Opinião

Viver entroikado, resistir ou embrulhar

Entroikado. A palavra não existe na língua portuguesa. Nem antes nem depois da “coisa” (leia-se Acordo Ortográfico). Confirmei no dicionário.

Entroikado. A palavra não existe na língua portuguesa. Nem antes nem depois da “coisa” (leia-se Acordo Ortográfico). Confirmei no dicionário. Se existisse estaria impressa na página 633 do Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora, 8.ª edição). Acima teria por companhia mais próxima a palavra “entrizar-se” e abaixo a palavra “entroixar”.

Ou seja, ficaria entalada entre erguer-se para resistir e fazer trouxas, embrulhar.

Que deliciosa coincidência, uma palavra que não existe poder ficar entalada entre duas reais que hoje tanto lhe dizem respeito.

Entroikado. Viver apertado entre as ordens de um triúnviro internacional chamado para colocar ordem num país que vivia acima das suas possibilidades enquanto o seu Governo cantava alegremente vezes sem conta ter vencido uma crise que crescia sem parar. Viver calcado entre o aço de uma bigorna de um executivo de duas cabeças, em que uma se gaba de ser mais papista que o Papa e a outra não tem certezas sobre se o caminho que está a ser seguido leva ao Paraíso ou ao Inferno.

Viver, enfim, em tempos novos. Em tempos de incerteza, de reinvenção, de luta, de tomar decisões para uma vida. De se erguer e resistir, ou de calar e embrulhar.

Viver entroikado quer relatar semanalmente a vida dos que lutam e dos que entroixam.

Por mim, esta semana estou entre os que resistem. Acima de tudo contra o Papa. Saber se Maria, a mãe de Jesus, era virgem, como garante Bento XVI no seu novo livro, diz-me pouco. A possibilidade de a estrela de Belém não ser um milagre mas apenas uma supernova também não me aquece nem me arrefece. Já o facto de Sua Santidade me vir dizer agora que o burro e a vaca não estavam no local onde o Menino nasceu e que não foram os seus bafos que o aqueceram naquela noite fria de há quase 2012 anos tira-me do sério. Abate a tiro uma parte da minha vida.

Já tinha decidido que, este ano, o Gaspar ficava de fora do meu presépio. Agora, em protesto, sai a troika toda. O Gaspar, o Belchior e o Baltazar não cheiram o musgo. Não há ouro, incenso, mirra e camelos para ninguém. A vaca e o burro lá continuarão junto às palhinhas.

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