A vida em banho-maria

Onde é que eu falhei? O que é que fiz mal? Claro que não fiz nada de mal, este país é que não está a ser justo comigo. Mas... será que falhei? Os pensamentos contraditórios estão presentes no discurso de alguns jovens adultos que ainda vivem em casa dos pais. Não é que a co-residência seja necessariamente um problema para muitos dos que estão nessa situação. O problema é quando não é uma opção. E quando não há perspectiva de vir a sair. Ana Laura Oliveira, por exemplo, tem o mestrado de Arquitectura Paisagista, mas ainda não conseguiu ser arquitecta. Agora que o Verão está a aproximar-se, faz o que costuma fazer quando os verões se aproximam: trabalha como ajudante de cozinha num restaurante em Portimão. Parte do salário é para pagar o empréstimo que contraiu para tirar o curso. Tem 27 anos. 
Há uma ideia que a angustia: e se se esquecer do que aprendeu na universidade sem ter tido sequer oportunidade de experimentar pôr alguma coisa em prática? 

Maria João Neto é psicóloga. Depois de ter feito o estágio num centro de saúde, e de ter tido 18 na tese de mestrado, chegou a trabalhar em cadeias de supermercado, “nas promoções”, e agora é recepcionista numa clínica médica, em part-time. Ganha 350 euros por mês. Está à beira dos 30 anos, vive com a mãe, o padrasto e o irmão adolescente numa quinta em Alhos Vedros. Na clínica onde trabalha, também há psicólogos a fazer trabalho de psicólogos, mas ela abana a cabeça negativamente quando se lhe pergunta se há a possibilidade de um dia destes passar do balcão da recepção para o consultório. Uma vez “menina do guichet”, sempre “menina do guichet” — é um pensamento desagradável que às vezes lhe ocorre.

André Soalheiro é um aventureiro — aos 19, agarrou no dinheiro todo que tinha, chegava para apanhar um autocarro para Toulouse, sobravam-lhe 50 cêntimos, haveria de se desenrascar. E desenrascou-se. Anos depois, voltou a Portugal, quis assentar, tirou um curso profissional para aprender a arranjar carros, como fazia o avô. Fez tudo: curso, estágio numa oficina. E acabou. Há um ano que manda currículos para todo o lado (para trabalhar com automóveis e não só) e não tem resposta. Para o aventureiro que só queria assentar, é inusitado isto de aos 28 anos ter de voltar a pedir dinheiro à mãe para tudo.

A idade começa a pesar

“Voltei a ser adolescente. E não é bom”, explica André junto à janela de casa, em Odivelas — uma janela com vista para um poste de alta tensão. “É a Torre Eiffel”, ironiza. Qualquer dia, desiste de assentar e levanta voo outra vez, para um país qualquer onde possa ter um salário de novo. 

Maria João, André e Ana foram apenas alguns dos jovens que vivem com os pais com quem falámos nos últimos dias. De acordo com os dados mais recentes do Eurostat, em Portugal, a média de idades de saída de casa da família passou de 28,2 anos, em 2004, para 28,8 anos, em 2012. Maria, André e Ana acham que estão atrasados. E não são os únicos. 

“A idade começa a pesar. Aos 28 anos, é suposto já não estarmos sob tutela económica dos pais, já é suposto ter algum desafogo financeiro”, diz Miguel de Oliveira, 28 anos, de Ermesinde. Na União Europeia, a média de idade de saída mantém-se nos 26,2 anos há quase uma década.

“Desde os 20 anos que não vivia com a minha mãe. Já não estava habituado a certas regras. Se passo uma noite fora ou chego tarde, ela fica doente. Eu tenho 28 anos, mas ela trata-me como se eu tivesse 16...”, diz André, que, entre as várias experiências que já teve, estão dois anos e meio ao serviço da Legião Estrangeira. Sim, as regras militares são mais duras do que quaisquer regras de mãe, mas foi para não ter de se submeter a regras duras que optou por mudar de vida.

Um estudo sobre A Situação Social dos Jovens na Europa, divulgado há umas semanas pela fundação europeia Eurofound (sigla para European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions), mostra que 48% dos europeus entre os 18 e os 29 anos vivem em casa dos pais (os dados são de 2011). E que em relação a 2007 isso representa um aumento de quatro pontos percentuais, o que é directamente associado por Anna Ludwinek, uma das autoras, à crise económica que, em várias dimensões, afecta, em particular, os jovens adultos europeus. 

Em Portugal, aconteceu, de algum modo, o oposto. Em 2011, 55% dos jovens deste grupo etário viviam com os pais, menos quatro pontos do que em 2007, o que também de acordo com Ludwinek se deverá à crise. Como? Muitos emigraram. Já não entram na estatística. Aconteceu o mesmo fenómeno na Irlanda, onde a média de idade de saída é 25,4 anos.

O que é ser adulto

Entre os que ficam, há situações diversas. Há quem tenha prolongado os estudos, para se preparar melhor para o competitivo mercado de trabalho ou simplesmente para poder usufruir de mais algum tempo das experiências que uma vida académica sem pressas proporciona, como Miguel de Oliveira. 

Há quem tenha prolongado os estudos, apenas para colmatar a falta de trabalho e de perspectivas. E há quem não estude nem trabalhe, porque não tem como, caso de André — a taxa de desemprego jovem (tendo em conta apenas indivíduos até aos 25 anos que procuram activamente emprego) era no ano passado de 37,7%, segundo o Eurostat, contra 23,4 % na União Europeia. 

Também há quem tenha estudado, muitos anos nalguns casos, e esteja a trabalhar. O problema é que o salário que aufere não permite sair de casa dos pais — pelo menos como imaginou que sairia. Portugal tem a quarta taxa mais elevada de subemprego da União — cerca de 46% dos trabalhadores que estão em part-time gostariam de poder trabalhar mais horas, mas não têm essa possibilidade. Como Maria João, a psicóloga-recepcionista-em-part-time.

Junto da família, estes jovens adultos têm cama, mesa e roupa levada, e muitos sublinham que se dão bem com os pais, que eles lhes dão liberdade, que não há conflitos, alguns até definem esquemas para apoiar a família, como pagar a luz e a água, ou dar um “x” por mês para a mercearia. Mas alguns começam a sentir falta de coisas mais e menos simples: “Chegar a casa e cozinhar”; “passar as noites com a namorada”; “receber amigos”; “experimentar viver com o namorado”; “ter uma carreira e ser independente”; “ter um salário que permita pagar as contas e ainda jantar fora quanto apetece e viajar”; “pensar em casamento e em ter filhos”...

O tema tem sido estudado por vários autores, sobretudo desde os anos 1990: o modelo tradicional de entrada na “vida adulta” tem sofrido alterações, tem-se “complexificado” por factores tão variados como o prolongamento da escolaridade, o crescimento de aspirações à mobilidade social, a possibilidade de se programar e adiar o momento da procriação, a valorização de um carácter mais hedonista e lúdico da vida, nomeadamente entre os 20 e os 30 anos, a instabilidade que marca muitos arranques de carreira...

Ainda assim, um estudo feito em 2006 pela socióloga Filomena Sousa, no âmbito do doutoramento em Sociologia do Departamento de Sociologia do ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa, mostrava que “ser independente em termos financeiros e residenciais” ainda era a segunda premissa mais valorizada quando se pedia a alguém para definir o que era “ser adulto”. Foi referida por mais de 84% dos 1571 inquiridos, entre os 25 e os 54 anos. Mais relevante só a ideia de “ser responsável”, valorizado por 95% da amostra (mais dados em http://www.seradulto.com/).

"Se as coisas batem no fundo, têm de melhorar"

Cláudia Andrade, professora da Escola Superior de Educação de Coimbra, cujo doutoramento em 2007 se debruçou também sobre a transição para a idade adulta, tem estudado a questão, desde então, com sucessivas amostras de jovens universitários. E acredita que a independência económica e residencial está a perder importância no imaginário juvenil. 
Alguns indicadores: em 2009, 70% dos 224 estudantes universitários inquiridos pela professora consideraram que “ser adulto” passava por “ser financeiramente independente dos pais”; 53% referiram “ter uma carreira profissional estável”; 43% “ter um emprego a tempo inteiro”; 25% “não viver com os pais”. 

Em 2012/13, Cláudia Andrade repetiu as perguntas a um novo grupo de 135 estudantes. E todos estes factores foram desvalorizados na definição de “ser adulto”: “ser financeiramente independente dos pais” foi apontado por apenas 32% dos inquiridos; “ter um emprego a tempo inteiro” por apenas 22%; “ter uma carreira profissional estável” e “comprar uma casa” por 10% e “não viver com os pais” por não mais de 8%. “Fazendo uma leitura ‘rápida’ deste comparativo, existe um forte declínio da importância destas dimensões, na sua globalidade, para que se seja considerado como adulto”, disse à Revista 2.

Se, para muitos, é pacífico esta concepção de ser adulto sem pagar as contas, para outros, não é. Diz-nos uma jovem de 25 anos que preferiu não ser identificada: “Não me sinto uma adolescente. Mas quando era adolescente, pensava que ser adulto era outra coisa do que sou hoje. Tenho um trabalho de grande responsabilidade, sou terapeuta ocupacional, trabalho com crianças. Mas não consigo ganhar o suficiente para deixar de viver em casa dos meus pais. Ser adulto não é isto.” 

Apesar de já ter trabalhado, a recibos verdes, em várias clínicas que se foram atrasando cada vez mais nos pagamentos, esta jovem adulta vai agora começar a fazer um estágio financiado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) para garantir que pelo menos durante um ano tem um salário certo. Estagiária outra vez, portanto. “Não posso pensar em filhos, em ter casa, em casar-me, nada. Pensar no futuro assusta-me. Ao mesmo tempo, digo para mim: ‘Se as coisas batem no fundo, têm de melhorar.’”

Hotel-mamã

Sempre se disse que ficar até tarde na casa da família era uma coisa muito típica dos católicos países do Sul. E, assim sendo, não haveria aqui nada de realmente novo. Na Suécia e na Dinamarca, a média de idade de saída ronda tradicionalmente os 19, 20 anos, na Grécia ultrapassa os 29, na Itália roça os 30, em Malta é de 30,4... a sul, a família alargada é o suporte emocional e económico “natural” (mesmo se há algum “sacrifício” económico associado a isso) em relação à qual só há alguma autonomização, em muitos casos, quando chega a hora de ir viver em casal e formar uma nova família, diz Cláudia Andrade.

A ideia do “hotel-mamã, como algo dos países do Sul, não deixa, contudo, de ter muito de ideológico” e de esconder que nos países do Norte há políticas que promovem a independência dos jovens que o Sul não tem, nota Lia Pappámikail, socióloga do Observatório Permanente da Juventude, do Instituto de Ciências Sociais (Universidade de Lisboa). 

Os portugueses “tornam-se independentes à custa deles”, os “dinamarqueses são muito independentes, com ajuda”, continua Pappámikail. Exemplifica: se não há um mercado de habitação acessível nem apoios ao arrendamento jovem, é natural que um salário de início de carreira não chegue para ir morar sozinho.

Mas o que há realmente de novo é a crise e o seu impacto. Com o aumento do desemprego, da precariedade e a descida dos salários, Lia Pappámikail fala de “vidas em banho-maria”. A co-residência com os pais, que “não é necessariamente infeliz”, já que significa habitar com pessoas significativas do ponto de vista afectivo, passa, em alguns casos, a ser marcada também pela “desesperança num futuro a médio prazo”. 

“No processo de escolarização, as pessoas são incentivadas a estudar, a ter boas notas, a serem boas, porque isso lhes vai garantir trabalho. Ora isto está a ser completamente frustrado. Na escola, sou muito questionada: ‘Professora, eu não sei o que vai acontecer. Acha que devo continuar a apostar neste projecto? Acha que não vou acabar a trabalhar num supermercado?’ Foi-lhes prometido um futuro e o futuro não está lá”, diz Cláudia Andrade.

As palavras assentam que nem uma luva a Maria João Neto. “Onde é que eu falhei? Disseram-me que se fosse boa naquilo que fazia ia conseguir, mas não foi isso que aconteceu.” 

Achava que tinha feito tudo bem: entrou numa universidade pública, mas escolheu o Instituto Superior de Psicologia Aplicada, uma privada, em Lisboa, porque acreditava que dali sairia mais bem preparada. Acordava todos os dias de madrugada, pela frente hora e meia, duas horas de transportes públicos, para chegar a horas à escola. Teve boas notas. Candidatou-se a trabalhar num centro de saúde, como estagiária, e conseguiu boa avaliação. Quando terminou, foi ao IEFP e propuseram-lhe ir para a Força Aérea para fazer um curso e entrar nos quadros. “Não passa pela cabeça de ninguém sair de um curso e proporem-me outro.” Assim, é quase impossível não ficar com dúvidas.

Mais tarde, alguém lhe disse que se queria mesmo tentar empregos menos qualificados para ganhar dinheiro enquanto não surgia algo melhor era bom que escondesse que tinha mais do que o 12.º ano. E foi assim que Maria João passou a ter dois currículos feitos, prontos a entregar a possíveis empregadores: um para a sua área; outro para as cadeias de supermercados. E o tempo tem passado. 

“A maioria das pessoas que eu conheço estão sozinhas, ou casaram-se e foram viver com os companheiros, ou foram para fora de Portugal. É impossível não olharmos para os que nos rodeiam”, diz. “A família é tudo para mim”, sublinha. “E eu sinto que tenho liberdade, vou onde quero, tenho o meu carro, há respeito... Mas já apetece há muito ter um espaço meu.”

Sair de casa... para o ano

Também apetece a Margarida Lázaro, 24 anos, que vive na Malveira. Mas esta licenciada em Relações Públicas, que actualmente trabalha numa agência de comunicação com um ordenado de 700 euros, é bastante pragmática. Tendo noção de que há quem ganhe pior do que ela, diz que não sai da casa da família a qualquer preço. Por exemplo: podia dividir casa com amigas, para fazer baixar os custos de uma renda em Lisboa — já agora, quando for para sair, quer ficar a morar mais perto do trabalho. Mas apetece-lhe “algum sossego”, o que uma partilha de casa com várias pessoas não garante. 

Para além disso, não é exactamente o mesmo “poupar 50 ou 60 euros por mês” que se calhar até dão para, no final do ano, fazer uma viagem, do que poupar 250 euros para uma renda. Por outro lado, uma mudança implica “equipar a casa, comprar uma cama, um colchão, essas coisas”. E já não poderá contar com “os jantares que a mãe faz”. “Tenho um objectivo: sair de casa para o ano. Mas vai depender...”

Outra jovem explica que só sairá de casa dos pais quando conseguir pagar as suas contas e ainda poupar 150 ou 200 euros por mês. A razão é simples: “Se eu quero ter filhos, tenho de conseguir ter esse dinheiro no final do mês para eles.” Perguntamos-lhe se acha mesmo que a maioria das pessoas consegue chegar ao fim do mês com 200 euros de poupança. Ri-se. Lia Pappámikail também se ri quando lhe contamos a história. 

A socióloga admite que alguns jovens tenham “referenciais utópicos” — “Muitos dos pais destas pessoas viveram um período de mobilidade social ascendente, as expectativas dos filhos é continuarem esse movimento, ninguém quer baixar, pelo menos manter.” 

Pappámikail recusa, contudo, as “piadinhas muito comuns” de que os jovens “são comodistas” e que é por comodismo que muitos não saem do ninho. “O que há, em muitos casos, é desemprego, é falta de trabalho, não é preguiça nem comodismo.” E, por isso, lamenta que à falta de perspectivas se soma, frequentemente, “um problema de reconhecimento público” dos jovens que se insinua no discurso político e mediático — “A ideia de que vão aos festivais de música, em vez de estarem a trabalhar. É mentira. Não há trabalho.” 

Lembra, por fim, que está em causa uma geração que pela sua escolaridade e qualificação poderia dar muito mais à sociedade do que dá. Mas não está a conseguir.

O estudo divulgado pelo Eurofound há semanas mostra ainda que quase 40% dos jovens portugueses vivem uma situação de privação material grave — o que representa em relação a 2007 um dos maiores aumentos de taxa de privação da União neste grupo etário. Por privação grave, leia-se, segundo o Eurofound, não conseguir ter a casa quente, não conseguir ter carne ou peixe dia sim, dia não e não conseguir comprar roupa nova.

Pensar na vida

Miguel de Oliveira — que vive com a mãe e as irmãs, o pai trabalha em Angola — está longe de ser um destes casos. Mas, não havendo propriamente dificuldades na família, acha que o dinheiro que os pais gastam com ele podiam estar a gastar “gozando mais certas coisas”. Por isso, está na hora de ser pragmático.

A sua história conta-se de forma rápida e é marcada por paixões várias: em 2005, entrou em Direito na Universidade Católica. Viveu tudo intensamente. “Fiz parte da comissão de praxe, do conselho de veteranos, integrei a direcção da Federação Académica do Porto (FAP), como vice-presidente da direcção.” Tudo isso lhe roubou tempo aos estudos. “A FAP é um trabalho a full-time, sem ser remunerado, um trabalho de grande responsabilidade porque representa 60 mil estudantes.” 

Não se arrepende nada: diz que adquiriu uma série de competências, uma nova paixão, a da organização de eventos, e uma carteira de contactos preciosa nessa área. Era ele o responsável pela organização da semana académica, “um dos maiores eventos de arte performativa do país”, como faz questão de notar com orgulho.  Quando saiu da FAP, pensou em continuar a trabalhar neste ramo mas, diz, constatou que a crise não ajuda a que haja grandes eventos para organizar. 
Também lhe ficou o vício do associativismo e, por isso, fundou com outras pessoas o Ermesinde Sport Clube 1936, de que é um dos vice-presidentes. Mas esse também não é um projecto que lhe permita ter um salário. 

Por isso, agora há que “pensar na vida” como às vezes lhe pede a mãe. E ser pragmático, então. O plano é: “Acabar a licenciatura, arranjar um estágio, inscrever-me na Ordem [dos Advogados] e procurar o meu sustento.” 

Provavelmente, aos 30, ainda viverá com a mãe e as irmãs, porque alcançar uma remuneração que permita alugar “nem que seja um T1” leva tempo. São estas as contas de Miguel. 

André também tenta ser pragmático: depois de fazer o curso profissional, estava lançado para continuar, já que na oficina onde estagiou lhe disseram que não havia clientes suficientes para justificar uma contratação. Ainda se inscreveu numa instituição de ensino superior privada para fazer uma especialização — e quem sabe a seguir viria a licenciatura. Mas as propinas eram 280 euros e ao fim de meses desistiu. “Era demais. É a minha mãe que me sustenta.” 

Ana Laura também é pragmática, quando vai trabalhar para as cozinhas dos restaurantes no Verão. Mas não consegue evitar pensar que alguns dos seus “amigos que não estudaram estão hoje casados, têm casa, cão, gato, filhos”, um salário garantido. Já ela, que foi para a universidade, não tem nada disso.

O investimento foi grande. De tempo e de dinheiro. Começou por estudar Medicina Dentária, numa universidade privada, no Porto. Não gostou e desistiu no 2.º ano. Depois, voltou a Portimão e esteve uns meses a preparar-se para fazer exame de Geometria Descritiva e poder candidatar-se a Arquitectura. Entrou na Universidade de Évora e descobriu uma vocação. Quando chegou a altura de escrever a tese de mestrado, regressou a casa da mãe, em Portimão... foi quando começou a mandar currículos sem receber resposta. 

Há um ano e meio que está a tentar arranjar um estágio profissional. “Nos ateliers, dizem que não têm trabalho sequer para eles. Mesmo sabendo que quem vai pagar o meu salário como estagiária é o IEFP, não aceitam. Um estagiário é sempre visto como uma fonte de despesa, quanto mais não seja porque gasta luz, papel, água. Nas câmaras municipais, nem respondem. Faço o choradinho: sou desempregada, jovem, estudei anos e anos...” Nada.

No início deste ano, percebeu que tinha outro problema: teria de começar a pagar o empréstimo que fez para tirar o curso em Évora. “Foi uma coisa do nosso ex-primeiro-ministro José Sócrates: empréstimos para estudantes. Não era preciso fiador, a taxa de juro era baixa. O problema é que quando fiz o empréstimo pensava que poderia só pagar quando acabasse o mestrado e com um ano de perdão.” Na verdade, o empréstimo era para a licenciatura, não para o mestrado, e como se atrasou na conclusão dos estudos, o ano de perdão já foi. “Estou a pagar 300 euros por mês ao banco. Vou pagar durante dez anos, sendo que se paga mais no início do que nos últimos anos, o que não faz sentido porque espero daqui a dez anos estar numa situação melhor do que hoje.”

As pessoas perguntam-lhe porque não emigra. E fica um bocadinho irritada. Responde que até para emigrar é preciso dinheiro. E ela neste momento não o tem. Tem um empréstimo para pagar. 

“Não ter a certeza de que se vai ter emprego nem se este permite ter uma vida independente”, “não ser socialmente visto como responsável”, “ter de esperar muito tempo para se ter um emprego estável”, “adiar a ideia de ter a sua própria família” e “depender economicamente dos pais ou de outros familiares” são as cinco principais “barreiras para se ‘ser adulto’”, identificadas por alguns dos jovens que Cláudia Andrade tem entrevistado para o seu mais recente trabalho sobre a importância do trabalho (ou a falta dele) nos processos de transição para a idade adulta.

Ana Laura não conhece esse estudo. Mas reconhecerá as suas conclusões. “É complicado a partir de certa idade voltarmos a habituarmo-nos às rotinas dos pais... mas sobretudo há a questão de independência. É um golpe no orgulho ter de pedir coisas à mãe, com esta idade. Até porque ela é funcionária pública, tem sofrido vários cortes no salário. Não é fácil. No Inverno, tento viver com o que ganho no Verão.” Mais pragmática do que isto não consegue ser. “Gostava de ter três filhos. A minha mãe ri-se quando digo isto. Neste momento era impossível, claro.” Mas ainda só tem 27 anos.

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André Soalheiro, 28 anos: "Voltei a ser adolescente. E não é bom" Nuno Ferreira Santos
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