Livro escolar tem exercício em que um rapaz larga um gato da varanda

Exercício era destinado a alunos de 14 anos. Físico Carlos Fiolhais descreve-o como "inaceitável".

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O exercício tem como destinatários alunos do 9.º ano de escolaridade e visa testar conhecimentos do tema Movimento e Forças da disciplina de Físico-Química.

A situação de partida descrita no enunciado é esta: “O Diogo largou um gato da varanda do seu quarto, situada a cinco metros do solo”. Pede-se depois aos alunos de 14 anos que indiquem “qual a intensidade da força aplicada ao gato durante a queda” e “o valor da velocidade” com que este chega ao solo.

Esta questão faz parte de um livro de exercícios elaborado para a editora Areal pelos quatro autores que lhe costumam fazer os manuais de Físico-Química do 3.º ciclo. O livro, chamado Zoom, foi distribuído a professores da disciplina para que o avaliassem. O passo seguinte foi rápido: o exercício apareceu estampado na quarta-feira numa página de Facebook e foi replicado depois por uma série de blogues, dando origem a um coro de protestos, que já teve efeitos.

“Este exercício não vai constar da versão destinada aos alunos”, garantiu ao PÚBLICO um dos responsáveis da editora, Diogo Santos, acrescentando que, por enquanto, “o livro foi só distribuído a professores, não se encontrando ainda à venda”.

A sua comercialização estava prevista para Agosto e provavelmente o exercício do gato continuaria a figurar na página 30 se não fosse o alerta entretanto gerado. “O livro foi revisto por três pessoas e ninguém se apercebeu da situação”, justificou Diogo Santos.

Ao contrário do que sucede com os manuais escolares, os livros de exercícios e cadernos de actividades que habitualmente os acompanham não precisam der ser validados pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC). Em resposta ao PÚBLICO, o MEC faz saber, contudo, que “não se identifica com o teor do exercício apresentado, do qual não tinha conhecimento, e que não respeita os valores fundamentais da nossa sociedade”.  

A editora publicou nesta quinta-feira um pedido de desculpas na sua página de Facebook, entretanto também invadida por uma série de protestos. “É um exemplo infeliz, que em nada se coaduna com a nossa postura (…) O ser humano, por melhor que possa ser, também erra. O importante é que o erro cometido possa contribuir para melhorar tudo o que fazemos”, afirma-se no post colocado pela Areal.

Em declarações ao PÚBLICO, o físico Carlos Fiolhais, que também é autor de manuais escolares, considera que o exercício “é, por razões éticas, inadmissível do ponto de vista didáctico”. “Não se devem fazer experiências desse tipo com animais, uma vez que estes têm direitos”, especifica.
 
Fiolhais explica que o enunciado proposto nada tem a ver com o que é descrito no problema do “gato que cai”, um clássico da física onde se tenta perceber “por que razão os gatos caem normalmente com os pés para baixo depois de darem várias voltas”. “Para a disciplina em causa e para o nível etário em causa, qualquer objecto pode servir para exemplo. Dar um exemplo de ‘lançamento de um gato’ é inteiramente inaceitável”, conclui.

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