Dez anos para revolucionar o tratamento do cancro

O Presidente da República, Cavaco Silva, ontem no túnel de vidro que une os dois edifícios do centro Foto: Pedro Cunha

A cerimónia de inauguração do novo Centro de Investigação Champalimaud foi ao mesmo tempo solene e descontraída e a ciência foi a convidada de honra.

Na grande esplanada que se abre entre os dois edifícios principais do complexo da Fundação Champalimaud foi montado um palco. Detrás do pódio, projectado num grande ecrã de vídeo, a imagem de António Champalimaud olha sorridente para as centenas de convidados aqui reunidos. Debaixo de um toldo instalado para a ocasião, políticos, membros do Governo, cientistas, médicos, personalidades várias nacionais e internacionais conversam enquanto aguardam que o Presidente da República acabe a visita às instalações, feita em pequena comitiva. Muitos homens de fato escuro e gravata, muitas mulheres elegantemente vestidas, mas também alguns jovens de indumentária mais informal (talvez os mais jovens investigadores do futuro centro).

Olhando para a esquerda, vê-se o edifício onde trabalharão cientistas e médicos em duas áreas, o cancro e as neurociências. A investigação do cancro privilegiará a aplicação clínica dos resultados - o Centro do Cancro inclui aliás um hospital de dia - enquanto a das neurociências será mais virada para a investigação básica. Ambas coabitarão aqui mais do que imbricadas, com cientistas e médicos a partilharem equipamentos e recursos. A interligação entre o hospital e a investigação também será muito próxima, numa abordagem considerada única no mundo.

À direita, há mais duas estruturas: o edifício que albergará não só a própria fundação, mas também um restaurante, um auditório e uma área de exposições (abertos ao público, como acontece com mais de 50 por cento do espaço agora inaugurado). Já mais junto ao rio, um anfiteatro ao ar livre, também acessível a todos.

Escrito com marcador

Finalmente, está tudo a postos. Os convidados sentam-se. De repente soa a música, acompanhada no ecrã por uma rápida sucessão de imagens que mostram, em poucos segundos, como o novo Centro Champalimaud de Investigação surgiu na zona ribeirinha de Pedrouços, em Lisboa, ao longo de 723 dias, culminando na cerimónia que teve ontem lugar, integrada nas comemorações do centenário da República.

O ecrã abre-se ao meio e aparecem em primeiro plano duas altas colunas de betão e um espelho de água. A água parece fluir para o rio, onde uma réplica de uma caravela flutua tranquilamente com as suas velas içadas.

Leonor Beleza, presidente da fundação, levanta-se e, pegando num marcador gigante que alguém lhe dá, dirige-se para uma das colunas, sobe para um pequeno escadote e escreve: "Este centro foi inaugurado por Sua Excelência o Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva. (Aqui, pede outro marcador, acabou-se a tinta do primeiro). 5 de Outubro de 2010". E assina o seu nome por baixo desta versão pós-moderna da proverbial placa comemorativa.

Ouve-se o Ave Maria e é a vez do cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, proceder à bênção do edifício, completa com leitura de um excerto dos evangelhos por Leonor Beleza (alguém ao nosso lado diz baixinho: "Parece uma missa!). No fim, ámen e sinais da cruz dos convidados em pé (com excepções).

Seguem-se discursos oficiais, onde Leonor Beleza realça em particular que este espaço está destinado "ao contacto intenso entre a ciência e o público" e onde Maria Luísa Champalimaud (sem dúvida a pessoa mais bem vestida da assistência), filha de António Champalimaud, declara, com visível emoção, ser o seu voto "que deste centro saiam resultados para o bem da Humanidade".

"A beleza é terapêutica"

Depois, é a vez de James Watson, co-descobridor da estrutura molecular do ADN, prémio Nobel de Medicina e presidente do conselho científico da fundação. É o ponto alto da cerimónia. Começa por dizer que "não acreditava que o edifício estivesse pronto para o dia da vossa República". Fala dessa "obra-prima" da arquitectura ao serviço da ciência que é o Instituto Salk, na Califórnia, para acrescentar logo: "Penso que este edifício é melhor." E salienta, evocando o nome dado em inglês ao novo centro, Center for the Unknown, que "o verdadeiro desconhecido são os seres humanos". Em particular, o cérebro, do qual tão pouco se sabe. Em relação ao cancro, porém, acha que é preciso marcar agora mais uma data-limite, tal como aconteceu com o edifício: "Dou-vos 10 anos para mudar a natureza do tratamento do cancro."

Para Watson, este não é um objectivo impossível: "Acho que os cientistas têm de ser pressionados para atingir objectivos (...) e espero que vamos ter aqui pessoas cuja meta será curar o cancro e não apenas fazer investigação", declara. "Temos de usar bem este maravilhoso edifício."

O indiano Charles Correa, arquitecto do centro, diz que está "muito orgulhoso por não se tratar de um museu de arte moderna, mas de um sítio onde as pessoas vão lutar contra coisas reais - o cancro, a cegueira, as doenças mentais". E, falando do sítio em que o edifício está localizado, salienta que "a beleza é terapêutica, os seres humanos respondem à beleza", considerando a inauguração "um momento-chave na história da vossa nação".

A última palavra coube a Cavaco Silva, que finalizou a cerimónia declarando que "o edifício reforça a convicção de que esta será uma casa de grandes feitos". No fim, ouviu-se um disparo do canhão da caravela. Para marcar o iníco da contagem dos dez anos, imagina-se.

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