"O filho da porteira gostava muito de crianças, demasiado..."

Conteúdos nos computadores de R. levaram-no à prisão Foto: Fred Dufour/AFP

Começou a violar o filho quando este tinha oito. Violou pelo menos seis crianças da rua onde vivia. A PJ apurou 160 mil crimes.

Remontam a 2001 os primeiros rumores soprados à Polícia Judiciária (PJ), ainda que de modo anónimo, acerca dos delitos atribuídos a R., um homem de 52 anos que, desde Fevereiro deste ano, se encontra preso sob suspeita de ter cometido crimes de pedofilia. Quase 160 mil crimes, de acordo com a actual legislação, que já penaliza a posse, a troca e a comercialização de imagens. Esta é a história de um zé-ninguém, de uma velha e pacata rua de Lisboa, que passou anos a violar as crianças da vizinhança depois de, há mais de duas décadas, já ter feito o mesmo ao filho.

"O filho da porteira gostava muito de crianças, gostava demasiado de crianças...", diz a empregada de um café na Rua dos Arneiros, no Bairro de Benfica, Lisboa, quando o PÚBLICO pergunta se conhecia o homem. Era naquele estabelecimento que R. - desempregado quando foi detido, mas que trabalhara como informático e que dizia ter sido funcionário de um conservatório de música - se encontrava com algumas das crianças que terá violentado, filmado e fotografado. A PJ contabiliza quase 160 mil crimes que equivalem à posse, cedência ou comercialização de cada uma das imagens das crianças abusadas, seja vídeo ou fotografia.

"Os miúdos gostavam dele. Pagava-lhes doces e até almoços", diz uma outra funcionária, mãe de uma menina que quase foi vítima de abuso sexual em 2008. "Deixei a minha filha [na altura com três anos e meio] com uma moça que morava no prédio dele. Ela teve de sair e deixou a minha filha com o vizinho [o suspeito]. Mais tarde, quando fomos buscá-la ele tinha-lhe passado pomada [no sexo]...", contou a mãe, afirmando ainda que, apesar deste episódio, nunca participou o caso à polícia.

Estava-se em 2008 e, por essa altura, na Rua dos Arneiros, apesar de há muito se falar do comportamento estranho de R, nenhuma investigação séria fora desencadeada. Foi então que em algumas paredes dos prédios e casas térreas da zona surgiram escritas as primeiras frases que ameaçavam tornar pública a suspeição do crime. R., que desde o episódio com a menina se sentia perseguido, pediu satisfações a um familiar da empregada do café. Ficou a tensão.

A descoberta dos crimes [ou pelo menos de parte deles: o material pornográfico armazenado em computadores] haveria de se consumar em Fevereiro do ano passado. Nessa ocasião, seguindo as pistas fornecidas, ainda em 2010, por um menor que confidenciou as violações a um psicólogo, "três inspectores da Judiciária foram a casa dele [do suspeito], quando eram sete da manhã, e só já saíram de lá quase ao meio-dia", continua a mesma mulher que não quis ser identificada. O PÚBLICO confirmou junto de fonte da PJ.

Negócio de milhares

Na Rua dos Arneiros - salpicada de pequeno comércio, prédios antigos e ainda um grande número de casas térreas, sobreviventes dos finais do século XIX, época em que o actual bairro de Benfica era um imenso conjunto de quintas -, os crimes de que R. é acusado são comentados à boca pequena. "Educado", dizem uns. "Educado até de mais", retorquem outros. Um "porcalhão", sentenciam os mais radicais, ao mesmo tempo que clamam pela "justiça feita pelo povo": "As partes cortadas com uma faca de matar os porcos" e "uma corda bem grossa à volta do pescoço" são as sugestões de duas idosas.

Acolhidas à sombra minguada de uma casa térrea, três mulheres, também elas preocupadas em ocultar a identidade, fazem uma descrição sumária do suspeito: "Muito magro, com uma barba grande e o cabelo sujo", diz uma. "Mas era educado. Tratou sempre da mãe enquanto esteve doente", acrescenta outra. "Eu lembro-me de, quando a mãe morreu, queriam pô-lo fora do prédio [a mãe era porteira], mas depois tiveram pena", remata a terceira.

Também falam do filho do suspeito, referindo-se ao mesmo como "o rapaz de preto que de vez em quando vinha aí". O filho de R. é uma peça fulcral no processo. O Correio da Manhã dizia, ontem, que foi ele quem entregou à PJ uma caixa contendo filmes e fotos que incriminam o pai. Porquê? Porque terá ele próprio sido abusado sexualmente quando tinha oito anos.

A história de R. foi dada à estampa poucos dias após a polícia ter impedido que o prazo de prisão preventiva de seis meses expirasse. Tendo em conta as provas apresentadas, o informático, que chegou a explorar uma loja na Travessa da Cruz da Era, bem próxima do local onde residia, a PJ conseguiu provar ao Ministério Público que o suspeito não só violava as crianças - com idades entre os três e os dez anos -, como fotografava e filmava as cenas. As imagens eram depois trocadas ou vendidas com outros pedófilos que utilizam os meios informáticos para fazer os respectivos negócios.

Fontes policiais referem que a cedência informática de material pornográfico inédito é uma das exigências de algumas das redes internacionais que se dedicam a este crime para acolher novos membros. Mais tarde, já com acesso a imagens facultadas por outros elementos, muitos dos pedófilos investigados dedicam-se à venda dos conteúdos. Dez anos depois, R. foi apanhado por causa do conteúdo dos seus computadores.

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