Crónica

Viagem ao alucinante mundo do falsificacionismo e dos decametilmetalocénios

Abundam expressões do tipo “Contributo”, “Sobre”, “Da”, “Para”, “Técnicas”, “Síntese”, “Tentativa”. Entre certezas filosóficas e dúvidas sistemáticas, os títulos das teses universitárias são um mundo louco de palavras difíceis, conceitos herméticos e formulações endiabradas

Corria o ano de 1943 e o estudante não se poupou a esforços quando alinhavou o nome da sua tese de doutoramento. Chamou-lhe “Sobre certas disposições musculares e fibrosas da axila estudadas nos portugueses de condição humilde: as inserções no número dos músculos grande dorsal, grande redondo e córaco-braquial e outras formações musculares e fibrosas com elas relaci...”. Presume-se que “relacionadas”, mas o ficheiro bloqueou nos 236 caracteres (com espaços) e já nem completou o título. Em quase um século de teses universitárias, conseguimos encontrar um pouco de tudo: poesia, sexo, imaginação delirante, mensagens indecifráveis, futurismo. Até nomes mais extensos do que este...

Entre 1917 e 2010, estão registadas 22.122 teses. É uma lista enorme, muitas vezes ingrata, mas que premeia generosamente quem se disponha a percorrê-la ao detalhe. Quando mais não seja com esta entrada de 1997, por acaso em inglês: “Third country nationals and European Union law. A critical analysis of issues in European Community and Euopean Union law regarding natural persons who are nationals of third countries and live in member states, and regarding immigrantes and immigrat...” Uf, aos 250 caracteres, a verborreia for cortada. Recorde batido.

E depois igualado, pelo menos umas oito vezes. Em português, francês e castelhano. O mais recente destes títulos mastodônticos data de 2009 e só Deus sabe até onde nos poderia levar se a base de dados fosse mais permissiva: “O problema – no seio do direito penal económico e mais especificamente do direito penal do mercado – dos crimes ilícitos de mera ordenação social constantes do código dos valores mobiliários e o problema da imputação da responsabilidade aos entres c...”

Curiosamente, uma área onde abundam os títulos quilométricos é a da Educação Física. Deve ser por o pessoal ter boa preparação e aguentar o fôlego durante muito tempo... São coisas do género: “Análise de duas metodologias de ensino diferenciadas na aprendizagem de uma técnica desportiva. Estudos de variáveis mediacionais cognitivas, afectivas e motoras associadas aos alunos” (2004). Ou então: “Caracterização biomecânica do remate em suspensão com corrida no andebol – uma abordagem cinemática, dinâmica e electromiográfica” (2002). Típico caso em que se demora mais tempo a dizer do que a fazer...

Chega. Isto cansa. E, mesmo contrariando a visão de alguns professores de que uma tese precisa de exibir, para além do obrigatório conteúdo, um volume que impressione, não é correcto analisar o esforço de um estudante apenas pela quantidade de caracteres que consegue empilhar no título. Uma análise qualitativa mostra-se bem mais gratificante. Ou talvez não.

Nalguns casos, os espíritos mais sensíveis poderão mesmo fraquejar. Porque dar de caras com títulos como “Microtubulos plastidiais” (1980) pode desencadear, para lá de um caso agudo de histeria googliana, uma série de fenómenos psicossomáticos que incluem, entre outros sintomas, tonturas, urticária e cãibras oulares. Valha-nos que este é curto. Encarem-no com uma espécie de período de aquecimento. Vêm aí os alongamentos.

“Operações implícitas sobre pseudovariedades de semigrupos. Aplicações.” Caramba, não fosse esta última informação e ficávamos a zero. Assim é claro como água: o trabalho debruça-se sobre as aplicações das operações impl... bolas, mesmo assim não se percebe nada! Ainda assim, consegue-se dizer tudo de um fôlego sem termos de receber respiração boca-a-boca do funcionário barbudo da biblioteca, mas a cena fica bem mais feia quando nos aparece esta maldade: “A metodonomologia entre a semelhança e a diferença: reflexão problematizante dos pólos da radical matriz analógica do discurso jurídico.” Caramba, por muito menos do que isto houve quem ardesse nas fogueiras da Inquisição!

Algum masoquista na audiência? Então cá vai: “Geoquímica e petrogénese de granitóides biotíticos tarditectónicos e pós-tectónicos – implicações metalogénicas” (1999). Ou então: “O semantismo referencial nos processos terminogénicos da terminologia da senologia” (2003). Ainda há alguém de pé? Eis o golpe final, talvez o momento mais delirante da história do planeta desde que Deus criou os flamingos cor-de-rosa: “Cópias de Griboc, propagadores de gluões e de campos fantasmas, sinais de confinamento e algoritmos para a escolha da gauge em cromodinâmica quântica sem campos fermiónicos na rede” (2008). Amén.

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