já tenham sido destronados pelos Android.

Já nos EUA, nota Francisco Jerónimo, os operadores estão a impulsionar o Windows Phone porque precisam de uma alternativa ao sistema Android e ao iPhone.

Stephen Elop observou que “o preço dos dispositivos Android de vários fabricantes está a ser rapidamente empurrado para baixo”, o que levará a Nokia a apresentar preços mais reduzidos: “Uma parte muito clara da nossa estratégia é reduzir significativamente o preço dos dispositivos Lumia.”

A partir da próxima semana, o Lumia 610, o modelo mais barato da família, vai começar a ser vendido nos mercados asiáticos. A Portugal, deve chegar no próximo mês (acompanhado pelo topo de gama Lumia 900, já à venda nos EUA). No site da Fnac, o 610 surge listado a 280 euros e com data de lançamento para dia 11 de Maio.

Francisco Jerónimo argumenta que a baixa e a média gamas no segmento dos smartphones é onde a Nokia pode encontrar espaço de manobra. Mas a relativa imaturidade do sistema Windows Phone (já usado em alguns modelos de outros fabricantes há algum tempo, mas que só com a Nokia captou a atenção dos operadores) significa menos aplicações para descarregar e mais desconhecimento por parte do público: “Mesmo com o 610, vai demorar tempo. As pessoas não conhecem o sistema operativo, toda a gente tem um Android, iPhone ou BlackBerry.”

O analista observa, contudo, que a Nokia poderá beneficiar do facto de operadores, bem como outros fabricantes, estarem interessados em promover a ascensão do Windows Phone a uma terceira alternativa no ecossistema dos smartphones. Para os fabricantes, afirma, é um risco estarem dependentes apenas do Android, dado que este é desenvolvido pelo Google, que comprou a Motorola e está, por isso, numa posição dupla de parceiro e concorrente.

Por outro lado, o Windows Phone poderá apelar ao tipo de utilizador que esteja cansado dos sistemas já massificados e queira uma experiência diferente.

Na semana passada, a Moody's colocou a nota da dívida da Nokia apenas um nível acima de “lixo”, classificação que já tinha sido atribuída pelas outras duas grandes agências de notação. Ao longo do último ano, a empresa perdeu cerca de metade da valorização bolsista, tanto na Bolsa de Nova Iorque, como em Estocolmo.

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