Natal é onde um português quiser

Leitores do PÚBLICO que estão fora do país contam como passam esta época noutras paragens.

Guida nunca entendeu como é que alguém consegue fazer das panquecas o prato principal da noite de Natal. Para Bas, o marido holandês com quem vive em Delft, estranhos são os portugueses que só sabem “comer e falar de comida”.

Guida espera que as tias vindas de Portugal a salvem das panquecas neste que é o segundo Natal passado na Holanda, onde vive há dez anos. “Vão certamente cozinhar o bacalhau que trouxeram na mala juntamente com as couves vindas da quinta do meu pai”, dizia há dias num email. Depois também tem de haver o cabrito e o peru, mas isso já se compra num talho em Delft. Guida, de 38 anos, conseguiu reunir toda a família, espalhada pela Europa. Ao todo 12 adultos e cinco crianças. Que chegam de Lisboa, Madrid, Nice, Berlim e Viena.

O PÚBLICO convidou os leitores que estão fora do país a contarem como vai ser o Natal. Entre os que estão longe da família por opção e aqueles a que a crise obrigou a isso, chegaram-nos emails dos quatro cantos do mundo. De países em que o Natal é celebrado e de outros em que não. Dos que o passam por entre a Neve aos que vivem Dezembro de chinelo e no mar. 

Na Holanda, conta Guida, é no dia 26 que as famílias se reúnem (dizem que é o “segundo dia de Natal”). Para uma família comum, explica, o mais importante é o tempo passado à mesa na conversa, sem preocupações, daí ser habitual comprar-se comida feita ou preparar-se qualquer coisa muito simples. O oposto da azáfama do Natal português.

Com muçulmanos e protestantes
Mafalda Pereira, de 23 anos, trocou Braga por Budapeste há três, para estudar e depois em trabalho. “Vai ser o terceiro Natal longe de casa”, começa.

As saudades apertam, mas sem desespero. Afinal haverá melhor que um Natal multicultural na Hungria? No ano passado entre um grupo de 15 amigos, três eram católicos. Os outros eram muçulmanos e cristãos ortodoxos. Este ano fica menos gente em Budapeste: serão à volta de dez no apartamento de Mafalda. 

A árvore de Natal está pronta, à espera dos convidados, e a lista para as compras está feita: à mesa não faltarão as influências gregas, italianas, eslavas. E as portuguesas. Mas só nas rabanadas, no Vinho do Porto e pouco mais, porque na Hungria “não há grande fartura de peixe. Bacalhau ainda menos”. Se acontecer o mesmo que no ano passado, acabam a noite de 24 a falar todos russo (sem nunca terem falado esta língua antes).
De Inglaterra, outra história de um Natal passado entre amigos. Ruben Vilhena e a família que, desde 2011, vivem entre Reading e Londres, ficam este ano pela primeira vez por terras de sua majestade - a segunda filha nasceu há sete semanas. No dia 23 vão à igreja que habitualmente frequentam, para um musical de Natal. O dia 24 vai ser passado em família e à mesa serve-se uma mistura das tradições dos dois países (da cozinha local, mince pies e christmas pudding). 

No almoço do dia de Natal, um pouco de México, com a visita a uns amigos mexicanos que conhecem da igreja. “Vamos experimentar um pouco das tradições deles e vamos também levar comida e doces tradicionais portugueses para eles provarem.” Um verdadeiro Natal multicultural.

Soldado no Afeganistão
Do outro lado do Atlântico, na Georgia, Estados Unidos, há um português que se prepara para voar para a Alemanha. Pedro Marques, engenheiro de materiais, tem a família dividida entre tantos continentes que tivemos de lhe telefonar para conseguir entender o Natal.

Viaja por estes dias para a Alemanha, onde vive o filho de sete anos, com a mãe. Antes disso já deu um salto à Florida para deixar a outra filha, com menos de dois anos, com os avós maternos. A actual mulher de Pedro é soldado norte-americana e foi há uma semana para o Afeganistão, na operação Endurance Freedom. No ano passado, o esquema foi o mesmo, com a diferença de que a Alemanha foi apenas ponto de passagem para trazer o Manuel para um Natal em Portugal, com os avós.

No Natal há os que viajam para encontrar a família que não vêem o ano inteiro e os que fazem exactamente o oposto. Como Lara e Diogo Geraldes, que passam este Natal em Goa, na Índia, a pretexto do casamento de um amigo indiano que conheceram em Londres, onde vivem. Já o fizeram muitas vezes, para outros destinos, de preferência não cristãos. 

“Passamos o Natal fora de Portugal de dois em dois anos. Os nossos pais sempre gostaram de intercalar o Natal tradicional português (entre bacalhau e peru, presentes, Missa do Galo) com um Natal apenas com pai, mãe, irmão e irmã, de preferência onde o Natal seja celebrado de forma diferente da nossa”, explica Lara numa troca de emails. “São destinos que nos obrigam a apreciar a quadra natalícia do ponto de vista familiar, pondo de parte a euforia do consumo.”

Uma família peruana
Também Pedro Silva, que aos 22 anos está a viver no Rio de Janeiro, vai passar estas semanas a viajar. Ele e a namorada, Inês, estão a percorrer, entre 19 de Dezembro e 5 de Janeiro, 12.000 quilómetros de América do Sul. De ônibus e trem. Nos dias 24 e 25 estão a fazer couchsurfing na casa de uma família peruana, que os acolhe para o Natal. 

“Já conseguimos entrar em contacto com eles através do Facebook e estão super-entusiasmados com a nossa visita”, contou Pedro em vésperas de apanhar o primeiro autocarro, de São Paulo para Lima. Do menu da ceia de Natal, Pedro nada sabia ainda. “Não sei também quais são os costumes das famílias peruanas, mas apesar de achar o nosso bacalhau e um bom vinho indispensáveis, com certeza que esta será uma óptima ceia.” Para mais tarde recordar.

Há os que viajam e os que têm tantas saudades que inventam Portugal em tudo. Tiago Granja e a mulher, Sónia, contam que decoraram um pequeno pinheiro bravo que cresce em frente à casa em Dusslingen, perto de Estugarda, na Alemanha, de vermelho e amarelo. 

Fazem tudo por ter um Natal bem português também à mesa. Ainda que admitam não saber muito bem como é que isso se faz. “Vamos tentar imitar as receitas de Natal com que sempre crescemos”, contam num email. “Descobrimos uma loja portuguesa em Reutlingen, a 15 quilómetros, e vamos comprar bacalhau, bolo-rei e vinho tinto e tentar fazer polvo assado no forno, filhoses, broa castelar e sonhos de cenoura.” O que sair bem, diz Tiago, será depois para partilhar com os colegas do trabalho, na pausa do café (eles não parecem totalmente confiantes). 

Natal em Março
O importante para eles é não desistir de cumprir a tradição portuguesa, que “exige que se cozinhe e coma até cair”. As saudades apertam. “Telefonar não é uma opção, enviar cartas ou postais não alivia o peso que se sente no peito”, diz Tiago, que deixou Lisboa há vários anos e, aos 34, trabalha num laboratório de biologia molecular. “Há sempre uma sensação de culpa e frustração de ter deixado o país que não se consegue superar.”

Como João Marçal-Grilo, que passa o segundo Natal seguido na capital do Sri Lanka, Colombo, onde trabalha como voluntário com pacientes de Alzheimer. “Acompanhado ou sozinho, mesmo que de t-shirt e sandálias nos pés, debaixo do sol intenso de Dezembro, sei que é Natal”, diz-nos. É mesmo impossível esquecer-se. “Entre muitas outras palavras, em cingalês Natal diz-se exactamente como em Portugal, um dos muitos presentes que os marinheiros deixaram para trás quando por ali passaram. Talvez confortar este viajante num Natal 500 anos mais tarde?”

Para João Rente Correia, director de unidade de negócio numa empresa de retalho em Angola, este Natal será mais difícil. No ano passado já estava lá, a mulher, Elisabete (e o gato Zeca) também. Este ano está sozinho e a ceia de Natal é um churrasco ao ar livre, com calor e churrasco em vez do bacalhau cozido. João, de 41 anos, tem saudades do frio e da árvore de Natal ao canto da sala, dos passeios à noite pela Rua de Santa Catarina, no Porto, para ver a iluminação de Natal e as montras, o cheiro das castanhas. Em Março, diz, poderá ir a casa e ter finalmente o seu Natal.

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