Ministério quer conhecer a real produtividade dos cirurgiões

Tutela vai criar indicador que permita comparar produtividade das equipas. Decisão surge após polémica do presidente do Hospital de São João, que disse que cirurgiões só fazem uma cirurgia por semana.

A Ordem dos Médicos criticou a forma como as contas foram feitas Carlos Lopes

O Ministério da Saúde quer saber a real utilização que está a ser feita dos blocos operatórios nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, depois da polémica causada pelo presidente do Hospital de São João, no Porto, que disse que cada cirurgião só faz em média uma intervenção por semana e que 30 elementos da sua instituição neste ano ainda não tinham sequer ido ao bloco.

O objectivo, adianta o Diário de Notícias na edição deste domingo, é estabelecer um número de horas padrão para o funcionamento dos blocos operatórios para poder ser possível perceber qual a produtividade das equipas de cirurgia. Isto porque os critérios utilizados actualmente dificultam a comparação dos dados das várias instituições do país: cada hospital reporta apenas a percentagem de horas que utilizou do bloco, dentro da capacidade total que é determinada pela própria instituição. O novo indicador está a ser desenvolvido pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS).

A intenção da tutela surge depois da polémica entrevista do presidente do conselho de administração do Hospital de São João, António Ferreira, nesta semana à TVI. O responsável avançou com a média de uma cirurgia por semana por cada cirurgião, para ilustrar a tese que desde há muito defende: a de que é possível reduzir ineficiências no Serviço Nacional de Saúde, aproveitando melhor os recursos humanos. Por isso, destacou o facto de a taxa de absentismo na unidade ser de "11%" e adiantou que pelo menos 30 dos cirurgiões da unidade não fizeram uma única cirurgia este ano.

Para demonstrar que o problema não será exclusivo desta unidade hospitalar, foi mais longe, fazendo uma conta simples. Pegou no número de cirurgiões especialistas (3854), no total de cirurgias convencionais, excluindo as feitas em ambulatório (mais de 196 mil em 2010) e dividiu tudo por 46 semanas. Conclusão: em todo o país, em média, cada cirurgião fará uma cirurgia por semana.

Contas que foram desde logo mal recebidas pelo bastonário da Ordem dos Médicos, pelo presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia, pelo presidente do Colégio da Especialidade de Cirurgia Geral da Ordem dos Médicos, pela Federação Nacional dos Médicos e pelo Sindicato Independente dos Médicos, que asseguraram que os números não podem ser vistos desta forma nem totalmente atribuídos aos cirurgiões, já que para a realização de uma cirurgia têm também de estar disponíveis outros profissionais, como anestesistas e enfermeiros, assim como tem de haver vagas para recobro e internamento.

Já do lado da tutela, o ministro da Saúde admitiu que este não será caso único e considerou que há uma grande assimetria na produtividade destes especialistas. Há cirurgiões que "têm uma produtividade muito abaixo da média", enquanto há outros "que fazem um número muito concentrado, diferenciado e elevado de cirurgias", afirmou Paulo Macedo.

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