“Na Internet ninguém sabe que és um cão”. É a legenda de um conhecido cartoon da revista americana New Yorker, publicado em 1993. Vinte anos depois, a realidade é um pouco diferente: a importância da Internet e a explosão das redes sociais tornou a identificação real mais frequente do que naqueles tempos. Mas persiste o problema de não ser fácil ter a certeza sobre quem está do outro lado – e esta é uma preocupação para quem compra artigos em segunda-mão na Internet.
Muitos sites de vendas – como o conhecido eBay – têm sofisticados esquemas de reputação para assinalar os vendedores e compradores em que se pode confiar. Isto implica criar uma conta no site e ter um historial de transacções sérias. Mas uma equipa portuguesa decidiu usar os dados que as pessoas já põem online e construiu uma plataforma para classificados que assenta no Facebook. Vendedores e compradores estão identificados pelos respectivos perfis - e até é possível descobrirem que têm amigos em comum.
A ideia para o Bewarket surgiu em 2010, quando Marco Barbosa, hoje com 25 anos, estava fazer a tese do mestrado em informática, na Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, sobre o tema da web 2.0 e do comércio electrónico. “Percebi que havia uma lacuna no comércio electrónico”, explicou numa entrevista ao PÚBLICO. “Funcionava da mesma maneira que há dez anos”.
Feita a tese, começou à procura de pessoas para executar a ideia de um sistema de comércio online que tirasse partido das redes sociais e decidiu lançar o projecto com outros dois informáticos que também tinham estudado na UTAD. Rui Ramos e Miguel Vieira, ambos com 29 anos, tinham criado uma empresa de desenvolvimento web e alojamento de sites. Mais tarde, juntou-se Afonso Barbosa, um designer de 42 anos com uma formação em matemática e ciências da computação. É um dos fundadores da tecnológica Edigma, que entretanto abandonou. O estilo informal e o entusiasmo com que fala dos projectos que tem em mãos fazem com que pareça encaixar-se melhor numa start-up do que numa empresa com mais de dez anos no mercado. A start-up por trás do Bewarket funciona na incubadora do Instituto Empresarial do Minho, em Vila Verde, poucos quilómetros a norte de Braga.
O Bewarket é uma aplicação para o Facebook. Funciona como um site de classificados dentro da rede social e a equipa diz que a concorrência em Portugal são sites como o OLX e o Custo Justo, embora o objectivo seja chegarem ao mercado global. É possível procurar objectos por categorias e entrar em contacto com o vendedor para acertar a transacção. Mas, esperam os criadores, o facto de por trás de cada objecto estar um perfil ajudará a que os utilizadores tenham mais confiança.
Para além disto, o serviço contempla um sistema de venda por intermediários, que até pode acabar por embaratecer o produto. Quem coloca um item no Bewarket tem a opção de deixar que outros utilizadores façam a venda – aproveitando assim o efeito multiplicador das redes de contactos – e pagar-lhes uma comissão. Se alguém colocar um telemóvel à venda por 100 euros, pode, por exemplo, oferecer uma comissão de dez euros a quem consiga encontrar um comprador. Este revendedor, por sua vez, poderá optar por estreitar a sua própria margem e tornar o objecto mais barato. Neste exemplo, o revendedor teria sempre de entregar 90 euros ao dono do objecto, mas pode decidir ficar apenas com cinco euros de comissão e assim conseguir vender o aparelho por 95 euros.
No futuro, a aplicação também contemplará a possibilidade de trocas directas. “O Bewarket foca-se nas relações entre as pessoas”, diz Marco Barbosa. “Tentamos trazer para a Internet a essência dos velhos mercados”.
Visita a Silicon Valley
O projecto foi lançado em versão experimental em Fevereiro de 2012 e aquilo a que na gíria se chama uma “versão estável” estava no ar em meados do ano. Em Outubro, a equipa estava a fazer as malas para voar para Silicon Valley.
O Bewarket ganhou um concurso promovido pela Associação Industrial do Distrito de Aveiro. O prémio era a participação de Marco Barbosa num programa nos EUA que envolvia sessões de aprendizagem e três meses de trabalho numa incubadora. Decidiram desembolsar o dinheiro para mais duas viagens e foram três dos quatro sócios. Da experiência, dizem ter trazido aprendizagens sobre como fazer apresentações a investidores e sobre a importância de se focarem em desenvolver bem um número reduzido de funcionalidades.
O objectivo passa agora por conseguir 300 mil euros em capital. É preciso dinheiro para continuarem a desenvolver o Bewarket e as receitas do site são ainda “residuais”. Apenas ganham dinheiro com uma comissão sobre as vendas que forem feitas com recurso ao sistema PayPal - mas esta é uma forma de pagamento pouco usada em Portugal, observam.
Actualmente, a aplicação ronda os 20 mil utilizadores, e conquista uma média de 300 novos por dia. A meta é chegar a um milhão ao longo dos próximos dois anos. Foi outra das lições que trouxeram de Silicon Valley: se chegarem ao milhão de utilizadores, conseguem a atenção de quem tem dinheiro para investir.
Artigo corrigido: o concurso ganho pelo Bewarket foi promovido pela Associação Industrial do Distrito de Aveiro, não do Minho, como estava escrito.

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