Dentista brasileira estava deprimida e disse a amigos que qualquer dia se matava. PJ encontrou recipiente com gasolina no quarto.
As camas de Letícia, de 11 anos, e de Leonardo, de 13, ainda foram feitas. Depois de se arranjarem anteontem de manhã, a mãe, Luciana Garcia, reuniu os dois num quarto da vivenda onde viviam em Castro Marim, no Algarve, e terá regado móveis e a cama com combustível. Um isqueiro encontrado no local terá servido para atear o fogo, acredita a Polícia Judiciária, que recolheu um recipiente com gasolina, parcialmente queimado, por baixo do corpo da mulher de 40 anos. O marido tinha saído cedo e estava a trabalhar.
Para muitos, a tragédia soa a surpresa, mas alguns amigos mais próximos contaram à polícia que Luciana já anunciara que qualquer dia se matava. Estava deprimida.
"Chegou a pedir a algumas amigas que, quando morresse, levassem os filhos para o Brasil e os entregassem a uma determinada pessoa", especifica um responsável da PJ, ligado à investigação do caso. Na sua página do Facebook também ficaram indícios do desespero. Contudo, em Castro Marim e em Vila Real de Santo António, onde trabalhava, a dentista brasileira parecia transpirar normalidade.
"Se tinha algum problema, nunca aparentou. Ainda há dois dias veio com o filho cortar o cabelo", conta uma vizinha da Clínica Dentária Garcia e Gioso, propriedade do casal e de uma sócia portuguesa. Ilda Clemente ainda se lembra da filha pequena a brincar com Leonardo. Da mãe, a quem todos chamavam Lu, guarda a voz meiga.
"Prova de amor"
A dentista nascera em Franca, um município no Estado de São Paulo, e estudara no Brasil. Em 1993, concluiu o curso de Medicina Dentária na Universidade de Uberaba, uma instituição privada de ensino superior no Estado de Minas Gerais. Casou com o brasileiro Márcio, também dentista. Viviam em Portugal há mais de 15 anos. Os filhos já nasceram por cá. Anteontem, antes de acender o isqueiro, mandou uma mensagem ao marido. Nada de dramático, apenas um aviso de que iria chegar atrasada.
Dois minutos antes das 10h, o alerta chegou aos Bombeiros Voluntários de Vila Real de Santo António. Falava-se de um possível rebentamento de gás, explica o comandante Paulo Simões. Mais tarde, o cenário foi afastado. "O fogo estava confinado ao quarto e o gás estava na cozinha, havendo uma outra divisão a separá-los", adianta Paulo Simões. Quando entraram no quarto, depararam-se logo com dois corpos, da mãe e da filha. Do outro lado da cama, encontraram o rapaz. A porta interior do quarto sobrevivera à explosão. Já a porta que dava para o exterior foi projectada para a piscina.
"A elevada concentração de vapores de combustível dentro do quarto deve ter provocado a explosão, mal foi feita a ignição", explica um responsável da PJ. Os corpos começaram ontem a meio da tarde a ser autopsiados no Gabinete Médico-Legal de Faro e previa-se que a tarefa fosse terminada ainda ontem. A investigação vai continuar, faltando concluir perícias e ouvir várias testemunhas.
Parece estranho, mas matar os filhos pode ter sido para Luciana um acto de altruísmo. Uma prova de amor. Quem o admite é o psiquiatra Pedro Afonso, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. "Isto acontece em depressões muito graves que, por vezes, apresentam sintomas psicóticos. A pessoa sente um enorme sofrimento e acredita que este também é vivenciado por outros que lhes são próximos. A morte surge como uma libertação e até uma prova de amor", explica Pedro Afonso. E acrescenta: "Claro que isto revela uma visão distorcida da realidade".
O médico lembra que as depressões graves têm que ser acompanhadas por especialistas, para ser avaliado o risco de suicídio. "Quando há sinais desta natureza, é preciso tomar medidas. Por vezes, pode-se justificar o internamento compulsivo", sublinha o psiquiatra António Palha, professor jubilado. Ambos lembram que estas são situações raras.

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