A morte de um bebé de cerca de cinco meses menos de 24 horas depois de lhe ter sido administrado, em conjunto, a vacina RotaTeq (destinada a prevenir gastrenterite provocadas pelo rotavírus) e a Prevenar13 (para prevenção de infecções como a pneumonia ou a meningite) levou o Infarmed a suspender dois lotes destas duas vacinas que incluem cerca de 34 mil doses.
As autoridades de Saúde sublinham que a suspensão se tratou de "uma medida de prevenção" e que pode não haver qualquer relação entre a morte da criança e a inoculação. Os resultados da autópsia só serão conhecidos dentro de semanas.
Foi um profissional de saúde quem deu o alerta ao Infarmed: tinha morrido uma criança, que frequentava uma creche em Camarate (concelho de Loures), após a vacinação que costuma ser feita em conjunto. As duas vacinas são recomendadas pelos pediatras, mas não constam do Plano Nacional de Vacinação (PNV-administração gratuita), têm que ser compradas pelos pais, sem comparticipação (a RotaTeq inclui três doses, cada uma a 53 euros, a Prevenar13 exige quatro doses a 71 euros cada uma) e podem ser dadas nos centros de saúde.
"Como medida de precaução", depois de terem recebido a notificação "de suspeita de reacção adversa grave", o Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde) decidiu suspender, na segunda-feira, apenas os dois lotes a que pertenciam as vacinas que tinham sido dadas ao bebé: RotaTeq, solução oral, lote n.º 1590AA/0671579, prazo de validade de 31 de Maio de 2013, e a Prevenar13, injectável, lote nº F73745 (917690), prazo de validade 31 de Maio de 2014.
No lote em causa da RotaTeq foram distribuídas em Portugal, desde Janeiro deste ano, 9080 doses que foram quase todas administradas, informa o laboratório que a produz, a Sanofi Pasteur. No caso da Prevenar13 o lote suspenso incluía 25 mil doses que começaram a ser distribuídas em Dezembro do ano passado, refere a Pfizer, desconhecendo quantas não foram administradas. Ambos os laboratórios realçam que este é o primeiro caso deste tipo de que têm conhecimento.
Desde o seu lançamento em Portugal, em Outubro de 2006, já foram distribuídas 262 mil doses da RotaTeq, o que abrangerá cerca de 93 mil crianças. A vacina está aprovada em 107 países, tendo sido dadas 66 milhões de doses, refere a porta-voz da Sanofi Pasteur, Margarida Martins. No país a cobertura vacinal contra o rotavírus (que é uma das causas mais frequentes de gastrenterite pediátrica), incluindo a outra vacina no mercado, rondará os 43%. A porta-voz explica que há estudos em países europeus com taxas de vacinação mais altas do que Portugal que apontam para uma redução de 80% a 100% nas hospitalizações e deslocações às urgências por gastrenterites provocado por aquele vírus.
Má conservação?
Em Portugal desde o lançamento da vacina contra a bactéria streptococcus pneumoniae (Julho de 2001) foram distribuídas cerca de 2,8 milhões de doses de Prevenar (nome que tinha até 2009) e Prevenar13 (nome actual). "Fazem parte do plano nacional de vacinação da criança em mais de 50 países, tendo sido distribuído mais de 400 milhões de doses a nível mundial", refere a porta-voz da Pfizer, Helena Novais. O laboratório estima que a cobertura vacinal em 2011 tenha sido superior a 70%.
A pediatra e directora dos Serviços de Prevenção e Controlo da Doença da DGS, Ana Leça, diz que "esta foi uma decisão por precaução por haver uma ligação temporal [entre a vacinação e a morte] e não um nexo causal. A confiança na vacinação não pode abalada por evento que ainda não tem explicação". "O país tem que continuar a ter confiança na vacinação no PNV e nas vacinas prescritas pelos médicos".
Sendo as duas vacinas compradas pelos pais nas farmácias que depois têm a responsabilidade da sua conservação até serem administradas, a médica exclui uma possível má conservação como estando na origem de uma eventual deterioração do produto. "As alterações na cadeia do frio reflectem-se na diminuição da eficácia da vacina e não no aumento de eventos adversos."
A morte ocorreu na segunda-feira, a autópsia fez-se ontem na delegação de Lisboa do Instituto Nacional de Medicina Legal INML), informou o director-geral da Saúde, Francisco George, garantindo que este é o único caso registado com estas características. Mas as conclusões ainda vão tardar, disse à Lusa o presidente do INML, Duarte Nuno Vieira - os resultados só serão conhecidos dentro de semanas.

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