"Lamento muito, mas fui mesmo embarretado", diz Nicolau Santos

Director adjunto do Expresso assume o erro que levou o semanário e a SIC a dar espaço a um suposto especialista da ONU que afinal não é o que dizia ser.

Baptista da Silva (à direita) no programa Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias DR

O director adjunto do semanário Expresso, Nicolau Santos, lamentou, em declarações ao PÚBLICO, ter-se “deixado enganar” por Artur Baptista da Silva, o homem que disse coordenar uma equipa da ONU encarregada pelo secretário-geral Ban Ki-moon de apresentar um relatório da crise na Europa do Sul. Recusou, contudo, que “ alguém possa concluir” que ele próprio, “o Expresso ou os jornalistas em geral privilegiam quem critica o Governo”.

“Tudo se resume a isto: cometemos um erro terrível, do qual me penitencio – não confirmámos se aquele senhor era quem dizia ser. Para além disto, qualquer conclusão é abusiva”, disse Nicolau Santos.

Segundo afirmou, ele próprio almoçou, em Novembro, com Baptista da Silva, que, considera, mostrou ter “um discurso bastante consistente e credível do ponto de vista económico”. Aquele entregou-lhe um cartão que, segundo o director adjunto do Expresso, “não parece ser forjado” e alguns documentos, alegadamente da sua autoria, “sobre os temas em que dizia ser especialista”.

“Cometemos um erro, mas não foi sequência da pressa ou da precipitação”, refere Nicolau Santos. Conta que, depois desse encontro, uma jornalista do Expresso foi assistir a uma conferência do alegado especialista da ONU, “no Grémio Literário, uma organização prestigiada e insuspeita, feita perante inúmeros notáveis”. Só mais tarde se realizou a entrevista publicada na edição do Expresso no dia 15 – na qual Artur Baptista da Silva propôs a renegociação da dívida –, na sequência da qual o próprio Nicolau Santos o convidou  para o programa da SIC Notícias Expresso da Meia-Noite", de sábado passado.

“Lamento muito, mas depois de 32 anos de jornalismo fui mesmo ‘embarretado’”, disse o director adjunto, que afirma “não ter dúvidas” de que, tal como noticiou a SIC e confirmaram, depois, outros órgãos de comunicação social, “Artur Baptista da Silva será um impostor”.

Em declarações ao PÚBLICO, Nicolau Santos lamentou que “sendo o Expresso um jornal credível, possa ter induzido em erro outros órgãos de comunicação social, como a Reuters e a TSF”, que, nota, “também não se certificaram” da idoneidade da fonte.

Questionado sobre a possibilidade de o erro ter consequências em relação à sua posição no jornal, Nicolau Santos disse que o assunto será debatido pelo Conselho de Redacção, mas que não considera que se coloque tal hipótese. “Não tirei qualquer vantagem deste caso, como é óbvio, e por erros destes muitos de nós, em muitos lados, teríamos de nos demitir”, comentou.

Também disse não ter lido a crónica de Henrique Monteiro, ex-director do Expresso, na edição online do semanário, que comenta que “se o burlão fosse a favor de Passos Coelho e de Gaspar não teria o mesmo eco” e que “a imprensa tem, no geral, um enviesamento para a esquerda”. Ainda assim, fez questão de se antecipar “a eventuais afirmações que venham a ser feitas” nesse sentido, dizendo que “não as admite”. Os jornalistas estão, sim, “interessados em ouvir pessoas novas, de fora dos círculos habituais, que apresentem propostas, como parecia ser o caso”, disse.
 
Contexto favorável à dramatização
Ouvido pelo PÚBLICO, o sociólogo Boaventura Sousa Santos afirmou que o eco na opinião pública das posições de Baptista da Silva se justifica pela “polarização muito grande do debate entre os que apoiam as políticas do Governo e os que as contestam e consideram que elas estão a resultar na destruição do Estado social”, como ele próprio. “O clima é de muita tensão e as pessoas de um e de outro campo estão ávidas de dados e de argumentos que reforcem as suas posições”, comentou.

O sociólogo considera que “é possível que a figura de Baptista da Silva, que serviu para reforçar um dos campos, seja agora utilizada por quem está no campo oposto para descredibilizar quem critica a política de austeridade”. “O contexto é favorável à dramatização, mas este caso nunca será suficiente para pôr em causa a credibilidade de quem há muito apresenta um conjunto de argumentos coerentes para fundamentar as suas convicções”, considerou.

Mecanismos de controlo
Numa nota divulgada esta segunda-feira no site do Expresso, Nicolau Santos assegura que o jornal irá “reforçar mecanismos que permitam um controlo acrescido sobre a credibilidade das fontes”.

Numa análise da situação feita a pedido do PÚBLICO, Felisbela Lopes, investigadora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, considera que “a necessidade de tomar medidas nesse sentido é óbvia”, mas que "este caso é interessante por ser uma caricatura do que se verifica de forma regular pelo menos desde os anos 90, em televisão”.

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