O que se espera das associações de estudantes do básico e do secundário? Sensibilização para as questões de empreendedorismo, sustentabilidade e cidadania. Pelo menos é esta a proposta do Governo, do Instituto Português do Desporto e Juventude e do Green Project Awards através do Projeto 80, um concurso com uma viagem a Bruxelas como prémio final.
Francisco Mota, membro da Juventude Popular, considera que o concurso, apresentado esta terça-feira, na secundária D. Dinis, em Lisboa, trará óptimos resultados para as associações de estudantes (AE). “As AE são muitas vezes vistas e usadas como trampolins para as juventudes partidárias e acabam por não se desenvolver projectos representativos”, avalia.
Durante anos, os governos transferiram verbas para as AE sem dar ferramentas para que as mesmas desenvolvessem a vertente empreendedora. “O Governo tem, mais do que dar o peixe numa bandeja, a obrigação de ensinar a pescar”, sublinha Francisco Mota que considera que esta vertente não põe em causa a vertente política das associações, nem desvincula o seu trabalho nomeadamente nas questões da acção social escolar.
É apresentado nesta terça-feira o Projeto 80, em Lisboa, um concurso de empreendedorismo, sustentabilidade e cidadania dirigido a todas as Associações de Estudantes do país, do 3º ciclo do ensino básico e secundário A iniciativa resulta de uma parceria entre o Green Project Awards, o Instituto Português do Desporto e Juventide e do Governo português.
Opinião diferente tem João Mineiro, do Bloco de Esquerda, que considera que este tipo de concursos dirigidos às AE, incentiva a uma “despolitização” dos jovens. “Há um desvio das atenções para projectos que pouco têm a ver com a representação dos estudantes”, explica. Para João Mineiro, estão a dar-se às AE “responsabilidades que elas não deveriam ter”, e que acabam por “absorver as funções que deveriam ter”.
Para João Mineiro, o incentivo à participação na cidadania não passa por este tipo de projectos, uma vez que quem concorre “são pessoas que já estão mobilizadas para as preocupações com a cidadania, quer seja na sua experiência, no campo empresarial ou cívico”. Por outro lado, “se já são dirigentes associativos já têm essa preocupação ”, analisa. Em contrapartida, João Mineiro sugere que se aposte num contacto regular com os estudantes, no sentido de "auscultação na definição de políticas para a educação e trabalho”. Em relação ao prémio do projecto, uma viagem a Bruxelas para conhecer instituições europeias, João Mineiro não fica convencido. “Este tipo de prémios fica muito bem, mas na prática não se traduz em grande coisa, não me parece que signifique uma maior participação”, afirma, sugerindo que seria mais interessante “criar um mecanismo que envolvesse os jovens”.
O PÚBLICO tentou ouvir outras juventudes partidárias sem sucesso.
O secretário de Estado do Ensino e Administração Escolar, João Casanova de Almeida, considera que “as AE são um pólo aglutinador das vontades e intervenção cívica dos alunos nas escolas e como tal podem congregar melhor as vontades dispersas dos diferentes alunos”.
Durante a cerimónia de lançamento do projecto, Casanova de Almeida esclarece que o concurso não é fechado aos dirigentes associativos. “O enquadramento é feito pelas AE, mas as ideias podem partir de qualquer aluno”. “As AE darão o enquadramento ao projecto em si”, funcionando como a unidade responsável por centralizar as iniciativas de cada uma das escolas.
Questionado sobre o tempo que poderá ser retirado às AE neste trabalho de co-organização do Projeto 80, o governante acredita que não haverá um prejuízo das demais responsabilidades.
“Julgamos que estava na altura de tentar replicar de alguma forma o modelo do Green Project Awards para as escolas, não só porque atingimos os jovens, mas também todas as entidades parceiras com quem se vão relacionar, nomeadamente autarquias, clubes, associações, empresas, funcionários e pais”, explica Nuno Sequeira, presidente da Quercus. “Há uma grande diferença entre ir às escolas para tentar mobilizar para uma causa e eles próprios começarem a meter a mão na massa e praticar as suas ideias”, sublinha.
Candidaturas nas escolas
Os jovens, entre os 13 e os 17 anos, deverão criar um projecto “irreverente”, que se traduza numa “participação cívica e activa na sociedade”. Os objectivos do concurso passam por “sensibilizar os adolescentes para as questões da sustentabilidade e da cidadania”, “incutir nos jovens um espírito empreendedor e participativo” e “incentivar a participação cívica”, informa um comunicado enviado à imprensa.
O nome surge por causa da expressão “Nem 8 nem 80”. Assim, é pedido aos jovens para darem o seu "80" e partilhem o modo como vêm a sustentabilidade, a cidadania e o empreendedorismo.
Existe ainda uma página na Internet de divulgação do Projeto 80, bem como este será divulgado no Facebook. Para não falar de um roadshow que chegará a uma escola de cada distrito e que desafiará os estudantes a serem curiosos e criativos. Em cada estabelecimento de ensino, o aluno que demonstre “ter uma atitude 80” é convidado a deixar uma mensagem, “o seu 80”, grafitado na carrinha da organização.
O concurso está dividido em duas fases de apresentação de candidaturas e projectos, sendo que a primeira terminará em Fevereiro e a segunda em Abril. Em cada uma serão escolhidos três projectos o que totaliza, no final, seis candidatos ao prémio Iniciativa Jovem do Green Project Awards. Em Setembro é a cerimónia de entrega de prémios: uma viagem a Bruxelas para visitar as instituições europeias.

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