Quem o vai atender no Natal se precisar de ir às urgências?

Há actividades que nunca podem ser interrompidas. Para os profissionais de saúde, tanto o dia de Natal como a véspera de Ano Novo são dias iguais aos outros. O PÚBLICO falou com quatro dos que nos dias 24 e 25 vão estar nas urgências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

A doença não escolhe épocas e pelas urgências do Hospital de Santa Maria passam cerca de 500 pessoas por dia. Nesta altura do ano, surgem sobretudo casos graves.

Daniel Santos, 30 anos, enfermeiro: "As famílias estão ainda mais sensíveis nesta altura do ano"
É sempre com um sorriso e várias solicitações que Daniel Santos percorre as urgências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde trabalha há sete anos e meio. Se pudesse escolher, não trocava o trabalho no serviço de urgência por nenhum outro: "Gosto muito, é muito dinâmico e com equipas jovens. Gosto de estar aqui pelo tipo de doentes e de patologias muito diversas, pois ganhamos muita experiência e dinâmica."

Nos anos que leva de profissão, este enfermeiro já perdeu a conta aos dias de Natal e de Ano Novo que passou longe da família. Este ano, entra ao serviço às 15h de dia 24 e só sai perto das 8h30 de dia 25. "No primeiro Natal que trabalhei vivi tudo com muita intensidade. Foi o primeiro Natal que não passei com a minha família na Guarda, mas vim com muito entusiasmo, pois as relações pessoais permitem ultrapassar a saudade da família. Agora já é um bocadinho diferente e claro que gostava de estar em casa, mas a profissão é mesmo assim. Vimos trabalhar um pouco melancólicos, mas quando cá chegamos isso dissipa-se."

Consoante o turno, vão estar 16 a 17 enfermeiros, mas o trabalho é tão absorvente que Daniel Santos garante que nem sempre é fácil lembrarem-se de que é Natal. Num dos turnos, coordena a equipa de enfermeiros e auxiliares, insistindo com todos na importância da comunicação. No outro estará na triagem, na sala de reanimação ou no serviço de observações. "Nunca esquecemos a parte dos doentes que estão aqui nem a família, com necessidades ainda mais agudizadas nesta altura do ano e com muita necessidade de informação. As famílias estão ainda mais sensíveis, porque há muitas situações agudas e repentinas. Apesar de tudo criamos algumas relações momentâneas que nos permitem vivenciar o espírito de Natal de forma muito curta."

Daniel não esquece, sobretudo, o "lado social": "No primeiro Natal que fiz atendi um senhor que tinha caído das escadas e cujas necessidades que tinha eram muito mais do que médicas. Estava completamente sozinho. A componente social é cada vez mais um das nossas dificuldades."

Em contraponto estão os que fazem questão de voltar com uma palavra de agradecimento: "Às vezes, os familiares ou os próprios aparecem aqui a agradecer, porque só estiveram uma hora comigo mas têm noção de que foi naquela hora que as coisas se decidiram. Acaba por ser isso que nos move. Passamos aqui muito tempo da nossa vida e acabamos por não estar com a nossa família de sangue mas as relações que se estabelecem aqui também são especiais."

Inês Garrancho, 25 anos, técnica de cardiopneumologia: "Acho que nunca nos habituamos ao que vemos nas urgências"
Ao fim de dois anos e meio a trabalhar numa das extensões do Hospital de Santa Maria, a cardiopneumologista Inês Garrancho passou para as urgências, onde está quase há um ano. Foi um acaso que acabou por calhar bem. "Nós, técnicos de cardiopneumologia, só fazemos electrocardiogramas e a respectiva interpretação, o que acaba por ser um trabalho monótono. Mas, inserido na urgência, deixa de o ser, pois apanhamos situações que acabam por ser diferentes todos os dias", explica com uma pronúncia alentejana que Lisboa não apagou.

Em média, em cada turno são feitos 60 electrocardiogramas divididos por duas técnicas - números que tendem a aumentar bastante nesta época de Inverno. Existem também outros colegas no hospital ou de prevenção, caso haja necessidade. Dos doentes que acorrem às urgências, cerca de 30% precisam de fazer este exame, na maioria dos casos devido a uma dor torácica ou arritmias, alguns dos sintomas frequentes nos enfartes agudos do miocárdio. "Este ano vou fazer tarde e noite. Entro às 16h de dia 24 e saio às 8h de dia 25. É claro que é sempre aquele dia em que gostávamos de estar em casa, mas já estou habituada ao ritmo e já há duas semanas que ando a tentar combinar um bolinho para termos uma ceia melhorada com esta segunda família."

Inês Garrancho acredita que "quem já trabalhou nos hospitais no Natal" vai sempre lembrar-se de quem lá está nestes dias. Já em relação aos doentes, garante que gosta de ser "simpática todos os dias e não só porque é Natal". "É raro o bocadinho em que estou parada e, nesse sentido, o Natal é um dia como os outros em que tentamos minorar ao máximo o tempo de espera entre o diagnóstico e o tratamento. Mas acabamos sempre por brincar e questionar o que é que trouxe as pessoas aqui numa noite como esta, sobretudo as idosas que precisam de mais atenção e de um dedinho de conversa. Ou os sem-abrigo. Acho que nunca nos habituamos ao que vemos nas urgências, porque é diferente todos os dias. Como é que pode deixar de marcar ver um jovem com uma doença grave que influencia toda a sua vida e em que sabemos que a esperança de vida não é muita?"

Quanto à vida familiar, Inês diz ser bem compreendida. E os turnos já não atrapalham os planos: "O meu namorado é enfermeiro e também trabalha de 24 para 25 noutra instituição e já combinámos tudo. Como ele é de fora de Lisboa, quando sairmos vamos encontrar-nos numa área de serviço para dar um beijinho e trocar as prendas de Natal."

Ana Cristina Mendes, 55 anos, médica pneumologista: "Tentamos que haja televisão na zona de internamento e ceia melhorada"
Foi "o raciocínio rápido e a resolução rápida das coisas, com muito diagnóstico diferencial", que conquistou a pneumologista Ana Cristina Mendes, há 30 anos no Hospital de Santa Maria, a passar há três para a equipa fixa da urgência. Para esta médica, a "grande sensação de utilidade" é outra das vantagens deste tipo de trabalho, "ainda que os doentes nem sempre tenham essa ideia, porque gostariam que as coisas fossem resolvidas mais rapidamente".Ana Cristina Mendes já fez dezenas de datas festivas de banco. Neste ano entra às 20h de dia 24 e sai na manhã do dia de Natal.

O primeiro ano em ficou em Lisboa no Natal, passando-o longe da família de mais de 50 pessoas que sempre se reuniu, foi o que mais lhe custou. Mas ainda hoje é impossível passar por cima da data. "Habituar não me habituo, até porque tenho filhos e família, mas é preciso tratar os doentes da mesma maneira e ainda tentar que haja algum ambiente de festa. Nestes dias tentamos que haja televisão na zona de internamento e uma ceia melhorada. É bom que as pessoas saibam que é uma noite basicamente igual em termos de funcionamento e em que temos quase os mesmos recursos. Sabemos que é preciso trabalhar nestes dias quando escolhemos ser médicos e as pessoas podem sentir-se seguras pois serão atendidas com o mesmo profissionalismo."

No seu turno, a médica vai estar no serviço de observação - uma das zonas da urgência, a par com a sala de reanimação, para onde são encaminhados os doentes em situações mais graves ou que exigem uma maior atenção. Para ali são levados casos como enfartes ou outras doenças cardíacas, doenças respiratórias descompensadas, acidentes vasculares cerebrais ou diabetes - que agravam nesta altura de grandes abusos. Apesar de trabalhar em zonas onde o prognóstico nem sempre é o melhor, Ana Cristina Mendes não perde a noção do impacto das más notícias. "É sempre horrível dizer a alguém que um familiar morreu, mas no dia de Natal é muito mau, pois nós percebemos que aquela família vai levar muitos anos sem ter Natal."

Por outro lado, esta especialista alerta que são também cada vez mais os "idosos que vêm ao hospital por falta de alternativa" e que têm levado a um maior investimento desta unidade no lado social, tentando proporcionar algum "conforto" a estes casos. "Continuo a gostar muito de trabalhar aqui, mas sentimos que as pessoas estão mais apreensivas, porque sabem que a saúde é cara e não sabem em que é que isso se vai traduzir no futuro."

Luís Pinheiro, 40 anos, médicos internista: "Há pessoas que acabam por vir ao hospital precisamente porque é Natal"
Para Luís Pinheiro, todos os dias na urgência devem ser encarados da mesma forma. "Não é por ser Natal que devemos ter uma atitude diferente. É sempre difícil ter um familiar doente. Temos de ter sempre uma enorme sensibilidade e humanismo e no Natal trabalhamos da mesma maneira, com a mesma dedicação e interesse", diz o médico internista, que regressou ao Hospital de Santa Maria em 2005, onde trabalha num dos serviços de medicina, passando rotativamente pelas urgências onde coordena uma equipa escalada semanalmente.

No dia 25 será um dos dez a 12 médicos a trabalhar entre as 8h e as 20h e espera ter uma redução dos casos menos graves. "Nestas épocas festivas e de reunião familiar em que as pessoas tendem a afastar-se um pouco dos serviços de saúde, verifica-se muitas vezes que os casos menos graves e que têm uma situação não tão urgente têm tendência para não vir", justifica. Porém, como os que recorrem às urgências acabam por ser os que inspiram mais cuidados, o turno muitas vezes complica-se. No ano passado, Luís Pinheiro fez a noite de dia 31 e não conseguiu parar nem sequer à meia-noite para entrar no novo ano com a mulher, que também estava de escala num outro serviço.

Também "há pessoas que acabam por vir ao hospital precisamente porque é Natal". E isto porque mesmo que acabem por esperar mais tempo, na realidade nunca estão sozinhas, porque há sempre movimento. "Há cada vez mais situações sociais e há um ponto de solidariedade que se reforça nestes dias. O hospital também tem essa função de proporcionar acolhimento."

Luís Pinheiro garante que as relações estabelecidas com os colegas acabam por compensar este Natal diferente. "Acabamos por funcionar de uma forma coesa e as equipas conhecem-se bastante bem. Reunimo-nos e trazemos alguma ceia com doces de Natal para comemorar esta época com a família do trabalho."

Quanto ao trabalho nas urgências, refere que há um "continuum entre os turnos, em que não se interrompe o processo assistencial". No seu caso, enquanto chefe de equipa, vai circulando pelos vários espaços e cabe-lhe, muitas vezes, comunicar as notícias. No Natal, como noutros dias: "Temos de transmitir a informação com clareza e objectividade. As situações graves não devem ser escondidas. O que as pessoas esperam de nós é profissionalismo e sensibilidade. Mas ninguém se habitua a dar uma má notícia, é antes uma coisa que aprendemos a fazer de uma forma correcta, sensível e profissional."
 
 
 
 

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