Ex-director do Freeport evidencia falta de memória

Jonathan Rawnsley foi hoje ouvido pela segunda-vez como testemunha de acusação no caso Freeport Pedro Cunha

O ex-director do Freeport, Jonathan Rawnsley, evidenciou hoje em tribunal falta de memória, depois de na sexta-feira ter admitido que teve conhecimento de um pedido de pagamento de dois milhões de libras para viabilização do projecto.

“Não me recordo”, “foi há mais de 10 anos” e “não sei quem me substituiu” foram expressões utilizadas hoje por Jonathan Rawnsley, no segundo dia em que foi ouvido como testemunha de acusação, por videoconferência, a partir de Inglaterra.

Em resposta às questões colocadas pelos juízes, Rawnsley, que deixou de trabalhar para o Freeport em Setembro de 2004, garantiu não saber quem o “substituiu” no cargo. Assegurou também não se lembrar de conversas então mantidas com o arguido e consultor Manuel Pedro.

Na última audiência, Jonathan Rawnsley mostrou-se menos retraído e disse ter tido conhecimento de uma reunião entre o arguido Charles Smith, da Smith & Pedro, e advogados de Lisboa, em que estes falavam numa quantia de “dois milhões de libras esterlinas a pagar a um partido político ou a uma obra de caridade”, como forma de conseguir a viabilização do centro comercial em Alcochete.

Questionado sobre se esta verba se destinava a algum ministro do governo socialista da altura, a testemunha disse que não.

A reunião ter-se-á realizado na véspera do despacho ministerial que inviabilizou, pela segunda vez, a construção daquele centro comercial em Alcochete, datado de 6 de Dezembro de 2001.

Rawnsley frisou então que aquela conversa não foi transmitida às autoridades superiores do Freeport, uma vez que não a tinham levado a sério, além de que não foi considerada como “uma proposta séria”.

Na passada sexta-feira, o director do Freeport confirmou que se reuniu com o então ministro do Ambiente, José Sócrates, depois do segundo chumbo do projecto do outlet, a 6 de Dezembro de 2001, justificando que a ideia era perceber as razões da recusa do projecto.

Avançou que a reunião com Sócrates foi agendada por Charles Smith ou Manuel Pedro, os dois arguidos do caso Freeport acusados de tentativa de extorsão.

Na sessão de hoje, o tribunal ouviu ainda por videoconferência a testemunha Peter Colin Athey, antigo consultor e orçamentista de obras de construção do Freeport. Este admitiu conhecer pessoalmente Charles Smith e Manuel Pedro, mas desconhecer em absoluto quaisquer questões relacionadas com subornos ou pagamentos ilegais para viabilizar o projecto.

Peter Colin justificou que “não reportava” a Manuel Pedro e a Charles Smith, mas sim à direcção do Freeport, razão pela qual pouco ou nada adiantou sobre conversas mantidas com os arguidos.

Confrontado com uma verba de 17 mil euros mencionada numa acta de reunião, a testemunha disse ter a ideia que era para pagar uma licença de construção.

Também não soube avançar com o custo global do Freeport, alegando que só tinha a responsabilidade das obras. A sua falta de memória e fraco conhecimento dos factos levou a que o seu interrogatório fosse breve e nada conclusivo.

O processo Freeport foi originado por suspeitas de corrupção, tráfico de influências e financiamento de partidos políticos na alteração à Zona de Protecção Especial do Estuário e licenciamento do espaço comercial em Alcochete quando era ministro do Ambiente José Sócrates.

O julgamento prossegue no próximo dia 26.

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