Rui Pedro Soares suspeita que Ongoing interferiu no inquérito PT/TVI

Rui Pedro Soares pediu para ser assistente no processo das "secretas" Foto: Rui Gaudêncio

Rui Pedro Soares, ex-administrador executivo da PT e militante do PS, suspeita que a Ongoing possa ter interferido na comissão de inquérito ao negócio falhado da compra da TVI pela PT, tentando que os deputados do PSD e do CDS concentrassem as atenções em si, de forma a minimizar o envolvimento da Ongoing, um dos maiores accionistas da PT, onde detém 10% do capital. Por isso e porque duas fontes diferentes lhe garantiram que aparecem referências ao seu nome no "caso das secretas", Rui Pedro Soares pediu para se constituir assistente neste processo.

Contactada pelo PÚBLICO, uma fonte ligada ao processo garante que não existem elementos com relevo sobre o ex-administrador da PT. Formalmente, Rui Pedro Soares não fundamentou o pedido que entregou no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa e também se recusou a explicar ao PÚBLICO por que quer apoiar a acusação no "caso das secretas", liderada pela mesma procuradora que o acusou de corrupção no processo Taguspark. Em casos que envolvam crimes de corrupção, como o das secretas, a lei penal prevê que "qualquer pessoa" se possa constituir como assistente.

Fontes próximas do ex-administrador confirmaram isso mesmo ao PÚBLICO, tendo uma delas realçado a "agressividade" com que o então deputado do PSD Agostinho Branquinho, um dos rostos da comissão de inquérito, tratou Rui Pedro Soares no Parlamento, tendo uns meses depois renunciado ao mandato de deputado para integrar a Ongoing Brasil. Nessa altura, foram também recordadas as fortes críticas do então deputado social-democrata à linha editorial das publicações da Ongoing, em especial do Diário Económico.

Na comissão de inquérito foram ainda ouvidos o presidente da Ongoing, Nuno Vasconcellos, agora acusado de corrupção activa no "caso das secretas", e Rafael Mora, vice-presidente da Ongoing.

Ex-espião quer jornal fora

O ex-director do SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa) Jorge Silva Carvalho pediu ao Ministério Público que não seja permitido que a directora do PÚBLICO, Bárbara Reis, continue como assistente do processo e que recuse o pedido de instrução do processo feito pelo jornal.

De acordo com o requerimento que entregou no DIAP, o advogado de Jorge Silva Carvalho defende que a constituição de Bárbara Reis como assistente "carece de qualquer fundamento legal" porque a direcção do jornal "não pode considerar-se ofendida". E argumenta ainda que só a administração, e não a direcção, tem legitimidade para representar o jornal. Se no início das investigações se equacionou a eventual prática do crime de atentado contra a liberdade de imprensa, lembra a defesa do ex-espião, "a realidade, hoje, é necessariamente outra". O despacho de arquivamento e acusação não equaciona tal caso, já que a investigação acabou por dar outro rumo ao caso - este crime nem sequer é mencionado nesse despacho.

Esse argumento está também ligado ao assunto do pedido da instrução do processo feito pelo PÚBLICO: Silva Carvalho defende que o pedido feito por Bárbara Reis não menciona o crime de atentado à liberdade de imprensa, que seria a razão pela qual se constituiu assistente. O jornal pede a instrução do processo para que Nuno Dias e Gisela Teixeira sejam submetidos a julgamento pelos crimes de "acesso ilegítimo agravado" e "acesso indevido a dados pessoais e violação do segredo profissional".

Neste processo também se constituíram assistentes a operadora Optimus, o jornalista Nuno Simas e o jornalista da revista Sábado António Vilela. Porém, Jorge Silva Carvalho apenas fez este pedido de exclusão de assistente em relação à directora do PÚBLICO.

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