Como se trava a perda de meio milhão de jovens? Com emprego

População até aos 30 anos representa um terço dos desempregados e metade dos emigrantes permanentes do país, revela INE na véspera do Dia Internacional da Juventude.

A perda de meio milhão de jovens residentes verificada na última década foi acelerada pela emigração. Sociólogos consultados pelo PÚBLICO e um representante do Conselho Nacional de Juventude (CNJ) coincidem nessa análise face aos dados revelado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que mostram que os habitantes entre os 15 e os 29 anos nunca tiveram um peso tão pequeno na população nacional.

As opiniões de jovens e de especialistas também coincidem numa possível solução: só criando emprego será possível travar esta tendência.

Os indicadores compilados pelo INE para assinalar o Dia Internacional da Juventude, que se assinala terça-feira, mostram que os habitantes entre os 15 e os 29 anos valem 17% do total de residentes no país, o número mais baixo desde que há estatísticas oficiais. Este dado é fruto da perda de quase meio milhão de pessoas registada ao longo da última década – como tinha sido revelado pelos Censos de 2011. Os dados “alimentam a sensação de que todos os anos perdemos milhares de jovens”, afirma a presidente do CNJ, Joana Lopes.

Para os especialistas contactados pelo PÚBLICO, há dois factores decisivos: a quebra demográfica, verificada na geração dos pais destes jovens, e a emigração, em crescimento nos últimos anos. “São essas duas tendências que explicam este resultado”, afirma o vice-coordenador do Observatório Permanente da Juventude da Universidade de Lisboa, Vítor Sérgio Ferreira. Esta combinação resulta num “cenário muito perigoso para o país”, que devia “fazer soar muitas campainhas”, avalia por seu lado Pedro Góis, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que se tem dedicado ao tema das migrações.

Se o envelhecimento da população é uma tendência “que já se vivia desde os anos 1980”, lembra Vítor Sérgio Ferreira, a perda de habitantes no país na faixa etária até aos 30 anos foi “acelerada pelo fenómeno da emigração”, argumenta. E esta é uma realidade que é uma “novidade”, sobretudo “pela sua escala”, acrescenta Pedro Góis.

Segundo o INE, em 2012, emigraram 53 mil jovens de Portugal. Destes, cerca de 26 mil fizeram-no de forma permanente, o que representa metade do total de emigrantes permanentes que nesse ano deixaram o país. A relevância dos jovens neste contingente aumentou 14,5 pontos percentuais face ao ano anterior. No mesmo período houve ainda 27 mil jovens que emigraram de forma temporária (39% do total nacional).

“Mas não só os números que nos falam. Todos nós temos familiares e amigos constantemente a sair de Portugal”, prossegue Joana Lopes. Essa realidade é “consequência da fase económica que o país está a atravessar”, considera.

A análise é validada por Pedro Góis e Vítor Sérgio Ferreira e os dados do INE apontam no mesmo sentido. Esta geração representa 32% dos desempregados em Portugal. Na população empregada, a participação deste grupo etário é bastante mais reduzida, representando apenas 15,5% do total. Assim, a taxa de desemprego dos jovens dos 15 aos 29 anos é de 26,3%, quase o dobro da taxa de desemprego total (14,8%).

Ganham cada vez menos
Ainda no mercado de trabalho, o INE mostra como os jovens ganham cada vez menos em comparação com outros grupos etários, quando trabalham por de outrem. O rendimento salarial médio mensal líquido da actividade principal dos jovens trabalhadores foi, em média, entre 2011 e 2013, inferior em 23,2% ao da generalidade dos trabalhadores por conta de outrem. Enquanto a população com menos de 30 anos ganha 622 euros, os colegas mais velhos recebem 810. “Esta diferença tem vindo a agravar-se sucessivamente desde 2002”, sublinha o relatório divulgado pelo INE, indicando que há uma década a diferença salarial média era de apenas 13,5%.

As dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e as desigualdades para aqueles que conseguem ter emprego contribuem, em parte, para outra realidade patente nas estatísticas oficiais: um quarto da população entre 16 e 24 anos encontra-se em risco de pobreza. De acordo com o INE, cerca de 25,6% dos jovens desta faixa etária residia em agregados familiares com um rendimento abaixo do limiar de pobreza.

Os dois sociólogos ouvidos pelo PÚBLICO concordam, por isso, que a primeira resposta tem de surgir no campo económico, sobretudo no mercado do trabalho.

“São precisas medidas de incentivo ao emprego jovem”, defende Pedro Góis. Mas, alerta o investigador da Universidade de Coimbra “não pode ser um emprego qualquer”: “Se a oferta que exista for de salários muito baixos, eles vão-se embora na mesma”.

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