Reportagem: Um desfile de histórias enquanto se espera a decisão da juíza

Os óculos escuros e as ligaduras na cabeça eram marcas exibidas pelos manifestantes detidos pela PSP Rui Gaudêncio

Era uma greve. Era uma manifestação. Acabou por ser algo completamente diferente para muitos do que na quarta-feira se juntaram à porta do Parlamento. Segundo a polícia, 21 pessoas foram detidas para identificação. Segundo os manifestantes, foram centenas. E nove delas (constituídas arguidas) passaram nesta quinta-feira pelo Campus da Justiça, em Lisboa, para serem ouvidas.

Enquanto aguardavam no tribunal, estes noves homens iam contando as suas histórias aos jornalistas. Como foram detidos, o pânico, as bastonadas, a noite que ficou por dormir.

Durante toda a manhã, um jovem de 21 anos não tirou os óculos escuros que escondiam um hematoma num olho. Foi uma bastonada que levou quando foi detido, que lhe deixou também um dente partido. Não nega que tenha atirado pedras aos polícias. Nem pode. Está tudo registado nas imagens recolhidas pela polícia durante o protesto em frente ao Parlamento.

Mas o pior não foi aí, foi na esquadra do Calvário, para onde foi levada a maior parte dos arguidos, conta. "Quando fui à casa de banho mandaram-me despir por causa de uma moeda de 20 cêntimos, eu disse que não tinha mais nada nos bolsos." Depois os agachamentos, as ordens para tossir. Ninguém estava a ver.

"Bateram-me nos rins, na nuca... Estavam furiosos comigo, apareci muito nas filmagens, a atirar pedras." O estudante conta que um dos agentes estava encapuzado - uma informação confirmada por outros jovens que estavam na mesma esquadra.

Mais nenhum foi agredido. Mas as queixas de maus tratos não acabam aqui. Um sindicalista reformado que esteve na mesma esquadra contou que foram muitas as agressões verbais aos mais novos. Um outro jovem, um artista plástico que participou na manifestação com a namorada, que não foi detida, mostrava os dedos, por onde tinha sido algemado, em vez dos pulsos: "Vou-te algemar assim que é assim que eu gosto." E apertaram tanto que deixou de sentir os dedos, que no dia seguinte continuavam roxos, marcados.

Um outro estudante de 23 anos queixava-se que tinha sido detido apenas por estar a filmar a polícia a carregar nos manifestantes. Sacudiram-lhe o braço, o telemóvel foi parar ao chão. Depois levaram-no e disseram que também ele tinha atirado pedras e garrafas aos agentes do corpo especial de intervenção da PSP, que impedia os manifestantes de avançarem escadaria acima.

Ao lado destes jovens havia também homens mais velhos, reformados. Um deles, antigo jardineiro na Câmara de Loures, tinha estado com os "camaradas" da CGTP nos piquetes de greve, horas antes de decidir atirar pedras aos polícias. E conta isto com um certo orgulho - as pedras eram "como bolas de pingue-pongue". Conta que um agente lhe disse que tinha idade para ser seu avô e que da parte dele estava perdoado.


Os noves arguidos

Durante os protestos de quarta-feira nove pessoas foram detidas e constituídas arguidas. Entre jovens estudantes e reformados sindicalistas, há os que admitem ter arremessado objectos contra a polícia, mas também quem parece ter apenas estado no lugar errado à hora errada. Um deles não quis falar. Aos outros, retiámos os nomes. Estas são as suas histórias, conforme eles as contaram.

Artista plástico, 27 anos
Nunca tinha estado numa manifestação, mas achou que não podia ficar em casa mais uma vez e foi com a namorada. Correu mal. Quando a polícia começou a carregar tentaram fugir. Já na Av. D. Carlos I pararam e entre o caos os polícias agarraram-no, deram-lhe bastonadas na cabeça. Passou horas num hospital, acompanhados de vários agentes e de um advogado.

Estudante, 23 anos
Estava só a filmar. O protesto, a polícia a carregar nos manifestantes. Um agente sacudiu-lhe o braço, o telemóvel foi parar ao chão. Na esquadra voltaram-lhe a pôr a máscara dos Anonymous que tinha na manifestação. Só para a fotografia, algemado.

Desempregado, 32 anos
Está sempre em todas as manifestações. E há-de estar "até que este Governo caia". Conta que ao ver os agentes prepararem-se para agredir um conjunto de "miúdos da universidade" estendeu as mãos: "Levem-me a mim". Foi parar ao chão, à bastonada. Ligaram-lhe a cabeça ainda junto a São Bento e levaram-no para uma esquadra.

Estudante e trabalhador, 21 anos
Atirou pedras aos polícias. Não tem como negá-lo: sabe que lhe conhecem a cara e está bem identificado nos vídeos. Quando tentava fugir dali apanharam-no e uma bastonada na cara deixou-o com um hematoma num olho e partiu-lhe um dente.
 

Jardineiro reformado, 64 anos
Sindicalista, esteve na manifestação com a CGTP. Também atirou pedras e di-lo a toda a gente. Sem medo, com um certo orgulho até. Prenderam-lhe mas não lhe bateram. Um agente disse-lhe que tinha idade para ser avô dele.

Informático, 31 anos
É o único estrangeiro entre os detidos. "Não sou violento, sou um verdadeiro budista", repete ainda perturbado com o que aconteceu. Foi à manifestaçao como faria no seu país, Itália, ou em qualquer lugar onde haja um protesto.

Desempregado, 28 anos
Não participou na manifestação. Conta que descia uma rua em direcção a São Bento justamente quando tudo aconteceu. "Vi um polícia com uma arma apontada em direcção a mim, entrei em pânico e reagi. Nem sei o que atirei: se uma pedra, uma garrafa ou uma banana." Foi detido muito depois, já junto ao Cais do Sodré.

Reformado da marinha mercante, 65 anos
Durante a noite esteve com a CGTP nos piquetes de greve. Conta que foi detido depois de ter atirado uma garrafa de cerveja de litro para o lado quando se preparava para fugir da confusão, perto da Fundação Mário Soares.

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