Representante do Vaticano interrogou Ordem sobre abusos

D. Jorge Ortiga conta que numa reunião com Catalina Pestana lhe disse "que, se tivesse casos concretos, os denunciasse".

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Em 2010 uma mensagem de correio electrónico não identificada era enviada para cerca de 300 endereços de e-mail e denunciava abusos sexuais e outras irregularidades alegadamente cometidas por membros da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, em Portugal.

A 8 de Setembro desse ano, o PÚBLICO noticiava que estava a decorrer uma investigação interna que envolvia um religioso de 49 anos. Ño sábado, o Expresso deu conta de que o núncio apostólico em Lisboa, D. Rino Passigato, terá, ele próprio, em 2011, interrogado vários membros da Ordem. 

Um segundo inquérito, ainda em 2011, terá sido conduzido por um enviado do Vaticano, o responsável máximo da Ordem em Roma, Donatus Forkan.

O Ministério Público estará a investigar suspeitas de abusos sexuais de doentes mentais, entre os quais um menor, diz o Expresso – José Augusto Louro, responsável pela Ordem que tem oito unidades hospitalares, entre as quais a Casa de Saúde Mental do Telhal, Sintra, conta que várias pessoas já foram interrogadas. Mas recusa todas as acusações. 

O PÚBLICO tentou confirmar se o processo continua em aberto, junto da Procuradoria-Geral da República (PGR), sem sucesso. 

Depois da denúncia para os 300 endereços de e-mail, a Ordem pediu orientações à cúria geral dos hospitaleiros, no Vaticano, sobre como deveria lidar com as suspeitas. Na altura, Setembro de 2010, Augusto Louro dizia ao PÚBLICO que a informação de que poderia ter havido uma situação de assédio a um dos doentes acontecera em Julho. E que o caso não tinha sido comunicado às autoridades policiais porque não havia uma queixa formal. "Ninguém viu nada, o testemunho de quem faz a acusação é a partir do que os doentes contaram." No s+abado, Augusto Louro não esteve em casa durante o dia e não foi possível chegar à fala com ele.

Este caso é um dos que a Rede de Cuidadores – associação fundada pela ex-provedora da Casa Pia de Lisboa, Catalina Pestana, e pelo coordenador do plano nacional de saúde mental, o psiquiatra Álvaro de Carvalho –, referencia como exemplo de abusos em instituições da Igreja. Mas a Rede diz que há mais.

Em 2010, enquanto presidente da associação, Álvaro de Carvalho enviou cartas a D. Jorge Ortiga, então presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, e a D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, nas quais sugeria uma conversa: "Para falar sobre denúncias que nos têm chegado", explicava.

D. Jorge Ortiga recebeu Catalina Pestana e Álvaro de Carvalho já em 2011. "Falámos de várias situações, não foi em pormenor, mas oferecemo-nos para ter mais reuniões", diz o psiquiatra que já esclareceu ao PÚBLICO que os casos que tinha para falar não eram "casos recentes, eram casos antigos". Deviam, contudo, ser assumidos: "Achámos que a Igreja devia retractar-se como estava a retratar-se em todo o mundo."

D. Jorge Ortiga, que sempre tem confirmado que recebeu, de facto, a Rede, mas sem adiantar pormenores, disse no sábado à Lusa: "Disse-lhe [à Catalina Pestana] claramente que, se tivesse casos concretos, os denunciasse, os apresentasse aos bispos locais." E rematou: "A Igreja olha para isto com perplexidade e gravidade, mas naturalmente tem as suas limitações e continuará lutando contra as suas fragilidades." 

No fim-de-semana passado, a comentar a detenção de um padre suspeito de abusar sexualmente de alunos do Seminário Menor do Fundão, Catalina Pestana afirmou que só na diocese de Lisboa conhece cinco casos de pedofilia. A PGR já pediu um inquérito.

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