Saúde

Não confundam depressão com tristeza

Andrew Wong/Reuters

A canadiana Nathalie Blanchard perdeu a baixa médica por ter colocado fotos a divertir-se com os amigos no Facebook. Sofria de depressão, doença incapacitante que também afectou António Ventura, Sandra Jesus e Sandra Gouveia - três portugueses que encararam o suicídio como um escape. Os médicos aconselham a sair de casa.

Motivos para se ter uma depressão? Muitos: mortes, questões sentimentais, conflitos, falta de trabalho, dificuldades familiares, factores genéticos e fisiológicos.

Sintomas de uma depressão? Vários tipos: angústia, tristeza, não conseguir adormecer, não conseguir sair da cama, incapacidade de resolver problemas, dores físicas.

Tratamento de uma depressão? Em sequência: aconselhamento médico, terapia, medicação, espera, vigilância. Sair de casa, apanhar ar, descomprimir, também pode ser recomendado. Foi isso que Nathalie Blanchard fez.

A canadiana de 29 anos foi atingida pela depressão no ano passado. "Foi-me diagnosticada uma depressão em Fevereiro de 2009. Sofri uma sobrecarga de trabalho. Estava a construir uma casa, estava a frequentar o CEGEP (Colégio de Ensino Geral e Profissional do Quebeque) para a IBM [a empresa onde está empregada], além do meu horário de trabalho normal. O cansaço veio à tona o que me conduziu à depressão", disse à Pública via Facebook.

Ficou de baixa médica, com apoio mensal de uma seguradora. Em Novembro, as fotografias que publicou na rede social mais famosa da Internet fizeram dela notícia pelo pior motivo: a seguradora tomou as imagens como uma prova de que ela não estava doente. Nathalie Blanchard na noite com os amigos + Nathalie Blanchard na praia = a Nathalie Blanchard curada. Resultado, ficou sem o seguro.

A primeira parte desta história podia passar-se cá. Segundo um estudo sobre saúde mental que acabou há poucos meses, durante o ano de 2009, 7,9 por cento da população sofreu de uma prevalência depressiva.

"A depressão é uma das doenças com impacto maior a nível de incapacidade", explica-nos José Miguel Barros Caldas de Almeida, coordenador nacional para a saúde mental. "Em termos de anos de vida vivida com incapacidade é a doença a nível mundial que está em primeiro lugar e em termos de tempo de vida perdida por morte ou por incapacidade está em primeiro lugar nos países desenvolvidos".

António Ventura faz parte destes números. O técnico informático com 60 anos, viveu os últimos dez submetido à doença. No Verão de 2005 chegou ao limite. "Fui internado porque já foi uma situação extrema, na prática já não fazia nada", disse à Pública.

Durante cinco semanas esteve na Clínica de São José. Com a depressão "perdem-se os ritmos todos, todas as coisas que fazem parte da nossa rotina diária", referiu. A clínica voltou a dar-lhe horas para tudo: acordar, tomar as refeições, ter momentos de lazer, deitar. Não foi o fim da doença, mas serviu como alavanca para a saída do poço.

Um estigma que existe

"A depressão é algo que dá um sofrimento total à pessoa", afirmou à Pública Alice Nobre, médica psiquiatra e responsável por um dos sectores do Hospital Júlio de Matos. "Para um deprimido estar a tomar uma água na esplanada é um processo muito doloroso, o doente está sem esperança, quer estar sossegado", disse, aludindo às situações de "depressão major", que são as mais graves.

Há uma percentagem significativa que pode ultrapassar as situações de depressão. O problema, segundo esta médica, é não estarmos habituados a reconhecer em nós e nos outros sinais de que algo está mal. As mudanças de comportamento podem ser interpretadas como mau-humor ou até agressividade. O estigma que ainda existe em relação às doenças mentais impede muitos doentes de darem o primeiro passo para o tratamento.

"Infelizmente a nossa sociedade não está preparada para enfrentar ou acompanhar pessoas com problemas desta natureza, porque chamam-nos preguiçosos, dizem que não queremos trabalhar", lamentou-se à Pública Sandra Gouveia, 46 anos.

Desde o início da década de 1990 que Sandra não dá aulas de matemática. Os sintomas da depressão foram surgindo gradualmente: "Comecei a cansar-me muito, a ter dificuldades de concentração, a não ter vontade de me levantar para trabalhar." A condição agravou-se e ela foi ao médico. Diagnóstico: depressão. "Naquelas alturas a tristeza é tão grande, tão profunda, parece que o mundo é a coisa mais negra que existe, perde-se a vontade de viver."

Mais tarde, os médicos compreenderam que a depressão era o sintoma de um problema mais complexo, a doença bipolar - uma perturbação mental que pode ter determinantes genéticos e que faz com que as pessoas sofram de episódios de euforia, em que as sensações de alegria e felicidade são exacerbadas, alternando com episódios de depressão.

Sandra Gouveia vive mais os episódios depressivos e actualmente está medicada de modo a controlar os sintomas. Mas já sabe que anualmente, no Outono, fica mais susceptível à depressão. Hoje não encontra trabalho na sua área e o Estado não lhe dá o rendimento social de inserção porque recebe ajuda da mãe.

"Se essa senhora [referindo-se a Nathalie Blanchard] foi fotografada seja lá onde for, é muito bom sinal", assevera Sandra. "Isso quer dizer que conseguiu reagir minimamente, se [a seguradora] tinha dúvidas, que tivesse uma conversa com a pessoa e um médico psiquiatra, e conseguiria perceber se a pessoa estava a ser honesta."

A canadiana mantém um processo contra a seguradora, mas voltou a trabalhar na IBM: "A minha saúde vai bem melhor desde [o dia 25 de] Maio. Estou verdadeiramente ansiosa pelo processo, vai ser menos um stress mas estou confiante de que vai correr bem."

Em Portugal, há uma margem de manobra para estes casos. "Há nas concessões de baixa a possibilidade de pedir a saída de casa, porque os doentes precisam de socializar com outras pessoas", explicou António Leuschner, psiquiatra e presidente do conselho de administração do Hospital Magalhães Lemos, hospital psiquiátrico no Porto.

Segundo o médico Leuschner, as pessoas continuam a ter de estar em casa a determinadas horas. Esta concessão "é dada a abusos, é importante que as pessoas tenham consciência de que podem ser fiscalizadas e podem retirar-lhes o subsídio."

A psiquiatra Alice Nobre compara o regime de baixa de depressões a situações tão comuns como uma infecção urinária: "Se estiver com uma infecção urinária também pode estar de baixa e sair, mas os sintomas não dão condições para trabalhar. Mas, se for uma infecção urinária muito grave a pessoa nem sequer se consegue levantar."

A dificuldade, e esta opinião é unânime para todos os especialistas que a Pública contactou, é avaliar o grau da doença e perceber quando há aproveitamento por parte do doente. É necessário haver uma confiança entre o médico e o doente. "Muitas vezes recebemos pedidos de ajuda de médicos de clínica geral, que pedem a confirmação do diagnóstico, mas nós temos dúvidas [sobre até] onde vai a real incapacidade", exemplifica Alice Nobre.

Década difícil

O papel de doente também é importante nos casos de saúde mental. Ao contrário de doenças como a hepatite "não há exames complementares que provem que uma pessoa tem depressão", explica o psiquiatra José Manuel Jara, antigo director de serviços do Hospital Júlio de Matos. Mas acrescenta que o oposto também acontece: "Há pessoas que têm depressões graves e queixam-se pouco, nem se sabem tratar".

O próprio contexto em que a depressão ocorre pode ter influência na necessidade da baixa. "Muitas vezes estamos perante conflitos laborais, a baixa aí é uma necessidade", explicita José Manuel Jara. O psiquiatra acrescenta que uma pessoa mais frágil tem dificuldade em recuperar num ambiente negativo. "Não é por acaso que a depressão é a causa mais frequente de suicídio."

O médico podia estar a descrever a situação de António Ventura. Até aos 50 anos de idade e mais de 20 de trabalho, este informático não sabia o que era ter uma depressão. Mas um conflito constante com uma colega levou-o a querer cada vez menos sair de casa. De 2000 para 2001 esteve de baixa médica. Em 2002 sofreu uma recaída e até 2003 teve nova baixa. No ano seguinte foi trabalhar, mas um "chefe à antiga" fê-lo voltar para casa. Entre 2004 e 2008 esteve quase sempre de baixa com sucessivos episódios de depressão desencadeados pela morte de familiares próximos.

"Cheguei a pensar no suicídio, como é óbvio - isso faz parte da doença. Nunca pensei objectivamente, mas havia alturas em que o sofrimento é tão grande que não me sentia eu", confessou. Se há dez anos não compreendia esta doença e ficou chocado com o que se passava com ele, hoje fala estando do lado de lá. "Podemos ter apoio médico, psicológico, internamento, medicamentos, choques eléctricos. O mais extremo que há. Mas temos de ser nós mesmos a resolver as situações e a dar a volta. Todo o apoio é essencial, mas se não formos nós mesmos, não há forma de sairmos da depressão."

Em 2009, António Ventura enfrentou um teste de fogo com a doença e morte do pai. "Foi a primeira vez que, perante uma situação bastante complicada, que no passado teria conduzido a uma depressão, consegui lidar bem com a situação e não [me] deprimi."

O que é que fez? "Tentei separar de mim o sofrimento do meu pai", disse Ventura, acrescentando que se ficasse deprimido não conseguiria ajudar o pai. Quando a luta terminou teve "a mesma tristeza que qualquer pessoa tem quando alguém próximo morre". É preciso não confundir tristeza com depressão.

Encontro com a Junta

Hoje, António Ventura já está a abandonar a medicação. Faz ioga, está ligado ao ténis de mesa de que gosta muito, faz parte do corpo de gerência da Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB).

Às vezes colabora profissionalmente com amigos, mas um emprego fixo nunca mais teve. Os projectos acontecem de uma maneira livre, espontânea. "Não tenho chefes, não tenho colegas, o que faço não dá origem a nenhum problema porque o stress ou a responsabilidade é assumido por mim", diz.

Em 2008, depois de não poder ter mais baixas, tentou pedir a reforma de invalidez mas a Junta Médica não considerou a avaliação feita pelo psicólogo da ADEB e pelo médico psiquiatra. António Ventura recorreu, mas o pedido voltou a ser negado. "Eles acharam que estava em óptima condição para trabalhar", acentuou Ventura, indicando que a junta tem parâmetros muito restritos.

"A reforma por invalidez depende da confirmação da incapacidade por uma Junta Médica que segue, apenas, critérios científicos e deontológicos, como qualquer outro médico. Não há, nem nunca houve plafonds anuais de pensões de invalidez", enunciou por e-mail Cláudia Henriques, assessora do Ministério do Trabalho e Segurança Social.

O psiquiatra António Leuschner diz conhecer todo o género de casos de Junta Médica. Pessoas que, na sua opinião, mereciam a reforma e não a obtiveram, pessoas que conseguiram a reforma embora o médico achasse que não a mereciam. Também conhece casos justos, mas respeita os pareceres da junta: "Não é só porque uma pessoa se sente inválida que é considerada inválida. Há critérios que à partida são validáveis."

De qualquer modo, António Ventura vai ter de esperar até aos 65 anos para lhe ser concedido a reforma pelos seus anos de trabalho: "Pedi o subsídio de desemprego mas não consegui, porque para o obter é necessário ter estado a trabalhar nos últimos 400 e tal dias." Segundo o Portal do Cidadão são 450.

Sandra Jesus conseguiu há quatro anos aquilo que a Junta Médica negou a António Ventura. Aos 33 anos descobriu-se reformada. "Há uma negação em que me vejo - com 33 anos, reformada e inválida. Uma pessoa parece que se sente a cair num poço, tenho esta idade mas já estou inválida."

Sandra é mãe de três filhos e desde a adolescência que tem problemas: primeiro com a comida, foi-lhe diagnosticado bulimia e anorexia, sempre acompanhadas com depressão. Finalmente, há um ano e meio descobriu que era bipolar.

Os episódios depressivos que vai vivendo já a levaram a tentar o suicídio quatro vezes: "A dor que se sente numa depressão é tão intensa, tão grande, às vezes sem razão, é como se não fizéssemos parte deste mundo." Hoje continua a debater-se com a doença. "Estou neste momento a passar por mais uma fase bastante complicada em que estou novamente em risco de vida pois cheguei aos 38 quilos", disse por e-mail, há poucos dias.

Apesar de os factores genéticos e fisiológicos serem importantes na causa da doença bipolar, que afecta um por cento da população portuguesa, o stress que cada pessoa enfrenta e a personalidade de cada um são importantes no desencadeamento de uma crise.

É por isso que o Coordenador Nacional para a Saúde Mental defende que mais importantes do que os pormenores a nível de trabalho, o ideal seria prevenir o máximo possível os casos de depressão e de qualquer doença. "O que interessa assegurar é que haja mecanismos que ajudem num primeiro nível as pessoas que estão deprimidas", declara Caldas de Almeida.

Não baixar os braços

A família, as igrejas, os grupos associativossão alguns agentes sociais que podem ter um papel muito importante no tratamento da depressão. "É completamente diferente se uma pessoa com uma doença depressiva estiver numa família ou numa situação isolada onde ninguém pode ajudar", acrescenta o psiquiatra.

A resposta do Sistema Nacional de Saúde também é importante. Em 2007 o número de portugueses com acesso a cuidados de saúde mental era de 1,7 por cento da população. O coordenador completa a informação, 40 por cento dos portugueses com doenças mentais não têm acesso aos serviços de saúde mental especializado. Mas há sinais positivos, em Portugal a acessibilidade aos cuidados primários para o tratamento da depressão é acima da média europeia.

Os indicadores mostram que não se pode baixar os braços. Em 2008 houve 1035 mortes por suicídio em Portugal, a primeira causa de morte não natural. A prevalência em regiões como o Alentejo continua a ser desconhecida. De uma forma generalizada, 20 por cento de portugueses sofre de uma doença mental. Um número superior à média europeia e que representa uma realidade mais antiga do que a situação económica actual.

Alice Nobre defende que se deveria começar por dar mais informação às pessoas sobre o que é a doença mental: "Não sei se vai resultar mas é uma necessidade." Para Caldas de Almeida as empresas também têm uma responsabilidade na detecção precoce dos problemas, e deveriam estar preparadas para dar aconselhamento. Principalmente numa vida moderna onde o mundo do trabalho é cada vez mais exigente, competitivo e desafiante.

O psiquiatra José Manuel Jara tem também uma interpretação filosófica da situação actual onde, mesmo no primeiro mundo em que problemas como a fome já estão resolvidos, as pessoas arranjam outras preocupações: "Acho que o ser humano é muito incompleto e isso tem um lado bom de criatividade, mas a autocrítica e a capacidade de detectar erros não é muito grande. O ser humano conhece o mundo exterior mas não se conhece a si próprio."

No Facebook, as fotografias da canadiana continuam em rotação. Nathalie Blanchard biquíni escuro a olhar para nós. Nathalie Blanchard deitada em pose de ioga, ondas ao fundo. As fotografias não são aquilo que se espera de uma pessoa com depressão. Ainda bem.

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