Vendas de antidepressivos aumentam quase 7% nos primeiros oito meses deste ano

Os antidepressivos são usados para controlar a ansiedade numa situação de crise Foto: Miguel Madeira

Casos depressivos relacionados com a crise estão a crescer, mas solução não está só nos remédios, afirma psiquiatra.

Parece uma contradição, mas não é: as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor continuam a aumentar em Portugal, mas os gastos com estes tipos de medicamentos estão a baixar de forma expressiva. Os dados da consultora IMS Health indicam que nos primeiros oito meses deste ano se venderam cerca de 620 mil embalagens deste tipo de medicamentos por mês, em média, mais cerca de 40 mil do que em 2011. Um aumento de quase 7%. Pelo contrário, os gastos com estes medicamentos baixaram de uma média de 8,3 milhões de euros por mês no ano passado para 7,4, de Janeiro a Agosto deste ano.

A enfrentar uma grave crise social e económica, os portugueses estarão a refugiar-se cada vez mais nos antidepressivos? Os psiquiatras contactados pelo PÚBLICO não querem arriscar explicações, porque esta é uma matéria complexa e porque a tendência de crescimento nas vendas de antidepressivos já se verifica desde há alguns anos em Portugal. Uma coisa é certa: "Há muito mais casos de depressão relacionados com a crise", afirma o psiquiatra Pedro Afonso, do Hospital Júlio de Matos (Lisboa), para quem o aumento da venda de antidepressivos constitui, em simultâneo, "uma boa e uma má notícia". Uma boa notícia porque significa que há mais pessoas a necessitar de tratamento que estão a ser tratadas, e uma má notícia porque o problema das "depressões reactivas" (originadas pela situação de crise) "não se trata apenas com remédios".



Pedro Afonso lamenta, a propósito, que os ministérios da Saúde e da Solidariedade e Segurança Social ainda não tenham delineado um plano de prevenção para os problemas de saúde mental (como o aumento do suicídio) decorrentes da crise.

"O aumento do consumo de antidepressivos tem sido progressivo e esse fenómeno não se verifica apenas em Portugal", acentua Maria Luísa Figueira, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM). "À partida", estes dados podem significar que há mais pessoas a ser tratadas, sublinha também.

Luísa Figueira, que é chefe de serviço no Hospital de Santa Maria (Lisboa), atesta igualmente que se notam já alguns reflexos da crise: as pessoas andam "mais preocupadas, ansiosas", recorrem mais aos serviços de saúde públicos por terem dificuldade de pagar consultas privadas.

A psiquiatra nota ainda que os antidepressivos são usados, e bem, para controlar a ansiedade que aumenta mais do que a depressão numa primeira fase de uma situação de crise. Numa fase posterior, quando as pessoas perdem o estatuto profissional, o emprego, a casa, evoluem já para aquilo que se designa na gíria como estados depressivos. "Há várias depressões", frisa a médica. "Sempre que há grandes crises, há problemas psiquiátricos", acrescenta António Pacheco Palha, presidente da SPPSM. "Os antidepressivos não resolvem os problemas, mas ajudam. As pessoas adaptam-se melhor", diz.

Há ainda outro factor que pode ajudar a explicar o crescimento das vendas. Há dois anos, quando a comparticipação estatal deste tipo de fármacos baixou de 69% para 37%, muitos doentes queixaram-se de dificuldades na compra de medicamentos, mas, com a introdução de genéricos e a baixa sucessiva de preços, o acesso passou a estar mais facilitado.

Hoje, a SPPSM vai divulgar, em Lisboa, um estudo sobre a percepção que os portugueses têm sobre a depressão.

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